LUCIMAR BENTO DE FARIA

LUCIMAR BENTO DE FARIA “SEXO, INTRIGA E PODER DA IGREJA CATÓLICA”: UM ESTUDO DE RECEPÇÃO A PARTIR DE UMA REPORTAGEM TELEVISIVA Monografia apresentad...
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LUCIMAR BENTO DE FARIA

“SEXO, INTRIGA E PODER DA IGREJA CATÓLICA”: UM ESTUDO DE RECEPÇÃO A PARTIR DE UMA REPORTAGEM TELEVISIVA

Monografia apresentada ao curso de Graduação em Comunicação Social - Jornalismo da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do Titulo de Bacharel em Jornalismo. Orientador: Dr. Joadir Antônio Foresti

Brasília-DF 2014

Dedico este trabalho a Deus por ter me dado a benção da vida, a minha família por todo apoio e aos professores pelo conhecimento compartilhado.

AGRADECIMENTOS

Este trabalho foi extremamente instigante e cativante, mesmo com a pressão do tempo e da responsabilidade que ele requer. Agradeço a minha mãe por sempre se preocupar e cuidar de mim com seu amor incondicional e ao meu pai. Apesar de não estar mais presente nos meus dias, foi uma pessoa que trabalhou incansavelmente para que nada me faltasse. Ensinou-me o valor da dedicação e do esforço, para lutar por aquilo que acredito. Sempre o terei em meu coração. A saudade é eterna. Ao meu irmão, Gilmar, pessoa muito querida e amada, agradeço pelo apoio, carinho e por acreditar na minha capacidade para alcançar os meus anseios. Sem seu suporte não teria efetivado mais uma meta em minha vida. Por isso, serei eternamente grata. Agradeço aos professores por transmitirem seus preciosos conhecimentos e me mostrarem um mundo de oportunidades. Igualmente, agradeço ao meu orientador, Joadir Foresti, por ter sido a “bússola” que me mostrou o caminho certo, quando eu estava perdida. Sem sua paciência, atenção, confiança e inúmeros pareceres sobre a evolução da pesquisa, não seria possível chegar ao final da confecção desta monografia. Dessa forma, meu agradecimento especial ao meu mentor e amigo de trabalho. Da mesma maneira, agradeço aos amigos que estiveram próximos me incentivando e fazendo cada dia único durante esses quatro anos de curso. Também quero expressar a minha sincera gratidão a todos aqueles que se voluntariaram para o desenvolvimento desta pesquisa. Fazer este trabalho contribuiu para o meu conhecimento e espero que ele possa ajudar no desenvolvimento de muitos outros saberes.

Aprender é uma coisa que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende. (Leonardo da Vinci)

RESUMO

Referência: BENTO, Lucimar. O Noticiário de TV e a Opinião Pública: um estudo de recepção a partir da reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica. 2014. 90 páginas. Monografia (Comunicação Social- Jornalismo)- Universidade Católica de Brasília, Taguatinga, 2014.

Este trabalho monográfico tem por objetivo analisar como é construída a opinião de um individuo a partir da recepção das informações divulgadas pelos meios de comunicação. O objeto de estudo para análise desta pesquisa são os crimes de pedofilia cometidos por padres católicos. A partir da reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica, realizada pelo repórter Roberto Cabrini e transmitido no programa Conexão Repórter, da emissora SBT, foi possível investigar a percepção dos fieis. Como técnica de coleta de dados, foi utilizada a entrevista em profundidade com fiéis católicos da Capela Todos os Santos, localizada em Ceilândia- a maior cidade do Distrito Federal (DF). Como base teórica, apropriou-se de conceitos como realidade social, cristianismo, igreja católica, pedofilia, opinião pública e televisão, fundamentando-se em autores como Sarah Chucid da Viá, François Jost, Wolf, Martin-Barbero entre outros, que iluminaram o caminho até análise, em que foi observado o comportamento e as repostas dos fiéis católicos a respeito dos crimes de pedofilia cometidos por sacerdotes. Analisadas as hipóteses, constatou-se que a notícia sobre os crimes de pedofilia não influenciaram de forma evidente na construção da opinião dos fiéis sobre as doutrinas da Igreja. Por outro lado, os fiéis são unânimes em desejar que os padres culpados sejam levados à justiça.

Palavras- chave: Recepção; Opinião; Televisão; Igreja católica; Pedofilia.

ABSTRACT

This monograph aims to analyze how it is constructed opinion of an individual from receiving the information disseminated by the media. The object of study of this research are to analyze the crimes of pedophilia committed by Catholic priests. From the article Sex, Intrigue and Power of the Catholic Church, conducted by reporter Roberto Cabrini and broadcast reporter in Connection program, the broadcaster SBT, it was possible to investigate the perception of the faithful. As a technique for data collection, the interview was used in depth with Catholics of All Saints Chapel, located in the largest city Ceilândia- the Federal District (DF). Theoretical base, appropriated concepts such as social reality, Christianity, Catholic church, child abuse, and public television, basing himself on authors like Sarah Chucid the track, François Jost, John Francis Junior Duarte, among others, that illuminated the way to analyze where the behavior and responses of the Catholic faithful about the crimes of pedophilia committed by priests were observed. Analyzed the hypotheses, it was found that the news about the crimes of pedophilia did not influence evident in the construction of the opinion of the faithful about the Church's doctrines. On the other hand, believers are unanimous in desiring that priests guilty are brought to justice.

Keywords: Reception, Information; Opinion; television; Catholic Church.

LISTA DE ILUSTRAÇÃO

Figura 1. Genealogia das denominações cristãs ...................................................................... 28 Figura 2. Hierarquia da igreja .................................................................................................. 34

LISTA DE TABELA

Tabela 1. Comportamento durante a entrevista.................................................................64 Tabela 2. Comparação de respostas dadas pelos participantes..........................................65

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SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 11 2.1 O BRASILEIRO E O HÁBITO DE VER TV ............................................................... 13 2.2 HIPÓTESES E OBJETIVOS ......................................................................................... 14 2.4 O PROCESSO METODOLÓGICO .............................................................................. 16

3 O PODER DA INFORMAÇÃO: NOTÍCIA E INFLUÊNCIA ................................. 18 3.1 COMUNICAÇÃO MIDIÁTICA ................................................................................... 18 3.2 MENSAGEM E A FORMAÇÃO DA COMUNICAÇÃO ........................................... 22 3.3 OS ESTUDOS DA RECEPÇÃO E A RELAÇÃO SOCIOCULTURAL ...................... 24

4 O CENÁRIO RELIGIOSO E A OPINIÃO PÚBLICA ............................................ 26 4.1 CRISTIANISMO - UMA SÓ RELIGIÃO E MUITAS IGREJAS ................................ 26 4.2 A IGREJA CATÓLICA ................................................................................................. 30 4.3 HISTÓRIA E ORGANIZAÇÃO HIERÁRQUICA DA IGREJA CATÓLICA ............ 32 4.4. A FORMULAÇÃO DA OPINIÃO PÚBLICA ............................................................. 36

5 A CONSTRUÇÃO DA REALIDADE SOCIAL E A TELEVISÃO ........................ 38 5.1 TELEVISÃO: IMAGEM E REALIDADE .................................................................... 40 5.2 SBT E CONEXÃO REPÓRTER .................................................................................. 42 5.3 PEDOFILIA ................................................................................................................... 44

6 COLETA DE DADOS: A IGREJA A PARTIR DA VISÃO DOS FIÉIS ............... 46 6.1 ENTREVISTAS E ANÁLISE ....................................................................................... 46 6.2 ANÁLISE E RESULTADOS ........................................................................................ 59

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 66 REFERÊNCIAS ........................................................................................................... 68 ANEXO ........................................................................................................................ 75 ANEXO A- PERGUNTAS DA ENTREVISTA.................................................................. 75

APÊNDICE ................................................................................................................... 76 APÊNDICE A – TRANSCRIÇÃO DO PROGRAMA ....................................................... 76

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1 INTRODUÇÃO Este trabalho de conclusão de curso visa investigar o processo comunicacional na instância da recepção telemedíatica e da formação da opinião para compreender o manejo da disseminação da informação feita pela cobertura jornalística na televisão e observar a percepção dos telespectadores. A escolha para este estudo se dá pela concepção que partiu do conceito trabalhado por muitos autores de que a notícia, como informação, tem a capacidade de influenciar na construção da opinião pública e nas decisões sobre questões sociais, dando aos órgãos de comunicação o poder de controlar a informação. Mas veremos que apesar dos indivíduos necessitarem de informação para conhecer a realidade, não são seres passivos e nem sempre compartilham da mesma opinião pois a realidade social pode ser percebida de diversas maneiras dependendo do contexto em que o indivíduo ou o grupo de indivíduos se encontram. Isto é, da cultura, do grau de conhecimento para interpretar o fato que é apresentado. Nesse sentido, como os veículos de comunicação podem influenciar na formação da opinião social? Essa é uma das problematizações que estimularam o interesse desta pesquisa. Entretanto, é algo que demandará mais tempo de estudo, devido à complexidade de abordar a influência. Por isso, optamos por trabalhar com a recepção e a sua articulação com a formação da opinião pública, como o primeiro passo de uma longa jornada de futuras pesquisas para saciar a curiosidade da influência midiática. A meta é verificar se as notícias sobre os crimes de pedofilia praticados pelos padres da Igreja Católica Apostólica Romana e divulgados pela televisão influenciaram a manifestação das doutrinas da igreja e também analisar as opiniões dos fiéis sobre os crimes de pedofilia praticados por padres na Igreja Católica e seu enquadramento legal. Para propósito deste estudo, iremos analisar a experiência televisiva dos fiéis católicos por meio da reportagem1 Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica do jornalista Roberto Cabrini, transmitida em 2010, no programa Conexão Repórter do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). A matéria aborda crimes de pedofilia cometidos por padres da religião católica, na capital do Estado de Alagoas. São três as razões para ter escolhido essa reportagem. A primeira delas é porque foi transmitida em um programa telejornalístico. E, entre os meios de comunicação o telejornalismo é eficiente para representação da realidade _______________________ 1

“A reportagem é caracterizada como um relato “essencialmente informativo” que produz um fato ou acontecimento de interesse atual.” (MELO, 1994, p.48) [Destacado pelo autor].

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social, porque é a união da TV, que utiliza a imagem e do jornalismo que busca relatar os acontecimentos. Além disso, a televisão é o veículo de comunicação mais utilizado pela população brasileira, independente de classe, raça, sexo ou idade (PESQUISA BRASILEIRA DE MÍDIA, 2014). O segundo ponto é por se tratar de uma reportagem que envolve uma das maiores organizações religiosas, na qual interfere no comportamento da sociedade e contribui para formação da identidade cultural do indivíduo. Por último, a reportagem será o nosso objeto de pesquisa e servirá como reflexo do objetivo de estudo que são os crimes cometidos por padres - importante sacerdote na hierarquia da Igreja Católica por conduzir a comunidade paroquial e guiar o povo, como representante de Jesus Cristo. No caminhar desse estudo apresentaremos teorias e conceitos como, a opinião pública, a realidade social, televisão, Igreja Católica, pedofilia, entre outros, para, depois chegar à interpretação e estruturação de percepções, coletados por meio de entrevistas com fiéis da Capela Todos os Santos vinculada a Paróquia Santíssima Trindade, localizado em CeilândiaDF. A Capela é uma comunidade católica frequentada pela pesquisadora desde que ela era criança. Isso facilitou a encontrar os voluntários que tivessem as características necessárias para a realização do estudo exploratório. Ao todo foram selecionados seis voluntários para o desenvolvimento da análise. Cada voluntário, com o seu modo de vida e grau de informação sobre a igreja e os casos de pedofilia cometidos por padres. O método aplicado para execução da coleta de dados foi a entrevista em profundidade, com perguntas qualitativas. Por meio desse método foi possível aproximar e adaptar as perguntas de acordo com o diálogo e o perfil de cada voluntário. Isso possibilitou identificar o contexto em que o individuo vive, isto é, a sua cultura, identidade, nível de conhecimento. Além disso, possibilitou verificar como os fiéis receberam e convivem com a informação sobre padres pedófilos. Será que as notícias sobre crimes de pedofilias na Igreja Católica Apostólica Romana podem ter mudado a forma de pensar da comunidade de fiéis, da comunidade em questão? O aprofundamento do trabalho proposto contribui, de forma direta ou indireta, para o desenvolvimento e compreensão sobre a influência da mídia e para a conscientização da sociedade sobre o seu poder. Parte-se do pressuposto de que a população em geral também tem interesse em aumentar a conscientização a respeito dos direitos à comunicação e à informação e, desta forma, buscar modificações na comunicação social.

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2 PONTO DE PARTIDA Antes de entrar no estudo propriamente dito do objeto proposto, delineiam-se alguns tópicos que buscam justificar, problematizar e indicar objetivos para este estudo. Dessa forma, acredita-se que a proposta da pesquisa fica mais clara, para depois seguir com os tópicos intrinsicamente envolvidos nas teses a serem levantadas.

2.1 O BRASILEIRO E O HÁBITO DE VER TV A religião Católica Apostólica Romana compõe uma grande parcela da polução. Segundo o último censo do IBGE realizado em 2010 e publicado no ano de 2012 os católicos representam 64,6% da população brasileira. A reportagem Sexo, Intriga e Poder na Igreja Católica do jornalista Roberto Cabrini, é um reflexo do poder que a repercussão de pedofilia praticado por padres na Igreja Católica Apostólica Romana exerce sobre a audiência e, por isso, contribui de modo significativo para o desenvolvimento deste estudo. Embora a reportagem tenha sido reproduzida em 2010, os elementos por ela abordados continuam presentes na memória de boa parte da população. Segundo o SBT, a matéria do Roberto Cabrini teve um alcance internacional, pois chegou a ser tratada nos jornais New York Times, dos Estados Unidos, Le Monde, da França e El Pais, da Espanha. Além disso, “a reportagem fez com que o Vaticano, pela primeira vez na história, reconhecesse casos de pedofilia da Igreja Católica no Brasil. A CPI que investiga crimes de pedofilia no País também investigou o caso e prendeu o monsenhor acusado de abusos durante uma audiência” (SBT, 2010). Outro fato ao qual devemos dar atenção, é a matéria do jornalista Cabrini ter sido veiculada por um canal de televisão aberto. De acordo com a Pesquisa Brasileira de Mídia (2014) realizada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, a televisão continua sendo o meio de comunicação social mais acessado pela população brasileira, mesmo com o desenvolvimento acelerado da internet. A pesquisa (Idem.) revela que 97% dos entrevistados, independente do sexo, da idade, da renda e do nível escolar, têm o hábito de ver TV, sendo que 67% dos brasileiros assistem mais a canais abertos. Além do mais, entre os programas mais vistos, estão os telejornais. Os dados também mostram que, somente no Distrito Federal, 59% dos brasileiros assistem à

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televisão, em média três horas, todos os dias. E a TV aberta é o formato de televisão mais vista pelos moradores da capital federal, somando um total de 47% da população local. Como apontado nesse trabalho, o SBT é um canal de TV aberta, onde a reportagem do jornalista Roberto Cabrini foi veiculada. A escolha do canal SBT foi aleatória, até porque não se pretende aprofundar nessa pesquisa a ideologia de emissoras de televisão. É importante ressaltar ainda que, em 2010, época que a reportagem foi veiculada, a porcentagem de pessoas assistindo à TV aberta era de 83,5%, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Meta Pesquisa de Opinião (OPINIÃO, 2010).

2.2 HIPÓTESES E OBJETIVOS Assim como muitos pesquisadores da comunicação, Souza (2012) diz que a mídia pode manusear a opinião pública influenciando as decisões e opiniões da sociedade. Então, será que a mídia exerce influência sobre a sociedade? A mídia pode intervir na opinião das pessoas? No trabalho utiliza-se a reportagem Sexo, Intriga e Poder do Roberto Cabrini como objeto de pesquisa. Que notícias sobre os crimes de pedofilia da Igreja Católica podem ter mudado a forma de pensar da sua comunidade de fiéis? É possível que a notícia divulgada pela TV tenha abalado a crença dos fiéis sobre a igreja? Diante desses questionamentos, as hipóteses deste trabalho são: 

A notícia sobre os crimes de pedofilia praticados pelos padres da Igreja Católica Apostólica Romana e divulgada pela televisão não influenciou na construção das opiniões dos fiéis sobre as doutrinas da Igreja;



O fato de a Igreja Católica ser uma instituição religiosa universal com maior número de seguidores e manifestações religiosas, além de seus líderes não poderem casar ou manter um relacionamento amoroso, contribuiu para a repercussão da notícia sobre a pedofilia ocasionada por padres e pela produção e veiculação da reportagem Sexo, Intriga e Poder na Igreja Católica;



A reportagem se utiliza de discurso apelativo para provocar sentimentos de indignação e compaixão;



Os fiéis católicos querem que os padres sejam levados à justiça como qualquer outra pessoa que infringiu a lei;

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O caso de pedofilia envolvendo padres da Paróquia de São José, da Paróquia Nossa Senhora do Carmo e da Catedral de Nossa Senhora do Bom Conselho, localizadas em Arapiraca cidade do Estado de Alagoas foi abordado na reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica feita pelo jornalista Roberto Cabrini e veiculada em 2010 no programa O Conexão Repórter, do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT). Por meio dessa notícia, o estudo tem a intenção de observar se houve influência nas manifestações religiosas e nas construções das opiniões dos fiéis a respeito das doutrinas da Igreja. Diante do objetivo exposto, também procura-se aprofundar outros itens, necessários à análise do tema, como os objetivos específicos, destacam-se: 

Verificar se a notícia sobre os crimes de pedofilia praticados pelos padres da Igreja Católica Apostólica Romana e divulgada pela televisão influenciou na manifestação da opinião sobre a doutrina da Igreja;



Contextualizar a história da Igreja Católica no Brasil para entender a repercussão das práticas de pedofilia ocasionadas por padres;



Analisar a relação da televisão com a sociedade e suas implicações para o desenvolvimento da opinião, contextualizando o programa jornalístico e a emissora em que a notícia foi divulgada;



Analisar a opinião dos fiéis sobre os crimes de pedofilia praticados por padres na Igreja Católica e seu enquadramento legal;

Diante a dessas premissas, a pesquisa será realizada com os fiéis da Capela Todos os Santos, da Paróquia Santíssima Trindade, situada na cidade de Ceilândia, no DF.

Este

ambiente foi escolhido por ser composto por indivíduos de idades diversificadas que já se estabeleceram há muito tempo no local e têm raízes, não só religiosas, mas culturais que permitem um estudo em maior profundidade. O fato de a comunidade religiosa ser conhecida da pesquisadora também contribui para que se possa extrair um conjunto de informações e impressões mais detalhadas a cerca do tema.

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2.4 O PROCESSO METODOLÓGICO A proposta desse trabalho começa seguindo o percurso metodológico da pesquisa bibliográfica para fins de conhecimento teóricos sobre o tema: “A pesquisa bibliográfica, ou de fontes secundárias, abrange toda a bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo, desde publicações avulsas, boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas, monografias, teses, material cartográfico [...]” (MARCONI; LAKATOS, 1999, p.73). O método utilizado para análise desta pesquisa foi a entrevista em profundidade, com perguntas qualitativas. “A finalidade real da pesquisa qualitativa não é contar opiniões ou pessoas, mas ao contrário, explorar o espectro de opiniões, as diferentes representações sobre o assunto em questão [...]” (BAUER; GASKEL, 2002, p.68). Essa técnica irá aproximar o individuo que está sendo analisado perante o tema, ou seja, possibilitará entender como o católico recebeu a notícia dos crimes de pedofilia e que pensamentos construíram sobre o assunto deixando transparecer a sua opinião, seu cotidiano e seu repertório cultural. Além do mais, a entrevista é procedimento que consiste em fazer uma pesquisa prévia e buscar uma aproximação com os indivíduos que se solidarizaram para o desenvolvimento desse estudo. Aspectos como: tamanho de amostra; que tipo de questionário elaborar; redação das questões; as formas de análise dos dados; margem de erro; como relacionar o questionário com a formatação do banco de dados; o processo de seleção dos indivíduos que devem compor a amostra; entre outros, são alguns pontos importantes que devem ser observados cuidadosamente em qualquer pesquisa. A tentativa de conhecer as percepções, a satisfação, as expectativas e as opiniões dos indivíduos está intimamente ligada a esse contexto e é objeto de estudo de várias áreas do conhecimento. (MANZATO; SANTOS, 2014, p.1)

O objetivo do estudo será exploratório para observar o desenvolvimento da opinião dos fiéis católicos no que diz respeito à reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica, tendo em vista uma familiaridade com a influência da televisão na edificação da opinião do individuo. Nesse trabalho também optamos por realizar o método de abordagem hipotéticodedutivo, como a nossa base lógica de investigação. Esse procedimento de estudo inicia-se com um problema, cuja solução é uma nova ideia, que envolve suposições onde deduzimos consequências, nas quais deverão passar por um teste de verdadeiro ou falso. Ou seja, isso possibilitará testarmos as suposições e os conhecimentos sobre a influência da mediática, para buscarmos novas teorias que ajudarão em futuras investigações e uma boa colocação do problema para orientar a pesquisa e fixar as variáveis a serem analisadas.

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As informações foram coletadas na Capela Todos os Santos, vinculada à Paróquia Santíssima Trindade, localizada em Ceilândia maior cidade administrativa da Capital Federal. Criada em 1992, a Paróquia Santíssima Trindade tem 22 anos de história e identidade, seu nome foi dado pela Arquidiocese de Brasília por ser composta por três comunidades: Paixão, Todos os Santos e Sagrado Coração de Jesus. Infelizmente, a pesquisadora não conseguiu dados históricos da Capela. Segundo o padre da paróquia, não existem registros sobre a construção da Capela. Os sujeitos participantes dessa pesquisa foram mulheres e homens, com idades diferentes e que frequentam a Capela Todos os Santos. Ao todo, foram seis indivíduos entrevistados: Uma catequista, uma jovem crismanda, o padre da capela, um indivíduo que já frequentou a Capela, uma fiel que não participa de nenhuma pastoral e vai ás missas dominicais. Por fim, uma idosa que também somente frequenta as missas dominicais. Os diferentes papéis dos fiéis e as gerações visa uma análise diversificada para buscar compreender se a realidade de cada um pode interferir na percepção da informação. A primeira entrevistada foi a catequista. Devido à pesquisadora frequentar a Capela Todos os Santos há 22 anos e já ter participado da pastoral catequética, não foi difícil a catequista se voluntariar para pesquisa pois já estava familiarizada com a pesquisadora. A segunda entrevista foi uma crismanda indicada pela catequista. A terceira, entrevista foi com um jovem que deixou de frequentar a igreja católica, ele foi indicado pelo irmão da pesquisadora. O quarto entrevistado, também indicação do irmão da pesquisadora foi um homem que frequenta somente as missas dominicais. Já o quinto entrevistado foi o padre da Paróquia Santíssima Trindade e da Capela Todos os Santos. Ele aceitou tranquilamente ajudar na pesquisa. A última entrevista foi com a idosa. Ela precisou ser procurada com mais persistência porque as senhoras da Igreja se recusavam a dar entrevista por não querer falar sobre a pedofilia dos padres ou não se sentirem confortáveis para dar entrevista. Os dados foram coletados por meio de entrevista em profundidade. As entrevistas tiveram como roteiro questões sobre perfil, notícias de telejornais, a importância da igreja e do pároco para a sociedade, além dos crimes de pedofilia cometidos por padres. Algumas perguntas foram adequadas ao perfil de cada participante. As perguntas podem ser vistas no Anexo A deste trabalho.

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Durante a entrevista foi mostrado à reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica. Posteriormente foi perguntado à opinião sobre o que assistiram para assim observar se a matéria causou alguma interferência em suas opiniões sobre a Igreja. Também foram observados detalhes do contexto coletados e anotados em um diário de campo imediatamente após o encontro. A finalidade da observação foi captar informações que não foram explicitadas verbalmente. As entrevistas foram gravadas no celular e posteriormente os áudios foram armazenados em local seguro para manter resguardada a identidade dos informantes. As entrevistas foram transcritas pela pesquisadora. Os locais de encontro para realização da entrevista foi onde o participante se sentisse mais confortável, a maioria, em sua residência. Os participantes tiveram a liberdade e o tempo necessário para falar. As transcrições e as observações vão sendo reconstruídas pelo pesquisador e registradas para análise posterior.

3 O PODER DA INFORMAÇÃO: NOTÍCIA E INFLUÊNCIA Aprofundar o estudo sobre a construção da notícia e, a partir dela, poder sinalizar alguns pontos que ajudem a elucidar as hipóteses e objetivos levantado nesse trabalho, parece ser um caminho necessário e evidente. E em seguida, transitar pelo caminho da formação da comunicação, em especial aqueles dos estudos de recepção, no cenário dos estudos culturais, são alguns dos elementos descritos nas partes que seguem.

3.1 COMUNICAÇÃO MIDIÁTICA O jornalista Moises Viana (2009) afirma que o jornalismo é a atividade profissional responsável por lidar com a informação, que produz a notícia e mantém as pessoas conscientes do que acontece no lugar onde vivem. Para ele, as informações detêm o poder de convencimento e constroem opiniões e determinam a forma como o indivíduo interpreta e compreende o mundo e, por sua vez, pode influenciar no comportamento e decisões sociais, politicas e econômicas. A notícia é um relato sobre acontecimentos que ocorre no mundo, porém não de qualquer eventualidade. “Para que um fato seja noticiado, ele precisa carregar consigo certo teor de novidade, pois o jornalismo se faz demostrar às pessoas episódios que alteram o

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equilíbrio existente no curso normal da rotina que se estabelece com a vivência em sociedade” (REIS, 2011, p.01). O jornalista Luiz Gonzaga Motta (2006) explica que a notícia é uma especificidade entre os fatos que seduz a descrição, narração. O fato tem que ser algo que não se apresente de maneira costumeira, que seja inusitado, absurdo, em suma, ele tem que ser uma exceção e sem isso não há notícia. Assim, também, a escolha de uma notícia, segundo Nelson Traquina (2008, p.80), “tem a ver com a capacidade de um acontecimento incidir ou ter impacto sobre as pessoas”. Ao que parece, a escolha desses eventos se dá por quem determina o que é notícia. “A importância de um acontecimento é avaliada pelo jornalista, que julga se o fato é notícia e deve ser divulgado” (CURADO, 2002, p.15). Essa seleção se faz com base em valoresnotícia. Nelson Traquina (2008, p.94) afirma que “os valores-notícia são um elemento básico da cultura jornalística que os membros desta comunidade interpretativa partilham”. Esses profissionais escolhem os fatos a serem transformados em notícia. A preocupação e o cuidado com a escolha do que será noticiado acorre porque no meio jornalístico, a informação virou uma mercadoria, ou seja, o jornalismo busca relatos que despertem o interesse do consumidor. Viana afirma mais uma vez que “tenta-se capitalizar e comercializar a maior das características humanas, a comunicação. Os processos da informação são granulados midiaticamente e simplificados para manter um mercado crescente que adapta o receptor à lógica evidente desse imenso reality show” (VIANA, 2008). O que pode ser entendido de que a comunicação mediática toma partido daquilo que lhe é mais interessante e lucrativo. Com o passar do tempo, a informação foi sendo apresentada de formas diversificadas para compor a notícia. A difusão da notícia se dá pela mídia, uma ferramenta essencial na sociedade contemporânea. Ela tem uma dimensão central nos diversos âmbitos da população moderna, que são marcadas pelos meios de comunicações de massa2.

_______________________ 2

No século XIX, a tecnologia das comunicações dá origem à comunicação de massa. Comunicação de massa é o processo industrializado de produção e distribuição de mensagens culturais para a coletividade, por meio de veículos de comunicação, aos públicos que constituem a enorme população com o objetivo de informá-la, educá-la, entretê-la ou persuadi-la, promovendo a integração individual e coletiva na realização do bem-estar da comunidade.

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O

progresso

de

novas

mídias

digitais

(internet,

computadores,

modelos

computacionais, redes sociais, entre outras) possibilita que os meios tradicionais de comunicação -rádio, televisão, jornal e a revista- veiculem as informações com mais rapidez. Vencida uma das principais limitações humanas, tempo/espaço, ninguém tem dúvida ao atribuir à vitória dos recursos tecnológicos que veiculam a informação. E logo se percebe também que os avanços tecnológicos fazem parte das necessidades da industrialização, ou que reforça a informação, no caso, jornalística, como decorrência normal do sistema econômico que está na base. Há então a considerar a informação como outro produto, mas um desse sistema. (MEDINA, 1988, p.16)

Ao que pode-se dizer que a ampliação da tecnologia faz parte do processo da produção industrial. Logo, o desenvolvimento das mídias proporcionou mudanças nos serviços de propagação da informação tornando-a um objeto de comércio. Segundo Muniz Sodré: A análise dos diversos aspectos do fenômeno informacional não deixa mais dúvida quanto ao fato de que os meios de comunicação de massa e as tecnologias informacionais são meios gerenciais de um sistema tecnoburocrático, articulado com todas as instâncias sociais de uma economia de mercado. (SODRÉ, 1992, p.79)

Por sua vez, Nelson Werneck Sodré (1999) esclarece que o manejo da disseminação da informação e de ideias observadas ao longo do desenvolvimento da imprensa está marcado pelo capitalismo e pela globalização econômica. Ele, ainda, chega a dizer que, por meio do argumento, fica fácil notar a influência que a difusão da imprensa pratica sobre o comportamento das massas e dos indivíduos. Além do mais, Viana (2009) conta que o jornalismo, com as diversas formas de comunicação, pode induzir e dominar a sociedade, informando segundo a visão da aristocracia, deixando de servir ao bem público e passando a ser usado para desfigurar e esconder a realidade. Motta (2006) também afirma que, além de emitir a informação, a notícia pode exercer várias funções ao mesmo tempo. De acordo com ele, a narrativa de uma notícia tem a capacidade de provocar indignação ou irritação nas pessoas, mesmo que não seja a intenção do emissor. Ou seja, o enunciado, de forma subentendida ou expressa, pode atribuir valores morais e estéticos e estabelecer o que é ruim e bom para uma sociedade. É essa influência que interessa observar no estudo porque é no limite das organizações dos trabalhos jornalísticos, atraídos pelos acontecimentos insólitos, que surpreende e que se opõe a ordem das coisas, ou melhor, a relevância de fatos que, por sua vez, atribui significado à notícia, na qual iremos buscar entender o impacto causado ao receptor das informações.

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O jornalista Perseu Abramo (2003) diz que a visão e a linha editorial da imprensa é que vai selecionar o fato e torná-lo jornalístico e, mesmo que depois tenha sido escolhido um fato jornalístico, a imprensa pode, ainda, selecionar o que poderá ser publicado ou não, ocorrendo, dessa maneira, o padrão de ocultação. Abramo (2003, p.23) defende que “uma das principais características do jornalismo no Brasil, hoje, praticado pela maioria da grande imprensa, é a manipulação da informação”. De acordo com ele, essas manipulações ocorrem porque os órgãos de imprensa não reproduzem a realidade, ou seja, criam uma realidade distorcida. Entretanto, ressalta que essa manipulação do real, originada pela imprensa, acontece de diversas formas, mas não constantemente. Abramo também reforça o que foi afirmado por Viana anteriormente ao dizer que “recriando a realidade à sua maneira e de acordo com os seus interesses político-partidários, os órgãos de comunicação aprisionam nesse círculo de ferro da realidade irreal, e sobre ele exercem todo o seu poder” (ABRAMO, 2003, p.47). Além disso, os meios de comunicação podem utilizar a linguagem do espetáculo para construir um modelo informativo que torne difuso os limites do real, que desperta a curiosidade e prende a atenção da sociedade. Esse fato acontece na população presente, porque vivemos em uma sociedade, conceituada pelo pensador francês Guy Debord, como “Sociedade do Espetáculo”, que é uma concepção definida por ele para especificar a realidade da sociedade pós-industrial. Em seu livro A Sociedade do Espetáculo, Debord (1992, pp. 1315) revela: Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. [...] O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, midiatizadas por imagens. [...] O espetáculo, compreendido na sua totalidade, é ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo de produção existente. Sob todas as suas formas particulares, informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimento, o espetáculo o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e o seu corolário o consumo.

Para Guy Debord, o espetáculo nasce da abundância. Por meio da midiatização de imagens há um acúmulo de fatos que atrai a atenção, ganhando espaço na sociedade, ocupando completamente a vida social, fazendo com que a pessoa deixe de ser agente da sua própria história, passando a ser agente passivo perante o espetáculo consumista.

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Por isso, uma das questões que aparecem diante dessas vertentes é a de existir a possibilidade de a comunicação mediática manipular a visão de realidade da pessoa e posteriormente o modo como formará a sua opinião.

3.2 MENSAGEM E A FORMAÇÃO DA COMUNICAÇÃO Já dizia o pensador Aristóteles: “O Homem é por natureza um animal social”. Isto é, o homem é um ser que necessita se relacionar e interagir com os outros indivíduos; daí a necessidade de comunicação. Esse processo de comunicação, com base no pensamento aristotélico, consiste em uma pessoa emitir e receber por meio físico ou psicológico uma série de mensagens e sinais. Dessa maneira, ocorre um diálogo entre uma pessoa e outra, isto é, um exercício mútuo, tornando o homem um ser social. Maximiliano Martin Vicente (2009, p. 40), investigador da história da comunicação, conta que “a comunicação ocorre apenas quando chega ao receptor, depositário final dos efeitos comunicativos provenientes das informações publicadas nos meios de comunicação, e repercute na consolidação da sociabilidade”. Por isso, compreende-se que as reflexões em entorno do processo comunicacional e do conteúdo das mensagens nos leva, primeiramente, aos estudos sobre os emissores e os seus efeitos. Sim, porque a “iniciativa é uma exclusividade do emissor e os efeitos recaem, também exclusivamente, sobre o público ou receptores” (FERREIRA, 2007, p.42). Mauro Wolf (2009) mostra que esse vínculo entre emissor e receptor repercute na estrutura informacional, na qual a evolução dos emissores foi marcada por características sociológicas e culturais, influenciando a mensagem e posteriormente a construção da informação. Outra interpretação apresentada pelo autor é referente à importância da lógica dos processos na construção das mensagens. Um desses processos é o gatekeeper, que consiste em um grupo ou individuo selecionar o que deve ser informado. Existe uma escolha de informações. “A relevância de um acontecimento é individualizada e avaliada a partir das experiências organizativas do órgão de informação” (WOLF, 2009, p.249). Na análise teórica sobre fluxo da informação jornalística, gatekeeper não é só recusa e aceitação. Para Pereira Junior (2003, p.33), “o turbilhão de estímulos da realidade é captado

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pelo gatekeeper, filtrado em imputs, que serão processados pela caixa preta até virarem outputs (notícia editada) capazes de gerar reações que vão retroalimentar o sistema (feedback), num ciclo permanente”. Pereira deixa transparecer que a construção da mensagem passa por uma edição e isso revela um manejo da informação ou como outros estudiosos dizem: O gatekeeper no mass media inclui todas as formas de controle da informação que podem estabelecer- se nas decisões acerca da codificação das mensagens, da seleção, da formação de mensagem, da difusão, da programação, da exclusão de toda a mensagem ou de seus componentes. (DONOHUE; TICHENOR; OLIEN 1972, p.43 apud WOLF, 2009, p. 182, grifo do autor)

Portanto, a atividade do gatekeeper é o direcionamento prático nos procedimentos comunicacionais, assim como a teoria newsmaking um “[...] estudo da forma como são produzidas as notícias, no qual tenta se analisar os caminhos e as regras que os meios de comunicação se utilizam para contar um determinado acontecimento.” (SILVA, 2011, p.17, apud, MARTINO, 2009, p. 33). Na área comunicativa a teoria newsmaking apresenta muitos pontos conectados com o estudo sobre emissores e o procedimento da sua construção nas comunicações de massas. “O

Newsmaking, que é um aperfeiçoamento do Gatekeeper, estuda com maior minúcia

o trabalho dos profissionais de mídia, na industrialização das informações cedidas pela realidade, ou seja, a transformação da informação em notícia.” (PORTO, 2014). Além disso, a teoria mostra como o jornalismo contribui para a construção da situação real abandonando a ideia de ser um mero reprodutor do fato. Dessa forma, a cultura profissional do jornalismo ajuda nas mudanças cotidianas. Os princípios e a formação do jornalista configuram o conteúdo a ser divulgado. O jornalista deve prestar atenção em uma série de critérios: valores-notícias3, grau de noticiabilidade4, relações pessoais dentro da empresa de comunicação e as rotinas de produção da notícia, na qual define como a informação deve ser emitida. Pereira Junior (2003, p.82) exemplifica estes critérios como elementos em que “a empresa jornalística controla e administra a quantidade e o tipo de acontecimentos, entre os _______________________ 3

Valor-notícia é o fato considerado interessante e relevante para serem transformado em notícia. “[...] Compreendendo noticiabilidade (newswor- thiness) como todo e qualquer fator potencialmente capaz de agir no processo da produção da notícia, desde características do fato, julgamentos pessoais do jornalista, cultura profissional da categoria, condições favorecedoras ou limitantes da empresa de mídia, qualidade do material (imagem e texto), relação com as fontes e com o publico, fatores éticos e ainda circunstâncias históricas, políticas, econômicas e sociais.” (SILVA, 2005, p.96). 4

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quais vai selecionar as notícias”. Isto é, a primeira etapa da seleção dos fatos é saber se tem valor (importância) para ser noticiado, depois observar qual notícia tem maior valor. Gislene Silva (2005, p.98) explica: [...] não basta aos seletores de notícias escolher entre um acontecimento que será publicado e outro que ficará de fora, na gaveta das matérias mortas ou que simplesmente será deletado, sem chance de ganhar vida pela visibilidade noticiosa. Entre os selecionados será preciso escolher novamente quais deles merecem entrar nas chamadas dos telejornais ou quais ganharão as primeiras páginas dos impressos, ou mesmo quais ocuparão mais espaço nas páginas internas. A seleção, portanto, se estende redação adentro, quando é preciso não apenas escolher, mas hierarquizar.

A seleção dos acontecimentos e a hierarquização estão inteiramente ligadas ao valor da notícia. Dessa forma, “[...] podemos creditar os valores/notícia como um componente de noticiabilidade” (PEREIRA JUNIOR, 2003, p. 82). Mas, de acordo com Simão (2013), a noticiabilidade não pode ser definida com exatidão, porque “os critérios que distinguem o que é notícia do que não é notícia variam de jornal para jornal, segundo a sua linha editorial e o tipo de público-alvo”. As análises de Mauro Wolf (2009) revelam que os critérios de importância e noticiabilidade buscam relatar informações significativas sobre o mundo. Isso, porque o autor constatou que o valor-notícia está agregado a todos os pontos de relevância relacionados ao público. Wolf (2009, p.213) conta que “o termo de referência constituído pelo público- pelas opiniões que os jornalistas têm acerca do público- e os limites dessa referência, são um dos aspectos mais interessante e menos aprofundados da temática do newsmaking [...]”. O autor deixa claro que os órgãos de informação têm uma preocupação com a audiência5, mas isso não significa que há um cuidado em saber os efeitos ocasionados ao receptor.

3.3 OS ESTUDOS DA RECEPÇÃO E A RELAÇÃO SOCIOCULTURAL O receptor é um elemento essencial para o processo comunicacional e “[...] nunca se deve esquecer que o objetivo final da comunicação são as pessoas receptoras das mensagens produzidas pelos meios” (VICENTE, 2009, p.35). Isso porque no fim das contas, não se pode

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s.f. Reunião dos indivíduos (ouvintes ou espectadores) que, por suposição, por pesquisa, por estimativa ou por comprovação estatística, assistem a determinados programas de televisão ou de rádio. Ação de prestar atenção ou de ouvir atentamente a pessoa que fala; audição. GRAUS, 7. Dicionário Online de Português, 2009. Disponível em: < http://www.dicio.com.br >. Acesso em: 30 ago. 2014.

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garantir que no, decorrer do processo comunicativo, o receptor decodificará, ou seja, interpretará a mensagem da forma como o emissor espera. Essa visão também é compartilhada por Stuart Hall (2003, p.354) ao explicar que o processo da comunicação não é direcionado em uma única linha e em um só sentido, existe um desvio: “[...] o receptor pode não estar em condições de captar a mensagem que deveria captar”. Para o autor, o receptor não deixa de ser sujeito social inserido em um espaço com contexto cultural, mesmo quando se encontra em interação com os meios comunicacionais. Por esta razão, dependendo do espaço onde o receptor está inserido, a mensagem pode ser recebida de forma divergente. Para Maximiliano Vicente (2009, p.35), os receptores reagem de maneiras diferentes: Afinal, as pessoas expostas às mensagens reagem de maneiras diferentes, não se podendo pensar em um comportamento padrão, universal, aplicável a qualquer contexto ou situação determinada. Tal questão demanda dos historiadores da comunicação social a procura de novas interpretações, novos enfoques e novas avaliações dos efeitos das mensagens sobre as pessoas num contexto específico.

O estudo da recepção trata da sociedade, sua cultura e seus consumos. Stuart Hall (2003) desenvolveu pesquisas dirigindo-se aos estudos socioculturais. Segundo o sociólogo, a mensagem é conceituada por significados e não é aceito passivamente pela plateia ou pelos leitores. Estes interpretam e fundamentam outros significados a partir da experiência cultural de cada indivíduo. Para Hall, o público pode aceitar, argumentar ou rejeitar a mensagem. Isso revela a mudança da lógica da dominação do discurso. Martín-Barbero (2009, p.27) esclarece melhor ao dizer que: [...] Alguns pesquisadores começaram a suspeitar daquela imagem do processo na qual não cabiam mais figuras além da estratégia do dominador, na qual tudo transcorria entre emissores-dominantes e receptores-dominados sem o menor indício de sedução nem resistência.

Essa ideia de que a fabricação industrial ou mass-media detinha o controle social, no entanto, foi questionada pelos estudos da recepção. Em suas análises, Martin-Barbero (2009, p.29) esclarece: Não podemos continuar construindo uma crítica que separa a massificação da cultura do fato político que gera a emergência histórica das massas e do contraditório movimento que ali produz a não exterioridade do massivo ao popular, seu constituir-se em um de seus modos de existência.

O autor propõe a ideia de que a cultura é reciproca da massa, resultado de uma relação entre produção e consumo. Isso significa que a cultura compõe a mídia massiva. Ou seja, “A realidade é que a cultura está na mídia, pois o que é transmitido pelos meios de comunicação

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é cultura” (BRITTOS, 1999, p.2). Diante disso, é possível notar o destaque dado ao receptor como ser ativo deixando de ser visto como apático. Outra coisa, que se pode observar é: Os “estudos de recepção” são hoje considerados um desenvolvimento importante dentro da corrente dos Estudos Culturais – ainda quem nem sempre tenha sido assim. Eles propõe-se analisar as interpretações que o público dá aos textos mediáticos ou, mais amplamente, o consumo ou o uso que o público faz dos textos e das tecnologias de comunicação. (GOMES, 2004, p. 174).

Entender como a mensagem chega ao sujeito é imprescindível para compreender a influência da mídia na construção da opinião pública. Em outras palavras, entre a informação produzida e recebida existe uma interferência, ou seja, uma mediação que são as crenças, hábitos, tudo que molda a cultura cotidiana. Sobre a importância dos meios, Martin-Barbero (2000, pp.154-155) conta: Eu não negava a importância dos meios, mas dizia que era impossível entender a importância, a influência nas pessoas, se não estudássemos como as pessoas se relacionavam com os meios. [...] Para falar da influência, tenho que estudar os modos de relação das pessoas com o meio, e esse modo de relação tem muito a ver com o grau de educação escolar, se em casa há uma vida familiar intensa ou não.

Para Martin, a cultura cotidiana é rica porque determinará como o individuo, seja ele espectador, ouvinte ou leitor, receberá e será influenciado pela informação e conduzido pelo meio. E, no estudo da recepção “a maior parte da investigação estará voltada para recepção televisiva [...]” (GOMES, 2004, p.174). Dessa forma, a tentativa é fazer uma análise do processo de recepção de um produto mediático a partir de uma noção de sujeito sociocultural6.

4 O CENÁRIO RELIGIOSO E A OPINIÃO PÚBLICA 4.1 CRISTIANISMO - UMA SÓ RELIGIÃO E MUITAS IGREJAS O cristianismo é uma religião. Ela surgiu de um desdobramento do Judaísmo7 e propiciou a fomentação do cristão8- um cristão é simplesmente um seguidor de Jesus Cristo. O cristianismo tem suas raízes no judaísmo, do qual é a derivação. A divergência com o judaísmo é revelada pela interpretação da vida de Jesus de Nazaré, pois, para cristões, Jesus é o Messias, aquele que realiza a promessa de Deus anunciada no

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“adj. Relativo à classe ou ao grupo social, bem como à cultura que os caracteriza” GRAUS, 7. Dicionário Online de Português, 2009. Disponível em: < http://www.dicio.com.br >. Acesso em: 30 ago. 2014. 7 O Judaísmo é a religião dos judeus, dos hebreus e dos israelitas e é a primeira religião que acredita em um únicao Deus. (WILGES, 1982) 8 Foi na cidade de Antióquia que se empregou pela primeira vez o termo “Cristão”. Antióquia não ficava muito distante de Tarso, cidade natal do discípulo Paulo responsável pela menção no nome de “Cristo” ou na expressão “o ungido”. (BLANEY, 2012).

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Antigo Testamento. E, mais do que isso, ele é o Deus-Homem, salvador de todos os homens. (RAMPAZZO, 1996, p.103)

A palavra Cristianismo vem de Cristo. E, os cristãos são indivíduos que aceitam e aderem aos ensinamentos de Jesus Cristo. Para os cristãos, seguir os passos e respeitar os mandamentos9 impostos por Deus é uma forma de viver melhor, de alcançar a salvação e após a morte poder ir ao céu (lugar de felicidade suprema) evitando o inferno (lugar de frustração e desespero humano). Irineu Wilges (1982, p.67) acrescenta: O cristianismo ensina que o individuo pode alcançar a salvação também em outra religião e mesmo fora de qualquer religião, contanto que ele siga com honestidade a sua consciência, fazendo o que a sua consciência lhe reclama e pede. Isto porque o cristianismo crê que a consciência humana é o sacrário íntimo onde se manifesta a própria voz de Deus.

Diante do que foi explanado, podemos conceituar que “o Cristianismo é a filosofia de vida que mais fortemente caracteriza a sociedade ocidental [...]” (HELLERN; NOTARKER; GAADER, 2001, p.148). Mas segundo o especialista em história do Cristianismo, Rubens Morais Silva (2014), o Cristianismo- que está presente há mais de dois mil anos na vida humana- também pode ser definida como “fonte cultural, porque há muita gente que não pertence à religião cristã, mas tem os valores culturais cristãos, ou seja, elementos de valores oriundos do cristianismo”. Por fim, ele define “o cristianismo como uma religião que compreende muitas igrejas”. Mas o que é religião? “[...] Cientistas das religiões e teólogos tem frequentemente dificuldade em empregar o conceito religião”. (KÜNG, 1986, p.5). Os autores Hellern, Notarker e Gaader (2001) explicam em sua obra, O livro das religiões, que a definição é difícil, porque as religiões são diferentes em seu contexto histórico e cultural e os pesquisadores interpretam as semelhanças religiosas das mais variadas formas. Há, naturalmente, várias maneiras de classificar as religiões, dependendo do ponto de vista: expansão geográfica, conceitos de Deus e o conteúdo ideológico, ligação sociocultural, etc. Assim fala-se em religião africanas, asiáticas, etc,; ou então, em religiões monoteístas, politeístas, panteístas, etc.; ou em religiões tribais, nacionais e universais. [...] (KONINGS; ZILLES, 1997, p.89)

Embora não se pretenda aprofundar todas as religiões, interessa a religião cristã, primeiramente por ser classificada como uma religião profética10, monoteísta (que acredita em _______________________ 9

Mandamentos são as 10 leis, que segundo a Bíblia, teriam sido escritos originalmente por Deus e entregues ao profeta Moisés. 10 “Religiões proféticas, também chamadas “de revelação”. Pretendem transmitir uma palavra ou mensagem de Deus falando através de “profetas” (termo de origem grega, que significa “porta-vozes”)”. (KONINGS; ZILLES, 1997, p. 90, grifado pelo autor).

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um só Deus), cujo objetivo é ser universal, isto é, ser uma religião mundial, ser uma religião para todos os povos. E, principalmente, por ser o berço do objeto desse estudo. Na terminologia da administração civil são distinguidas várias religiões cristãs, embora em circulo religioso esta maneira cause um certo mal-estar, porque a tendência atual dos cristões é se considerar uma religião só, embora dividida em várias igrejas, confissões ou denominações.[...]. (KONINGS; ZILLES, 1997, p. 90, grifo do autor)

Abaixo segue um esquema da subdivisão da religião cristã em igrejas: Figura 1 Genealogia das denominações cristãs

Fonte: KONINGS, Johan; ZILLES, Urbano. Religião e Cristianismo. 7. ed. Porto Alegre: Edipucrs, 1997. 461 p.

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Como pode ser visto no esquema acima, a igreja era única até o ano 1504, quando foi dividida em católica romana e católica ortodoxa. No século XVI d.C., ocorreu a reforma protestante, quando Lutero lutou contra as doutrinas11 da Igreja Católica. E, depois disso, originaram-se outras igrejas. Mas, como também pode ser observado pelo esquema, entre tantas igrejas, existem somente três principais que tiveram um importante papel na disseminação da religião cristã. São elas: [...] Primeiro, a Igreja católica romana, que é majoritária no Sul da Europa e na América Latina, e tem grandes minorias nos Estados Unidos e na África; em seguida vem a Igreja ortodoxa, centrada na Grécia e na Europa Oriental, e por fim as igrejas protestantes, localizadas sobretudo no Norte da Europa, nos Estados Unidos e na Austrália. (HELLERN; NOTARKER; GAADER, 2001, p.195)

Entretanto, nesse trabalho, iremos falar somente sobre a Igreja Católica Apostólica Romana. Antes de começar a falar da Igreja Católica Apostólica Romana, será apresentado como os cristãos entendem o significado de igreja. Para os cristãos, igreja é muito mais do que um edifício construído com cimento e tijolos onde os fiéis vão rezar. Na verdade, igreja é um conjunto de pessoas reunidas com o propósito de amar o próximo, com a missão de conectar as pessoas a Cristo e com o plano de estar ligada a Deus. A palavra “igreja” é tradução do latim “Ecclesia”, que por sua vez transmite conteúdo do termo hebraico “qahal” ou “qehal”, significado de reunião ou também da própria comunidade reunida. Os cristões chamavam de “Igreja” a comunidade toda do Povo de Deus. Outras vezes, também entendiam como “igreja” uma comunidade reunida em algum lugar [...]. (ARNS, 1985, p.9)

A missão da Igreja é assumir, praticar e transmitir os ensinamentos de Jesus Cristo à toda humanidade e assim santificá-la. Dom frei Paulo Evariso Arns (1985) afirma que a missão da Igreja “é levar a Boa Nova a todos os homens, de qualquer país e de qualquer meio, para transformá-los, a partir de dentro, e assim tornar nova a própria humanidade.” (Iden, p. 27, grifado pelo autor). Ele também conta que “outra missão essencial da igreja. Tornar santo ou cristão. Levar os homens a assemelhar-se, o quanto possível, a Cristo.” (ARNS, p.37). E, _______________________ 11

“Doutrina está sempre relacionado à disciplina, a qualquer coisa que seja objeto de ensino, e pode ser propagada de várias maneiras, através de pregações, opinião de pessoas conhecidas, ensinamentos, textos de obras, e até mesmo através da catequese, como uma forma de doutrina da Igreja Católica” (GUIMARÃES, Dilva; CABRAL, Paulo. In: GRAUS, Significados: descubra o que significa, conceitos e definições. 2011. Disponível em: . Acesso em: 25 set. 2014).

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para cumprir esse encargo, os cristãos utilizam a Bíblia para evangelizar12, que é o livro sagrado, no qual os cristãos encontram as escrituras com histórias da criação até o juízo final. Bíblia é um livro singular. Trata-se de um dos livros mais antigos do mundo e, no entanto, ainda é o bestseller mundial por excelência. É produto do mundo oriental antigo; moldou, porém, o mundo ocidental moderno. [...] A palavra Bíblia (Livro) entrou para as línguas modernas por intermédio do francês, passando primeiro pelo latim biblia, com origem no grego biblos. Originariamente era o nome que se dava à casca de um papiro do século XI a.C. Por volta do século II d.C, os cristãos usavam a palavra para designar seus escritos sagrados. (GEISLER; NIX, 1997, p.06)

A igreja é uma instituição com hierarquias e regras. Segundo o especialista na história do Cristianismo, Rubens Moreira Silva (2014), a partir do momento em que uma religião começa a ser estudada e sistematizada, a Igreja começa a ser originada. O autor explica que: Quando uma religião se institucionaliza, surgem seus teóricos, cria-se bases e doutrinas mais definidas, cria-se um direito organizacional, ritual, comportamental, ela se caracteriza mais como igreja. Muitas religiões não se fazem como igreja, são mais soltas, mais horizontalistas e menos hierárquica, mais ritual que doutrinal, enfim, mais comunitárias e locais. (SILVA, 2014)

Porém, como já foi discorrido até o memento, para os cristãos, a igreja é muito mais que um edifício. Por isso, é importante aprofundar essa relação especifica com o catolicismo.

4.2 A IGREJA CATÓLICA A Igreja Católica Apostólica Romana declara que sua origem veio da ressureição e ascensão de Jesus Cristo e acredita ser a única igreja de salvação. A Igreja Católica tem a convicção de que ela foi fundada por Jesus Cristo e que ela, entre as igrejas cristãs, é a igreja que por sua estreita e interrupta ligação com Jesus Cristo, a quem ela prega, conserva e vive em seus sacramentos e ministérios, por que se deixa continuamente criticar, é a mais excelente articulação institucional do cristianismo. Tem convicção de que nela encontra a totalidade dos meios de salvação. (WILGES, 1982 p.69, grifo do autor)

Além disso, a Igreja acredita firmemente que o apóstolo Pedro foi o primeiro papa. Isto por causa da passagem bíblica, localizada no Evangelho de Mateus, que diz: “Tu és Pedro e sobre esta pedra eu fundarei a minha igreja. E as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei a chaves do reino dos céus, e tudo que desligares na terra será desligado nos _______________________ 12

“A palavra evangelização é derivada da palavra EVANGELHO, (do grego, evanggelizo) que significa “anuncio de boas notícias”, “anuncio de boas novas”, “anuncio de boas informações”, já que evangelho significa boas novas. Evangelização invoca a junção das palavras evangelho e ação. A ação não pode ser outra senão a do Espírito Santo nas vidas que se dispõem ao anúncio das boas novas”. (BÍCEGO, In: SOARES, 2014, p.01). Segundo o Conselho Nacional dos Bispos (CNBB), evangelizar significa: “O serviço ao próximo em nome de Cristo; o diálogo com todos, para a aproximação respeitosa, a busca da verdade e a promoção da convivência fraterna; o anúncio explícito da Palavra de Deus; o testemunho de comunhão, para manifestar a vida nova do Evangelho” (SCHERER, 2010).

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céus” (Mt, 16, 18-19). Para a Igreja Católica, a passagem bíblica revela a escolha do sucessor de Cristo na Terra. Papa Bento XVI explica: As três metáforas às quais Jesus recorre são em si muito claras: Pedro será o fundamento rochoso sobre o qual apoiará o edifício da Igreja; ele terá as chaves do Reino dos céus para abrir ou fechar a quem melhor julgar; por fim, ele poderá ligar ou desligar no sentido que poderá estabelecer ou proibir o que considerar necessário para a vida da Igreja, que é e permanece Cristo. É sempre Igreja de Cristo e não de Pedro. Deste modo, é descrito com imagens de plástica evidência o que a reflexão sucessiva qualificará com a palavra de "primazia de jurisdição" (BENTO XVI, 2006, grifo do autor)

Segundo o mestre em história Leandro Carvalho (2014), “a Igreja Católica é considerada uma das maiores instituições religiosas e políticas da humanidade, desde o seu surgimento na civilização romana até os dias atuais”. Isto é, a Igreja Católica se consolidou por meio da expansão do cristianismo em Roma no período da Antiguidade e da Idade Média. Foi durante o governo de Otávio, primeiro imperador romano, que nasceu Jesus Cristo, em Belém de Judá, que mais tarde fundou o cristianismo. Aos poucos o cristianismo foi ganhando seguidores em Roma. Posteriormente, o imperador Teodósio a instituiu como a religião oficial do império. A Igreja tornou-se dona do mais poderoso dos monopólios, o conhecimento, e passou a deter grande poder ideológico e material. Religiosos cristãos eram os únicos europeus letrados no início da Idade Média. (ÁVILA, 2009, p. 01)

De acordo com a história, ao mesmo tempo em que acontecia a queda do Império Romano do Ocidente e o surgimento dos reinos bárbaros, o cristianismo se fortalecia ganhando território e a Igreja Católica adquiria poder e influência. Nos séculos XII e XIII, a igreja viveu o auge do seu poder e prestigio, rigidamente centralizada em Roma e nos Estados Pontifícios. Esse período foi de importância extraordinária para a criação das universidades, a afirmação das ordens religiosas, a construção das grandes catedrais góticas e os empreendimentos das cruzadas, fruto da união entre o papado e os estados europeus. Na chegada do século XVI, a Igreja Católica atingiu novos horizontes exercendo “[...] papel fundamental na catequização dos indígenas do continente americano no período das Grandes Navegações Marítimas Europeias” (CARVALHO, 2014). Na América do Sul, mas especificamente no Brasil, a Igreja Católica chegou ao período da colonização, em 1808, ao tempo em que a corte portuguesa se transferia para o Brasil. Naquela época, a igreja era responsável pela orientação educacional dos nativos e colonos. A história da educação no Brasil carrega, portanto, a marca indelével do projeto de colonização planejado por Portugal e desenvolvido pela Companhia de Jesus. Acredita-se que a proposta pedagógica dos jesuítas tiveram papel fundamental para

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que o projeto de colonização português pudesse ir além do período do descobrimento. Desde o primeiro momento das investidas lusitanas no Novo Mundo, a campanha jesuítica esteve à frente do projeto educacional, que teve início no século XVI, e que levou a colonização a atingir seu pleno desenvolvimento no século XVIII. (SÁ, 2014, p. 02)

A vida religiosa da Igreja Católica Apostólica Romana começa oficialmente no Brasil com a primeira missa. Segundo a carta de Pero Vaz de Caminha para o rei de Portugal, D. Manuel, encaminhada na época do descobrimento do Brasil, a primeira missa foi realizada no domingo de Páscoa. No dia 26 de abril de 1500, num banco de coral na praia da Coroa Vermelha no litoral sul da Bahia, foi rezada uma missa de Páscoa, a primeira de tantas que desde então foram celebradas naquele que veio a tornar-se o maior país católico do mundo [...]. (SCHILLING, 2014). Não pretendemos aprofundar detalhadamente na história da Igreja Católica Apostólica Romana, no que se refere ao cunho teológico, mas, esse resgate busca introduzir como a Igreja Católica surgiu e chegou ao Brasil.

4.3 HISTÓRIA E ORGANIZAÇÃO HIERÁRQUICA DA IGREJA CATÓLICA A Igreja Católica Apostólica Romana é “uma das organizações mundiais mais fortes e mais rigidamente estruturadas, a Igreja católica é governada por leis estabelecidas com precisão. Sua hierarquia, composta pelo papa, pelos bispos e padres, possui grande autoridade sobre a camada inferior, os leigos”. (HELLERN; NOTARKER; GAADER, 2001, p. 196). A sede da Igreja Católica fica localizada no Vaticano, em Roma. O terreno do Vaticano foi conquistado há muito tempo. Se voltar na história, a igreja ganhou as terras, onde hoje é o Vaticano, por volta do século III. Pepino filho de Carlos Martel contou com o apoio papal e destruiu a dinastia merovíngia cedendo terras conquistadas a igreja. [...] Em 751, o filho de Carlos Martel, Pepino, o Breve, contando com o apoio papal, depôs o último soberano merovíngio. Iniciou-se uma nova dinastia, a carolíngia. Pelo apoio recebido, Pepino cedeu ao papa grande extensão de terra no centro da península itálica. Passando para administração direta da igreja, sob o nome de Patrimônio de São Pedro, esse território constituiu o embrião do atual Vaticano”. (VICENTINO; DORIGO, 2001, p. 112, grifo do autor)

Hoje, o Vaticano é um pequeno país dentro de Roma com suas próprias leis. Isso graças ao Tratado de Latrão que conferia à igreja um território independente dentro de Roma. Con una superficie di appena 44 ettari, lo Stato della Città del Vaticano è il più piccolo stato indipendente del mondo, sia in termini di numero di abitanti che di

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estensione territoriale. I suoi confini sono delimitati dalle mura e, su piazza San Pietro, dalla fascia di travertino che congiunge le due ali del colonnato. Oltre che al territorio proprio dello Stato, la giurisdizione vaticana si estende in un certo senso anche su alcune zone di Roma e fuori Roma, che godono del diritto della "extraterritorialità". Lo Stato della Città del Vaticano è sorto con il Trattato Lateranense, firmato l’11 febbraio 1929 tra la Santa Sede e l’Italia, che ne ha sancito la personalità di Ente sovrano di diritto pubblico internazionale, costituito per assicurare alla Santa Sede, nella sua qualità di suprema istituzione della Chiesa cattolica, "l’assoluta e visibile indipendenza e garantirle una sovranità indiscutibile pur nel campo internazionale", come indicato nel preambolo del suddetto Trattato. (VATIAN STATE, 2014) 13

O Vaticano também é a residência do Papa14 (chefe do Estado do Vaticano e líder de todos os fiéis católicos). “A responsabilidade última, na Igreja Católica, recai sobre a pessoa do Papa”. (ARNS, 1985, p. 95). Isto é, na hierarquia da Igreja Católica Apostólica Romana, o Papa é que tem a palavra final nas questões da Igreja. Em 1870, foi proclamado o dogma da infalibilidade do papa em questões de fé. Em tais casos — na prática aconteceu apenas duas vezes —, diz-se que o papa fala ex cathedra, isto é, de cadeira. Isso não significa que o papa esteja isento de pecado; ele também deve se confessar regularmente. Tampouco ele pode introduzir uma nova doutrina. Mas ele tem a autoridade para decidir se algum assunto está em conformidade com a Bíblia e com a tradição eclesiástica. Ele não toma essas decisões sozinho, e sim junto com os bispos. O papa é igualmente um bispo, o bispo de Roma. Em tempos antigos ele tinha grande poder temporal bem como espiritual e no decorrer da história já houve muitos conflitos agudos entre a Igreja e o Estado. O papa continua sendo o chefe de um pequeno Estado, o Vaticano, que tem sua própria moeda, polícia, estação de rádio, seu próprio correio e corpo diplomático. (HELLERN; NOTARKER; GAADER, 2001, p. 197)

O papa atual é o cardeal jesuíta Jorge Mario Bergoglio, 76 anos, nascido em Buenos Aires- capital da Argentina. Seu nome papal é Francisco 1º. Na hierarquia da Igreja Católica abaixo do Papa está o Cardeal15, em seguida vem o Bispo16, posteriormente o Padre e por fim o Diácono17. Confira abaixo a estrutura hierárquica da Igreja Católica Apostólica Romana.

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Com uma área de apenas 44 hectares, o Estado da Cidade do Vaticano é o menor Estado independente do mundo, tanto em termos de número de habitantes de extensão territorial. Seus limites são delimitados por paredes e, na Praça de São Pedro, no final de travertino, que liga as duas alas da colunata. Além do território do seu próprio Estado, a jurisdição do Vaticano estende em algum sentido em algumas áreas de Roma e fora de Roma, aproveitando a direita do "extraterritorial". O Estado da Cidade do Vaticano é construído com o Tratado de Latrão, assinado em 11 de Fevereiro de 1929, entre a Santa Sé e a Itália, o que permitiu a personalidade do órgão de soberania do direito internacional público, criado para assegurar a Santa Sé, no sua qualidade de instituição suprema da Igreja Católica, "a independência absoluta e visível e garantir uma soberania indiscutível também no cenário internacional", como afirma no preâmbulo do Tratado. (Traduzido por Google) 14 “A palavra papa significa pai. No começo da História da Igreja, era titulo atribuído a Bispos e até mesmo a Padres”. (ARNS, 1985, p. 96) 15 “Cardeal: escolhido pelo papa para compor junto com ele o topo da hierarquia da igreja. Pode ter funções administrativas no Vaticano”. (WALBERT, 2013) 16 Na Igreja Católica o bispo “é o responsável, com o papa, pela administração de uma diocese (reunião de paróquias). Considerado sucessor dos apóstolos”. (Folha, 2005) 17 “Diácono: primeiro nível da ordenação. Assiste o padre e os bispos na celebração dos ministérios. Existem dois tipos de diáconos: o transitório, que recebe o sacramento de primeiro grau para depois ser consagrado padre

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Figura 2 Hierarquia da Igreja

Fonte: Arquidiocese de Campinas. Disponível em: . Acesso em: 13 out. 2014

A igreja Católica Apostólica Romana é uma instituição religiosa gigantesca, pois ela possui unidades espalhadas por todos os continentes.

_______________________ e o permanente, que não tem a intenção de ascender a padre e por essa razão pode ser casado”. (WALBERT, 2013)

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[...] A cadeia de comando da Igreja Católica é baseada na divisão territorial, que tem como principal unidade a paróquia. Não existe um número certo de habitantes para se formar uma paróquia, mas, em geral, ela abrange um grupo mínimo de 10 mil a 15 mil pessoas, o que pode representar um bairro, numa grande metrópole, ou uma cidade pequena. Normalmente cada paróquia tem uma igreja matriz e, dependendo de sua extensão, várias capelas. As paróquias são depois agrupadas em unidades territoriais maiores, como dioceses e arquidioceses. Conforme o religioso vai subindo na hierarquia, maior é a área sob seu controle”. (MUNDO ESTRANHO, 2014)

O padre também conhecido como pároco é a pessoa responsável pela paróquia, pela comunidade ou capela ligada a sua paróquia. Para a Igreja, o padre tem como função aconselhar, educar e cuidar dos fiéis, além de dedicar-se aos serviços sacerdotais. O Bispo de Amparo explica que: [...] Ser padre é uma vocação para o serviço. Ser para a comunidade um sinal (sacramento) da presença de Jesus bom pastor no meio de seu povo. Este ser sinal de Jesus Cristo, é uma vocação, é uma tarefa importante e necessária para o crescimento da Igreja e consequentemente do Reino de Deus, a serviço doa qual está a Igreja. Esta missão deve ser assumida com grande humildade, discernimento e determinação. Ser padre é antes de tudo um serviço de amor (amoris officium). Este serviço de amor é uma doação desinteressada que não tem como objetivo a projeção de si mesmo, nem o lucro pessoal [...]. (CIPOLLINI, 2014)

De acordo com o Anuário Pontifício 2013 (2014) publicado pela Igreja Católica, o número de padres aumentou 2,1% de 2001 a 2011. Isso significa que há 413 mil e 418 padres no mundo. E existem 1 bilhão e 214 católicos em todo planeta. O padre é um sacerdote importante para a Igreja Católica. “Para muita gente, no Brasil, Padre é sinônimo de Igreja. Se o padre vai bem, a igreja é considerada atuante. Se o padre não é aceito, fala-se mal da Igreja”. (ARNS, 1985, p.72).

Isso, porque os fiéis

enxergam o padre como um testemunho de fé e nele encontram incentivos para renovar a crença em Deus. Quando um indivíduo se torna padre, ele deve obedecer a Lei Canônica18. “A vida da comunidade eclesial é diretamente regulada pelos chamados Direitos Canônicos, os quais se relacionam com os católicos espalhados pelo mundo. [...]” (GASPARETTO JUNIOR, 2014). Essa lei diz que o padre deve fazer voto ao celibato, isto é, viver em castidade. Os clérigos têm obrigação de guardar continência perfeita e perpétua pelo Reino dos céus, e portanto estão obrigados ao celibato, que é um dom peculiar de Deus, graças ao qual os ministros sagrados com o coração indiviso mais facilmente podem aderir

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O Direito Canônico, por sua vez, oferece o estudo sistemático das leis e orientações da Igreja, a respeito das pessoas e das coisas sagradas. Também ele se renova constantemente e passa, no momento, por uma reformulação a partir da nova orientação do Concílio Vaticano II. (ARNS, 1985, pp.75-76, grifado pelo autor)

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a Cristo e mais livremente conseguir dedicar-se ao serviço de Deus e dos homens. (DIREITO CANONICO, 1983, p.76)

Devido às necessidades administrativas da Igreja Católica Apostólica Romana foram criadas as circunscrições eclesiásticas, que são as divisões territoriais. No Brasil podemos encontrar a Diocese, a Arquidiocese e a CNBB (Conselho Nacional dos Bispos de Brasil). “Bem, diocese é uma unidade territorial administrada por um bispo, que é sempre nomeado pelo Santo Padre, o Papa; já a Arquidiocese é uma diocese muito importante devido à sua dimensão ou importância histórica, sendo conduzida pelo Arcebispo” (RIBEIRO, 2014). A Arquidiocese ela pode compor diversas dioceses, mas não interfere na ação pastoral delas. Arquidiocese é o nome de uma diocese de um Bispo escolhido pelo Papa para presidir uma Província eclesiástica. O Arcebispo não tem poder sobre os Bispos de sua Província. Pode apenas convocá-los para uma reunião e presidir essa reunião. Mas não pode decidir nada sobre o governo de uma diocese alheia. Não pode dar ordens aos bispos das dioceses da Província. (AQUINO, 2014)

A função da Arquidiocese é cuidar e dar suporte as paróquias, aos sacerdotes (padres, diáconos e bispos) e às entidades pastorais. Cada região tem uma Arquidiocese, por exemplo, na Capital Federal do Brasil tem-se Arquidiocese de Brasília. Além disso, a Igreja Católica também tem no Brasil o Conselho Nacional dos Bispos do Brasil e, como o próprio nome já indica, é uma entidade que reune todos os bispos do país. A CNBB é uma entidade permanente e tem como missão: [...] fomentar uma sólida comunhão entre os Bispos que a compõem, na riqueza de seu número e diversidade, e promover sempre a maior participação deles na Conferência; concretizar e aprofundar o afeto colegial, facilitando o relacionamento de seus membros, o conhecimento e a confiança recíprocos, o intercâmbio de opiniões e experiências, a superação das divergências, a aceitação e a integração das diferenças, contribuindo assim eficazmente para a unidade eclesial; estudar assuntos de interesse comum, estimulando a ação concorde e a solidariedade entre os Pastores e entre suas Igrejas. (RIBEIRO, 2014)

A Igreja Católica Apostólica Romana tem uma história e uma construção organizacional imensa que não dá para relatar em sua totalidade neste trabalho. Mas apresentar a concepção de identidade e cultura da Igreja Católica contribuirá para os próximos passos desta pesquisa.

4.4. A FORMULAÇÃO DA OPINIÃO PÚBLICA Os indivíduos manifestam a sua opinião quando querem expressar o que pensam e o que acreditam ser verdadeiro. “[...] A Opinião é o conjunto de crenças a respeito de temas

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contravertidos ou relacionados com a interpretação valorativa ou significado moral de certos fatos”. (Kimbal Young apud VIÁ, 1983, p.7, grifado pelo autor). Além disso, as opiniões são formadas de acordo com as aspirações pessoais e o nível de conhecimento de cada indivíduo e, posteriormente, são moldadas pelo juízo de valor que regem as suas atitudes. Nilza Mouzinho (2007, p. 270) conta que “a opinião corresponde sempre a um juízo formulado a respeito de qualquer facto e a sua dimensão pública surge quando essa opinião é partilhada com um vasto número de indivíduos a tal ponto que, a observação emitida poderia ser de qualquer um deles [...].”. Vários são os fatores interdisciplinares que buscam explicar a formação da opinião pública, dentre elas podemos destacar o fator psicológico, social e cultural. Por isso, se faz necessário conceituar a opinião pública delimitando-a para o alcance dos objetivos dessa pesquisa. A opinião pública muitas vezes é revelada através de iniciativas privadas ou de meios de comunicação. Existe uma infinidade de pesquisas que são categorizadas como pesquisas de opinião pública e que tem por objetivo comprovar a opinião das pessoas acerca de algum assunto, muitas vezes polêmicas e que envolvem uma série de interesses. Para que exista uma opinião pública ou uma corrente de opiniões, necessita-se de pronunciamento unânime em uma mesma direção ou da maior parte de seus membros de um grupo social. Pois, se os indivíduos expressam opiniões muito diversas em proporções equivalentes, encontramo-nos ante uma série de opiniões, mas não diante de uma O.P. (VIÁ, 1983, p.8)

Assim, pode-se dizer que a opinião tem sua origem nos grupos e esses grupos tornamse público quando se unem em torno de um assunto específico, mas de interesse social. Monique Augras (1970, p.11) explica que “a opinião é um fenômeno social. Existe apenas em relação a um grupo, é um dos modos de expressão desse grupo e difunde-se utilizando as redes de comunicação do grupo”. O que acontece é que a opinião pública não é uma soma de conformidade de opiniões, não se cria uma única opinião. O que se tem são diversos grupos, que possuem indivíduos com opiniões divergentes, mas que tentam disseminar as suas opiniões na mídia. A opinião pública tem várias definições. Sarah Chucid da Viá (1983) conta que a opinião pública pode ter ou não caráter político; não deve ser confundida com vontade popular e é influenciada pelos veículos de comunicação massiva. Segundo Sidinéia Gomes Freitas (2014), os fatores sociais, a persuasão e os órgãos da imprensa interferem na formação e no desenvolvimento da opinião pública. Isso é o que

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buscamos observar nesse trabalho. Por meio de entrevistas em profundidades com os fiéis, buscar compreender como eles construíram suas opiniões a partir das informações recebidas sobre pedofilia dos padres e, posteriormente, verificar se a construção da opinião se deu por meio da mídia.

5 A CONSTRUÇÃO DA REALIDADE SOCIAL E A TELEVISÃO A realidade é o mundo que vemos em nossa volta. Basta aguçar os nossos sentidos e teremos a imagem da realidade, como numa foto registrada pela câmera fotográfica. Entretanto, a realidade pode ser muito mais do que isso. “O real solicita-me alguma outra coisa além daquilo que me aparece imediatamente. A realidade atinge a nossa consciência de maneira tal que esta pré-sente e percebe alguma outra coisa” (GIUSSANI, 1993, p. 173). Não é preciso aqui fazer um estudo da construção do real. Mas para nossa finalidade será feita uma preconcepção da construção da realidade e apresentada a sua relação com os meios de comunicação. Além do mais, as questões dos meios de comunicação tem ligação direta com a construção da realidade. “Não seria exagero dizer que a comunicação constrói a realidade. Num mundo todo permeado de comunicação- um mundo de sinais- num mundo todo teleinformatizado, á única realidade passa a ser a representação da realidade- um mundo simbólico, imaterial [...]”. (Guareschi, 1993, p.14). E, como já foi relatado neste trabalho, a comunicação é o processo que envolve a transmissão de mensagens constituída de informação. E, a comunicação, assim como a informação, é uma necessidade humana. A informação sintoniza o mundo. Como onda ou partícula, participa na evolução e da revolução do homem em direção à sua história. Como elemento organizador, a informação referencia o homem ao seu destino; mesmo antes de seu nascimento, através da sua identidade genética, e durante a sua existência pela sua competência em elaborar a informação para estabelecer a sua odisseia individual e no tempo. A importância que a informação assumiu na atualidade pós-industrial recoloca para o pensamento questões para a sua natureza, seu conceito e seus benefícios que pode trazer ao indivíduo e no seu relacionamento como o mundo em que vive. (BARRETO, 1994, p. 1)

A informação faz parte da sociedade e tem por objetivo a tarefa de colocar o homem em contato com o ambiente fazendo-o ter conhecimento da realidade. A realidade social alicerça-se sobre a informação. A comunicação antecede e integra a sociedade, que não é somente o conjunto das estruturas socioeconômicas e sóciopolíticas, mas > e a consequência das transformações produzidas em seu desenvolvimento. Assim, somos obrigados a

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considerar a informação como ingrediente social em face do conjunto e como necessidade psicológica relativamente ao indivíduo. (BENYETO, 1974, p.10)

João Francisco Duarte Júnior (2006, p.14) nos apresenta outro ponto importante da construção da realidade: o indivíduo. Segundo o autor, “o homem não é um ser passivo que apenas grava aquilo que se apresenta aos seus sentidos. Pelo contrário: o homem é o construtor do mundo, o edificador da realidade”. A realidade é construída por meio da percepção, pela forma que ela é interpretada e também, por meio da palavra, da linguagem que permite a consciência reflexiva do mundo e o reconhecimento do real. Os conteúdos específicos que são interiorizados na socialização primária variam naturalmente de sociedade. Alguns encontram-se em toda parte. E’ a linguagem que tem de ser interiorizada a cima de tudo. Com a linguagem e por meio dela, vários esquemas motivacionais e interpretativos são interiorizados com valor institucional definido [...]. (BERGER; LUCKMANN, 1985, p.181).

Outro ponto apresentado por João Francisco Duarte Júnior (2006) é que a realidade depende da forma que o saber é disponibilizado na sociedade, dando a realidade uma estrutura social. Essa estrutura social é derivada da instituição. E a instituição é como uma realidade pronta, que exige de seus membros certas formas de agir. “[...] Se tomarmos outras culturas, especialmente aquelas ditas primitivas, veremos que este relacionamento ocorre institucionalmente de maneiras as mais variadas: suas realidades são construídas de modos diferentes” (DUARTE JÚNIOR, 2006, p.44). Isto é, a realidade vai existir independente da vontade do indivíduo, mas ela é percebida com perspectivas variados pois o indivíduo constrói suas próprias realidades no meio social de acordo com o conhecimento e a interpretação que o indivíduo tiver da realidade e isso inclui também a sua cultura. “Vejam, pois que a discussão sobre cultura pode nos ajudar a pensar sobre nossa própria realidade social. De fato, ela é uma maneira estratégica de pensar sobre nossa sociedade, e isso se realiza de modos diferentes e às vezes contraditórios” (SANTOS, 1987, p. 9). Cultura refere-se a vários sentidos, ela pode ser referida como comportamento social do grupo, uma vez que traduz o desenvolvimento. Cultura congrega conhecimento, artes, moral, leis, costumes, aptidões, hábitos, tradição social, expressa modo de vida, identidade, ocupação, territorialidade, organizações, linguagem, instrumentos, serviços e sentimentos. Na verdade, se a compreensão da cultura exige que se pense nos diversos povos, nações, sociedades e grupos humanos, é porque eles estão em interação. Se não estivessem não haveria necessidade, nem motivo nem ocasião para que se considerasse variedade nenhuma. A riqueza de formas das culturas e suas relações falam bem de perto a cada um de nós, já que convidam a que nos vejamos como seres sociais, nos fazem pensar na natureza dos todos sociais de que fazemos parte,

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nos fazem indagar das razões da realidade social de que partilhamos e das forças que as mantêm e as transformam. (SANTOS, 1987, p.8)

Cada realidade cultural tem diferentes conjuntos de sentidos e significados. Guareschi (1993) explica que esse conjunto de sentidos e significados é assumido pelos grupos ou indivíduo como sua realidade social, passada por gerações e transformada conforme a as circunstâncias. Através dos meios de comunicação o indivíduo se informa, constrói o conhecimento sobre o que se passa no mundo e o interpreta de acordo com o que sabe, criando os juízos de valores sobre os acontecimentos da realidade social.

5.1 TELEVISÃO: IMAGEM E REALIDADE A televisão é o meio de comunicação mais popular entre os brasileiros e o mais utilizado como acesso à informação. Olga Curado explica que “por suas características como meio de divulgação, que combina som e imagem, a televisão tem uma maneira própria de transmitir a informação. A linguagem o tempo e ritmo são peculiares, se comparado com outros meios de comunicação.” (CURADO, 2002, p.19). Nesse trabalho se pretendemos definir a televisão apresentando a sua tarefa na realidade social e a suas consequências na condução da informação. A TV conquistou um lugar importante na organização da sociedade contemporânea. “As mensagens veiculadas por esse meio, em especial pelo telejornalismo, são as principais responsáveis por opiniões, comportamento e valores de uma considerável parcela da população” (COUTINHO; FERNANDES, p. 01). Criada a menos de um século, a televisão já passou por diversas transformações e desenvolvimentos tecnológicos. Desde 1950, quando as primeiras imagens foram transmitidas, a televisão tem-se consolidado nos lares dos brasileiros, criando hábitos de consumo, tornando-se um importante disseminador da informação. O pesquisador e especialista em televisão François Jost (2007, p.45) relata que “refletir a televisão é então, antes de tudo, levar o seu contexto e o lugar particular ocupado pelo telespectador; é adotar o que hoje se chama uma abordagem pragmática”. Ou seja, a televisão leva para o telespectador a realidade cotidiana do indivíduo, de maneira ágil e prática. A televisão participa de um processo pelo qual se comunica e se relaciona com os telespectadores por meio de imagens e representações que se referem ao dia-a-dia

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deste público. Essa veiculação, entretanto, segue regras relativas tanto às suas qualidades específicas quanto às suas condições de uso. Tal processo é responsável pela atualização de valores, sentimentos, emoções e fantasias em uma esfera que, embora pareça coletiva, por atingir milhões de pessoas simultaneamente, penetra no espaço privado de cada casa, referindo-se a cada pessoa em particular.” (KOHLSDORF, 2002, p.9).

A imagem é uma representação da realidade que passa as mensagens carregadas de valores e sentimentos que atinge vários indivíduos ao mesmo tempo, porém cada indivíduo será atingido de forma diferenciada. Pois, “na TV, a imagem se opõe ao pensamento, porque convida permanentemente o telespectador a identificar a “realidade” com aquilo que ele vê, e o telespectador se sente confortável por ter um acesso tão direto, tão imediato, ao mundo “real”.” (ARBEX, 1995, p.10). Isto é, a televisão cria diversos mundos onde os telespectadores enxergam a sua realidade. É por causa da imagem que a TV contribui para a construção da realidade. De acordo com Barbosa e Cunha (2006, pp.54-55): A imagem sempre esteve presente na experiência humana se a entendermos como qualquer representação da “realidade”. No entanto, no mundo contemporâneo, ela se tornou o centro das formas de fruição do mundo – está nas ruas, nas casas, no céu, nas roupas, nos jornais, nos carros, formando uma espécie de banco de referências para a construção da experiência cotidiana. A comunicação se estabelece por meio de signos e estes se transformam culturalmente em significações. As representações são justamente as manifestações exteriores dessa significação construídas pelos indivíduos em seu fazer cotidiano.

Por causa da imagem, a televisão consegue transmitir a informação refletindo a realidade social. Assim, a imagem é a representação da realidade, mas a sua significação vai depender do que o indivíduo entende como realidade. “A significação de uma imagem permanece, em grande parte, tributária da experiência e do saber que a pessoa que a contempla adquiriu anteriormente. Nesse tocante, a imagem visual não é uma simples representação da realidade, mas um sistema simbólico” (GOMBRICH apud SAMAIN, 1998, p. 56). A imagem visual é a linguagem utilizada pela TV. À linguagem ou o sistema simbólico é formado por uma combinação de códigos para que a informação possibilite a criação dos significados. Como já foi relatado neste trabalho, atualmente a TV é presente em praticamente todo o território brasileiro, e se consolida como a principal fonte de entretenimento e informação

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dos acontecimentos sociais. Mas na televisão é o telejornal19 que ganha o papel principal nas programações dedicadas a transmitir a informação dos fatos. Também cabe ao telejornal a formação dos significados e da cultura, como os principais elementos que qualificam a televisão. Os telejornais apresentam e representam a realidade aos brasileiros e contribuem para a construção de sua própria identidade como cidadãos, por trazerem credibilidade. [...] Os noticiários de TV aberta funcionam como experiências únicas, cotidianas e coletivas de representação e construção da realidade, refletindo e interferindo nas expressões da identidade nacional. Os telejornais são os produtos de informação de maior impacto na sociedade contemporânea e as principais fontes de informação para maioria da população brasileira. Uma das principais características dos noticiários de TV é garantir a verdade ao conteúdo dos discursos e também a credibilidade do enunciador. [...] (BECKER, 2005, p. 9)

Se no Brasil a televisão contribui para a formação da identidade nacional, “[...] o telejornalismo pode, em tese, contribuir para a construção de uma identidade local, na medida em que os telespectadores se identifiquem com as notícias produzidas e veiculadas, ou seja, que se vejam inseridos no contexto da sociedade construída na narrativa apresentada nos telejornais [...]”. (COUTINHO; MARTINS, 2008, pp. 2-3). Neste trabalho por meio do programa Conexão repórter do SBT para estuda-se a recepção da mídia.

5.2 SBT E CONEXÃO REPÓRTER O Sistema Brasileiro de Televisão ou SBT, como é mais conhecido pelos telespectadores, é uma emissora de TV aberta. Isso significa que cidadãos brasileiros podem assistir gratuitamente por meio das frequências VHF, UHF e do sinal digital. Os canais abertos são uma concessão20 do Governo Federal. Isto é, “nenhuma emissora de TV brasileira é dona do canal em que sua programação é transmitida: todos os canais de sinal aberto pertencem ao Estado e são concedidos (daí a palavra "concessão") _______________________ 19

“[...] Pode-se afirmar que o gênero telejornal resulta da confluência do gênero jornalístico com o suporte televisivo/ audiovisual. O conteúdo do telejornal é informativo, jornalístico, e o material é audiovisual, portanto, as possibilidades do seu texto estão determinadas pela linguagem audiovisual.” (SANTOS; AYRES, 2008, p.2). 20

Para concorrer a uma concessão, a empresa deve ter no mínimo 70% do capital nas mãos de acionistas brasileiros e respeitar o limite de controle de até dez estações em todo o país, sendo no máximo duas por estado e cinco em VHF (não entram na conta as retransmissoras). Aí uma comissão do Ministério das Comunicações analisa sua proposta de programação e sua condição técnica e financeira, dando pontos em diferentes quesitos. Quem tiver a melhor média de pontos fica com a concessão, ganhando o direito de explorar determinado canal por um período pré-definido e, ao final dele, passa por uma nova análise.

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temporariamente às emissoras, através de processos de licitação. [...]” (VAN DEURSEN, 2014). A emissora SBT foi conquistada pelo Senor Abravanel (codinome Silvio Santos) aos seus 45 anos de idade. Em outubro de 1975, Silvio Santos venceu a concorrência para o Canal 11, do Rio de Janeiro, aberta pelo General Geisel. A tão esperada solenidade de assinatura do contrato do Canal 11 aconteceu dois meses depois, em 22 de dezembro de 1975, data "oficial" do nascimento do que viria a ser o SBT [...] Em 25 de março de 1981, o presidente João Figueiredo divulgou que Silvio Santos havia ganhado a concessão de quatro canais. Nascia, assim, oficialmente o Sistema Brasileiro de Televisão.” (SBT, 2014).

Atualmente, o SBT transmite 38 programas variados contando com cinco programas de Jornalismo, dentre eles o programa Conexão Repórter. No dia 4 de março de 2010, o SBT estreia o programa jornalístico Conexão Repórter para ser transmitida toda quinta-feira, às 22h. O objetivo do programa é apresentar reportagens e matérias com gênero investigativo. A proposta do programa é a busca pela verdade por meio de grandes reportagens. O nome surgiu pela modernidade que sugere, a informação nos tempos de hoje viaja por conexões cada vez mais velozes e sofisticadas. O uso da palavra “repórter” foi estrategicamente usada para destacar o formato e a disposição do apresentador. (SBT, 2014, grifada pelo autor)

O jornalista Francisco Roberto Cabrini ou Roberto Cabrini, como se identifica, é consagrado como repórter investigativo. Cabrini começou a sua carreira aos 16 anos. Hoje, ele é editor chefe e apresentador do Conexão Repórter. A equipe é formada essencialmente por produtores-repórteres, que embora não mostrem a "cara", participam ativamente das reportagens. O principal perfil dos jornalistas contratados é a disposição em grandes produções. São nomes respeitados no mercado e que decidiram participar do projeto pela audácia e arrojo propostos, além da oportunidade em fazer parte da equipe do principal repórter do país. (SBT, 2014, grifado pelo autor).

As reportagens apresentadas geralmente são polêmicas. A equipe do programa conta no site o que eles buscam apresentar para o seu público: “Mostramos o que ninguém mostra: as grandes reportagens investigativas, as revelações exclusivas, o arrojo, a coragem de se aprofundar nos assuntos, a agilidade, as descobertas, a imagem inquietante, as perguntas que ninguém faz. Onde houver uma grande história, nós estaremos lá” (SBT, 2014, grifado pelo autor).

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Como jornalista e apresentador do programa Conexão Repórter, Cabrini conseguiu com as suas reportagens provocar três CPIs21 (Comissão Parlamentar de Inquérito). A reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica foi uma delas, chegando a ganhar o Prêmio Esso Especial de Telejornalismo 201022.

5.3 PEDOFILIA Roberto Cabrini e sua equipe foram até Arapiraca município do estado de Alagoas, para investigar uma denúncia de padres da região que estavam praticando pedofilia com coroinhas. A investigação começa em março de 2010, quando o programa teve acesso a um vídeo, entregue por um morador de uma cidade de Alagoas. Cenas que revelam uma face obscura da fé. No fundo, o altar de uma casa construída com o dinheiro dos fiéis. Na cama, um padre. O sacerdote em ato sexual com um jovem. Ao final, o padre se assusta ao perceber que tudo estava sendo registrado. (SBT, 2011)

Pedofilia ou abuso sexual infanto-juvenil é a ação praticada pela pessoa que utiliza uma criança ou adolescente para satisfazer os seus desejos sexuais, por meio de ato sexual (oral, anal ou vaginal) ou mesmo partindo de ações com características eróticas. Pode também ocorrer de outras formas, como, por exemplo, o incentivo à prostituição, escravidão sexual e pornografia infantil (em todas as suas formas, desde fotos de crianças nuas, até sexo explícito). A pedofilia está entre as doenças classificadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) entre os transtornos da preferência sexual. Pedófilos são pessoas adultas (homens e mulheres) que têm preferência sexual por crianças – meninas ou meninos - do mesmo sexo ou de sexo diferente, geralmente pré-púberes (que ainda não atingiram a puberdade) ou no início da puberdade, de acordo com a OMS. [...] A maioria dos pedófilos são homens, e o que facilita a atuação deles é a dificuldade que temos para reconhecê-los, pois aparentam ser pessoas comuns, com as quais podemos conviver socialmente sem notar nada de anormal nas suas atitudes. Em geral têm atividades sexuais com adultos e um comportamento social que não levanta qualquer suspeita. Eles agem de forma sedutora para conquistar a confiança e amizade das crianças. (MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, 2014)

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A Comissão Parlamentar de Inquérito é comandada pelo Poder Legislativo e tem como tarefa investigar e apura denuncias que visa proteger o interesse da população brasileira. 22 O Prêmio Esso de Jornalismo, o mais tradicional e disputado programa de reconhecimento de mérito dos profissionais de imprensa do Brasil, completa, em 2014, 59 anos de existência ininterrupta. Criado, em 1955, com o nome de "Prêmio Esso de Reportagem", passou posteriormente a se chamar "Prêmio Esso de Jornalismo".Dividido em diversas categorias, o conjunto de premiações é concedido aos melhores trabalhos publicados anualmente, segundo avaliação de comissões de julgamento integradas exclusivamente por jornalistas renomados ou profissionais de comunicação. [...] (PRÊMIO ESSO, 2014).

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Em maio de 2014, no Brasil, a pedofilia foi sancionada como um crime hediondo deixando de ser um crime de ato libidinoso, a pena, agora, pode variar de quatro e dez anos de reclusão. A nova ementa do projeto: Altera o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal, as Leis nºs 8.069, de 13 de julho de 1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente, 8.072, de 25 de julho de 1990 - Lei de Crimes Hediondos, e 11.771, de 17 de setembro de 2008 Política Nacional de Turismo, com a finalidade de aprimorar o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes. (CÂMERA DOS DEPUTADOS, 2014).

Os crimes de pedofilia praticados pelos representantes da religião Católica Apostólica Romana repercutem de tal forma que tendem a causar escândalo. Não só pelo fato, que por si só causa polêmica, mas por serem padres os autores do crime. Segundo o doutor em história social Fábio Pestana (2012), “a veiculação entre religião, moral e ética é imensa. A religião é como uma instituição social caracterizada pela existência de um grupo, que interfere no padrão de comportamento da sociedade”. Ele afirma que a religião forma pilares culturais no Brasil e no mundo contribuindo para formação e elevação dos valores éticos e morais do ser humano. Em março de 2010, o jornal do Vaticano, L’ossevatore Romano, falou a respeito dos crimes de pedofilia na Igreja Católica Romana. Segundo o jornal: A Igreja não gosta da justiça espectáculo, mas isto não significa que ela não seja rigorosa ao averiguar abusos sexuais realizados por sacerdotes diocesanos ou religiosos, sine acceptione personarum , ou que impeça a denúncia às autoridades civis. Não deixa espaço a dúvidas nem a equívocos Mons. Charles J. Scicluna – Promotor de Justiça da Congregação para a Doutrina da Fé – ao confirmar a posição da Igreja a propósito da pedofilia. (L’OSSEVATORE ROMANO, 2014)

Recentemente o Vaticano anunciou a criação de uma comissão especial para acelerar a condenação de padres pedófilos e acabar com a impunidade. A notícia foi publicada no jornal Correio Braziliese: O Vaticano anunciou ontem que foi criada uma comissão especial para acelerar a avaliação de recursos apresentados por clérigos condenados por delitos graves nas respectivas dioceses. O grupo é composto por sete membros, entre cardeais e bispos, escolhido pelo papa Francisco. A medida foi mencionada em uma nota emitida em maio e passou a vigorar ontem, segundo o porta-voz da Santa Sé, padre Frederico Lombardi. O mecanismo faz parte dos esforços do pontífice para responder a crise provocada por pedofilia e de conduta inadequada na Igreja Católica. (VALENTE, 2014, p.13)

A matéria informa que os membros da comissão ainda não foram escolhidos. Agora, observar-se a opinião dos católicos sobre os acontecimentos de pedofilia cometido por sacerdotes e divulgados na mídia.

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6 COLETA DE DADOS: A IGREJA A PARTIR DA VISÃO DOS FIÉIS A coleta de dados se deu a partir do dia 26 de agosto e teve fim no dia 28 de outubro de 2014. As entrevistas foram realizadas com seis pessoas que frequentam a Capela Todos os Santos, localizada em Ceilândia, a maior cidade em população do Distrito Federal. Na entrevista foram feitas perguntas de acordo com o perfil de cada participante. As perguntas serviram para mostrar a realidade da Igreja Católica Apostólica Romana, segundo a visão dos entrevistados e o nível de conhecimento de cada um deles. Depois, foram realizados questionamentos sobre os crimes de pedofilia cometidos por padres mostrados na reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica do repórter Roberto Cabrini e as respostas dadas serviram para observar como os fiéis receberam a notícia e o que pensaram após a reportagem. Esta parte do trabalho vai começar mostrando as repostas subjetivas de cada entrevistado. Em seguida, apresentará a análise e resultados.

6.1 ENTREVISTAS E ANÁLISE A primeira entrevista ocorreu no dia 26 de agosto e teve duração de uma hora 23 min de conversa. A pessoa entrevistada foi uma mulher cristã de 38 anos. Ela é casada e tem um filho de 12 anos e atualmente trabalha como auxiliar de consultório odontológico. Mora em Ceilândia há 31 anos, próximo a Capela Todos Santos, a qual frequenta as missas dominicais desde criança. Na Capela, ela já participou de várias pastorais23: grupo jovem, liturgia e ministro da eucaristia.

Hoje, ela participa da pastoral catequética, como catequista de

crisma24, além de participar do Encontro de Casais com Cristo (ECC). Ela é uma católica praticante, assim como a sua família. Ao ser questionado sobre qual é, em sua opinião, o papel da igreja para a sociedade? Ela respondeu: “É a evangelização, mostrar outros modos de ver a vida, de ver o mundo. Trazer esperança”. _______________________ 23

Pastorais de Anúncio ou Evangelização: Estas Pastorais trabalham anunciando o Evangelho às pessoas com palavras e exemplos, revelando os ensinamentos de Jesus e os caminhos que devemos seguir pela vontade de Deus Pai. É um trabalho que exigente, mas de resultado mais que compensador: a alegria da conversão pessoal e a dos irmãos. (TRINDADE, 2014). 24

Segundo o catecismo da Igreja Católica (2000) crisma é um sacramento da confirmação do batismo e da iniciação cristã.

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Como cristã, ela diz que o papel do padre na igreja é “orientar, ser o pastor, pastorear as ovelhas, indicar o caminho”. E, como catequista, ela explica que o ensino catequético é necessário, porque “é uma base, uma formação, onde as crianças e os jovens encontram o apoio da igreja. Um apoio que às vezes não encontram na família e na sociedade. Então, é importante. Ajuda na formação pessoal do ser humano”. Perguntada, também, se ela concorda com todas as doutrinas da Igreja ou já se questionou sobre alguma, ela respondeu: “Concordo, já questionei, mas não deixei de concordar não”. Perguntada sobre qual doutrina ela questionou, explicou: “No mundo de hoje, atualmente, a gente se questiona, por exemplo, com essa juventude tão louca, com tanta doença, a questão da camisinha. Já que os jovens não se guardam mesmo, por que não orienta-los a utilizar a camisinha? Mas, ao mesmo tempo, a gente sabe porque não é orientado. Sabemos que é para não dar incentivo. Para que eles não continuem nessa vida de sexo desmedido, sem se importar com nada. Quantas menininhas de 12, 13 anos ficando grávidas. Então, tudo isso a igreja tenta controlar dessa forma. Não que ela seja ditadora, mas para que as pessoas pensem melhor antes de fazer as coisas”. Perguntou-se se ela acredita que os meios de comunicação, especialmente a televisão, influenciam o seu dia a dia no modo de ver a sociedade. Ela afirmou que não porque já tem a sua opinião formada, mas acredita que a informação divulgada na TV pode influenciar muita gente. Ela explica: “Não é só eu que não sou influenciável. Mas muita gente é influenciada. A gente vê conversando com as pessoas. Passa uma reportagem, a pessoa pensa de um jeito, daqui a pouco, passa uma reportagem sobre o mesmo assunto, porém com outra visão, a pessoa já começa a pensar daquele jeito também. Então, é influenciável”. Depois de sua afirmação foi perguntado de onde vem à formação da sua opinião. Ela conta: “A minha, em particular, vem da minha criação, já vem do meu jeito de vida, do meu modo de vida, da minha religião”. Foi questionado se ela sabia sobre os crimes de pedofilia na Igreja Católica Apostólica Romana. Ela disse que sim, que ficou sabendo por meio de notícias na TV, jornal e internet. Então, foi perguntado o que ela achava sobre esse fato. Ela respondeu: “Que eles foram criminosos, como qualquer outro pedófilo e que tem que pagar sim, como qualquer outro. Porém, que não se generalize, porque não são somente os padres que comentem pedofilia, porque tem em tudo que é lugar. Tem pastores, e, o pior, dentro da família, tem padrasto, os tios, e até as mães. Tanto, que foi feito uma pesquisa, os padres não são o maior número de

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pedófilos, 70% dos casos são causados por pais, depois padrastos, depois tios, primos, irmãos ou algum parente próximo. Ou seja, não é porque ele é o padre, que ele é o principal pedófilo. A maiorias dos casos está dentro da família. Então se fosse assim tinha que começar as investigações dentro da família. Mas isso não tira a culpa dos padres, mas também não culpo a igreja inteira por isso”. Nessa resposta, ela mostrou a sua fidelidade à igreja. Também revelou estar atenta às informações ao dizer sobre a pesquisa, além da quantidade de veículos de comunicação que ela mencionou. Ás próximas respostas também confirmam isso. Ao ser perguntada sobre o posicionamento da igreja diante das publicações sobre os crimes de pedofilia. Ela falou: “No começo eram abafados os casos, eu mesma não sabia de muitos deles. E, agora que está sendo divulgada, a igreja está se posicionando da maneira que deveria. Mas deveria ter sido feito há muito tempo, que era permitir que fosse investigado, que os padres fossem punidos. Dessa forma, eu concordo. Agora, quando a igreja escondia, aí era um erro”. Posteriormente, ela foi perguntada sobre a sua opinião a respeito de algum tipo de veiculo de comunicação, quanto à forma de abordar temas da religião católica. Ela responde de uma forma geral: “O que acontece nas emissoras é que cada uma puxa para o seu lado. Por exemplo, a Record faz desse caso, um caso sensacionalista. A Globo com relação aos padres já é mais sensata. Então, cada um puxa para o seu lado. A Globo como ela é mais universal, não puxa nem para um lado nem para o outro. Ela é menos sensacionalista. A Record, como ela é evangélica, ela quer ver a igreja católica lá no chão, com todo aquele exagero. Então, assim, nas emissoras no grau sobre a igreja, não vejo muito as coisas no exagero, no geral. Só quando aparece uma coisa ou outra que eles querem ver o circo pegar fogo, querem audiência. E, a gente sabe que isso não é legal. Mas a mídia vive disso, os jornalistas vivem disso, notícias, chamar a atenção das pessoas, seja um assunto religioso, seja uma criança assassinada, seja lá o que for, eles querem chamar atenção para serem ouvidos”. Agora, observar-se a opinião da entrevistada sobre a reportagem do jornalista Roberto Cabrini. Coloca-se a matéria para a participante assistir. Embora ela já tivesse visto na época, foi necessário repassar para lembra-la. Depois de aproximadamente uma hora de reportagem, foi perguntado à participante o que ela achou da reportagem. Ela disse: “Não achei tão sensacionalista. Achei que ele falou a verdade. Tem um pouco de sensacionalismo, mas o fato tem que ser falado. Mas é a repetição daquilo que eles querem impor para as pessoas, a repetição do assunto”. Em seguida,

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perguntamos o que ela sentiu enquanto assistia à reportagem. Ela explicou que sentiu-se “envergonhada, decepcionada, porque é a igreja, é o padre. Faz com que as pessoas percam a credibilidade. Eu nunca falei vou deixar a minha igreja por isso, mas a gente ouve outros falarem. Até mesmo, aqueles que não têm tanto conhecimento do que é a igreja, do que é um padre, que dizem, por exemplo, não vou deixar o meu filho no grupo de coroinhas para ele ser abusado, sendo que o maior abusador podia estar dentro da casa da pessoa e a pessoa não sabe. Mas, devido a tanta informação, de tanto se falar daquilo, algumas pessoas pensam assim: Não vou deixar o meu filho na igreja. Pra quê?, para ele ser abusado pelo padre? Mas, particularmente, isso não me afetou, eu tenho um filho de 12 anos e se ele quiser ser coroinha eu deixaria, sem nenhum problema”. A entrevista foi realizada em sua casa, ela estava tranquila e suas repostas eram dadas com firmeza, mostrando estar convicta daquilo que ela afirmava e pensava. A segunda entrevista foi realizada no dia 11 de outubro e teve a duração de uma hora e 27 minutos. A entrevistada foi com uma jovem estudante de 17 anos. Ela esta cursando o 3ºano do ensino médio e frequenta a Capela Todos os Santos há dois anos como crismanda, além de assistir às missas dominicais. Atualmente, vai completar um ano que a jovem mora em Taguatinga, mas ela já morou por três anos em Ceilândia, próximo a Capela Todos os Santos. Sua família é dividida entre católicos e evangélicos, mas os seus pais são católicos. Ela conta que é católica desde criança e explica porque decidiu seguir a Igreja Católica Apostólica Romana: “A religião católica é a mais una e me sinto confortável na Apostólica Romana”. Depois foi perguntado qual era sua opinião sobre o papel da igreja na sociedade. Ela respondeu: “Em minha opinião de religiosa dentro da igreja, eu acho que é estabelecer uma ética. Eu não quero dizer, por exemplo, que um ateu não tem ética, mas é que a igreja dá sentido pra ética, do que é bom, do que é mau, do que é pecado e do que não é. Porque se não tivesse Deus vindo e dito: olha isso aqui é bom e isso aqui é mal. Qual seriam as diretrizes, então, se ninguém nunca instaura que isso aqui é bom? Acho que esse é o papel dela, manter uma ética sólida”. Ela também responde como o ensino catequético é importante “para ensinar as crianças, os jovens de um jeito mais didático o que é a igreja, o que é a missa, como você deve se comportar e o que você deve fazer na missa”. Quando questionada sobre o papel do

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padre na igreja, ela explica: “A gente vê a ordem como uma vocação que parte de um chamado de Deus para realizar esse ministério. Ele participa sete anos de seminário e ali ele vai aprender a servir a igreja. Eu acho que o padre é um ministério muito lindo. Por exemplo, dentro do matrimônio você casa com alguém, o padre casa com a igreja, ele casa com as pessoas. O padre é o mediador entre Deus e os homens. E também o padre é autoridade que pode perdoar o pecado e dar o perdão. Na minha opinião, não tem igreja sem padre”. Perguntado se ela concorda com todas as doutrinas ou se já questionou alguma. Ela responde: “A igreja católica comete muitos erros, mas eu concordo com a maioria das doutrinas, por exemplo, eu sou contra o aborto. Eu acho que tem algumas doutrinas muito radicais. Eu concordo com elas, mas tem algumas que eu não concordo como é o caso do aborto”. Ao ser perguntado se ela detinha conhecimento sobre os fatos de pedofilia cometidos por padres da Igreja Católica, ela respondeu que ficou sabendo por meio de manchetes de matérias publicadas em sites de notícias e chamadas de telejornais passadas na propaganda transmitida na TV. Em seguida, respondeu: “Eu acho que se o padre esta cometendo pedofilia, ele não está exercendo o dever dele de padre, que é servir a igreja e não ficar se aproveitando de crianças. Então, eu acho que eles deveriam ser destituídos do título de padres que eles possuem e responder pelo crime de pedofilia nas justiças. Eles serem padres não os coloca acima de pessoa nenhuma”. Questionado como ela acha que a Igreja Católica está se posicionando perante o assunto, disse: “Eu vi alguma coisa de que o papa estava tirando os padres que cometiam pedofilia. Mas eu não sei como ele está se posicionando agora”. A próxima pergunta foi sobre a opinião a respeito de algum tipo de veículo de comunicação, quanto à forma de abordar temas da religião católica. Ela respondeu: “Eu acho normal porque esse tipo de notícia que deve ser falada para todo mundo. Mas acho que a igreja não deve ser privilegiada mais do que as outras. Ela é a que mais aparece nos jornais e nos veículos de comunicação. Eu acho que deveriam falar de todas as religiões para as pessoas estarem a par de todas as notícias sobre as religiões”. A jovem não vê o programa Conexão Repórter e nem assistiu a reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica. Então, foi mostrada a reportagem para ela e depois perguntamos o que ela achou. Ela respondeu: Basicamente revoltante, ver os depoimentos do

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padre e, principalmente, ver que tudo aconteceu dentro da igreja, um lugar que você nunca imaginaria que iria acontecer. Também, fiquei muito chocada com os depoimentos, com tudo” Perguntado se acaso ela tivesse filho e ele quisesse ser coroinha se ela daria permissão. Ela disse: “Eu pensaria duas vezes, agora. Na verdade, eu não iria incentivar. Se eles quisessem, eu acho que não ia chegar a proibir.... só se fosse uma igreja que eu estou há muito tempo, com muita confiança, se fosse assim eu permitiria”. Antes de dar essa reposta ela fez uma pequena pausa e também durante a resposta. A entrevista foi feita em uma sala dentro da Capela Todos os Santos, após o encontro de crisma, porque assim preferiu a participante. Ela estava tranquila durante a entrevista e ficou a vontade para explanar o que pensava. A terceira entrevista aconteceu no dia 12 de outubro e teve a duração de 23 minutos. A pessoa entrevistada foi um jovem de 24 anos. Ele é solteiro e não tem filhos. Trabalha como analista de sistemas e atualmente mora com seus pais em Taguatinga. Ele já morou em Ceilândia próximo a Capela Todos os Santos por 14 anos. Inclusive, participou de um grupo de teatro na Capela, hoje extinto. Ele conta que fez Primeira Eucaristia e crisma, mas não é mais católico, não frequenta nenhuma igreja e nem pratica nenhuma religião, embora, de acordo com ele, a sua família seja 90 % católica. Perguntado o motivo de ter deixado o catolicismo, explica: “Eu, na verdade, não tenho religião nenhuma, devido a esse problema da imposição. Eu me senti muito incomodado a partir de um determinado momento que eu comecei a gostar de certas músicas, de certas coisas. E, eu era taxado como uma coisa totalmente errada, algo ruim do que é pensado na igreja. Então, eu me senti muito incomodado com isso. Fora outras ideias do que foi passado sobre a igreja, como noticiários. Eu resolvi tomar essa decisão”. Questionado o porquê de antes ele seguir a Igreja Católica Apostólica Romana, respondeu: “Na verdade não foi uma decisão minha. Foi uma coisa imposta, eu tinha que ir a igreja por causa dos meus pais que mandavam que falavam que a gente tinha que frequentar. E, desde pequeno, fui à igreja. Então, meio que virou uma cultura, uma rotina para mim, naquela época”. Perguntamos qual era sua opinião sobre o papel da igreja na sociedade, ele respondeu: “Bom, eu vejo a igreja, como uma forma de restabelecer o cidadão. Muita gente que esta na vida bandida, digamos assim, perdido, que passa ter esse acompanhamento da igreja, ele meio

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que consegue moldar o caráter dele para uma coisa boa. Eu vejo por esse lado. E, também vejo por um lado negativo, um lado de imposição de cultura, imposição do que eles acreditam do que seja o certo. Eles querem que você siga isso. Eu vejo a igreja nesses dois pontos, onde esse tipo de cultura agrega o bem e ao mesmo tempo, de outro lado, que agrega uma coisa ruim. A imposição de que você só vai ser uma pessoa boa se você seguir aqueles padrões”. Durante a entrevista perguntamos também como ele vê o papel do padre na igreja. Ele disse: “O padre é o máximo dentro da igreja, todo mundo respeita o padre, as pessoas querem apertar a mão do padre. Ele é o grande, é o maior, o chefão da igreja. Então, eu o vejo como um grande líder. Ele é um ícone dentro da igreja, digamos assim”. Perguntado se ele já se questionou sobre alguma doutrina, ele respondeu: “Já me questionei sobre várias. O fato de ter que se confessar para um padre. Eu não acho isso necessário. Se você realmente tem que se confessar, que seja pra você, por seu pensamento ou corrigir uma falha que você cometeu no passado. É uma questão de meditação”. Depois perguntamos a opinião dele sobre o poder da igreja e dos veículos de comunicação, especialmente o de televisão. Ele explicou: “Eu acho que a igreja já foi mais forte. Muito antigamente. Mas a igreja continua com poder, principalmente na igreja católica, tem um poder ainda muito forte. Quando o líder da igreja vem ao Brasil, a mídia dá o suporte, dá o apoio, sempre trata de igreja. Por exemplo, a catedral de Brasília, que é um monumento histórico e é totalmente católico, a mídia sempre está lá fazendo matéria, tirando foto. Então acredito que pra igreja, a mídia é bastante abundante”. O jovem ficou sabendo sobre os crimes de pedofilia cometidos por padres. Questionado como ele ficou sabendo, respondeu: “Eu não li em profundidade, eu ouvi falar sobre alguma coisa. Li manchete e vi as chamadas na TV. Sempre que eu leio são notícias mais genéricas, não são notícias mais a fundo”. Então, perguntamos o que ele pensa sobre esse fato. Ele fala: “Eu tenho certa teoria pra isso, mas não sei explicar, porque de fato acontece. Isso vem muito da cabeça da pessoa que fez. Mas você vê que as notícias sempre abrangem padre, ou sempre procuram um fato que aconteceu com padre. Fazem aquele estardalhaço todo. Poxa foi um padre que cometeu o ato de pedofilia. Até pelo fato do celibato, por envolver crianças e também por dentro disso ter o homossexualismo também. Então... é algo que eu não sei explicar. Até hoje, nós temos preconceito com homossexualismo. E, eu percebo muito que muitos padres. eles têm uma

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característica similar a quem é homossexual. Então, eu acho que isso às vezes mexe com a cabeça da pessoa, até com as famílias. Ele se torna padre para, sei lá, se fechar daquele mundo, daqueles pensamentos. Acaba que, de certa forma, ele não consegue se desvincular disso e vê lá as crianças que frequentam a igreja e acaba cometendo isso. Até por um fundamento infundado. Não sei é muito complexo, é muito amplo”. Em seguida, perguntamos como ele acha que a igreja esta se posicionando perante esses fatos. Ele respondeu: “Até um tempo atrás eu via que a igreja tentava acobertar bastante, até para não tentar queimar o nome dela, acredito eu. Poxa, a igreja é vinculada a pessoas que cometerem esse tipo de crime. Hoje em dia eu tenho visto que ela tem tomado ações mais duras. Os padres têm deposto no mundo todo”. O jovem ficou sabendo dos crimes cometidos por padres, mas não assiste ao programa Conexão Repórter e nem viu a matéria Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica. Nós mostramos para ele e, após assistir, perguntamos o que ele achou: “Achei completa. Achei bacana. Foi uma matéria de denúncia. Mostrou escancaradamente uma denúncia, através de um vídeo. O Roberto Cabrini tentando entrar em contato com os padres, para tentar uma explicação para saber porque aquilo havia acontecido. Se aquilo tinha realmente a confirmação deles. E eu achei bastante interessante. Algo que provavelmente não ocorre só lá deve ocorrer em vários outros lugares”. Ele também disse estar “indignado, porque você não espera isso de uma pessoa que diz agir de forma correta. Como um padre seguindo os mandamentos bastante rígidos da igreja, comete coisas totalmente contrárias daquilo que a igreja prega”. Por último fizemos a perguntamos se acaso tivesse filho, permitiria que se tornasse coroinha. Sua resposta foi: “Eu não sei na mão de quem tá. Depois de uma matéria dessas, um padre pra mim é uma pessoa comum como qualquer outra, você não sabe se a pessoa boa ou ruim. Então, não há mínima possibilidade de deixar um filho meu estar junto de pessoas que eu não sei quem são de fato”. Esta resposta foi dada com o tom de voz mais grosso e a expressão em seu rosto mostrou indignação. Essa última resposta mostrou que a matéria mexeu na com a sua forma de ver o padre. A parte destacada em sua fala acima deixa isso nítido. A entrevista foi realizada em sua casa, onde ele se sentiu à vontade para falar.

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A quarta entrevista foi realizada no dia 13 de outubro e teve a duração de uma hora e 18 minutos. A pessoa entrevistada tem 48 anos, é casada e tem dois filhos adolescentes: uma menina de 15 anos e um menino de 13 anos. Ele trabalha como policial militar. É católico desde criança. Mora em Ceilândia há 29 anos e frequenta a Capela Todos os Santos desde 2004, ou seja, há exatos 10 anos. Ele não participa de nenhuma pastoral na Capela e nunca participou, só frequenta as missas dominicais. Sua família é dividia entre católicos e evangélicos. Sua esposa e filha são evangélicas, seus pais são católicos e seu filho não vai à nenhuma igreja. Perguntado o porquê de seguir a Igreja Católica Apostólica Romana, responde: “Olha, desde criança eu fui batizado na igreja católica, eu me sinto bem lá. Eu acho que pedofilia, coisas erradas tem em todos os meios. Então eu não vejo porque sair de lá” (informação verbal). Depois perguntamos qual a importância do ensino catequético para ele. Ele respondeu: “É uma afirmação da fé. Eu acho importante para aprender sobre a igreja” (informação verbal). Posteriormente indagamos qual o papel do padre na igreja, segundo a sua opinião, ele disse: “Conduzir o rebanho, orientar as pessoas e ensinar as pessoa a seguirem as pessoas a seguir o caminho correto”. Perguntamos se acaso ele já havia se questionado sobre alguma doutrina da Igreja Católica. Ele respondeu: “Às vezes, eu me questiono sobre algumas. Por exemplo, muitos santos. Às vezes não precisava disso, não concordo com isso”. Ele ficou sabendo dos casos de pedofilia cometido por padres. Perguntamos como, ele disse: “Nos jornais, principalmente, pela Record. Acho que por Edir Macedo ser o dono da Record eles batem muito nesse assunto para desacreditar o católico”. Então perguntamos o que ele acha desse fato. Ele explicou: Eu acho lamentável, mas é do ser humano. Acho que devido o padre não poder casar, mas eu acho que ainda não é isso. Tem ser humano que erra. Eles pregam que são muitos, mas não é, são menos de 1%. Então é uma generalização que eles fazem. Depois perguntamos como ele acha que a igreja está se posicionando diante desses fatos. Ele respondeu: “Eu acho que o papa Bento e o Papa Francisco, que foram os mais divulgados, tomaram posição de combate, mesmo, porque eles não toleram em hipótese alguma”.

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Ele já assistiu algumas vezes ao programa do Conexão Repórter, mas não chegou a ver a matéria Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica, somente a chamada durante as propagandas da emissora SBT. Mostramos a reportagem e enquanto assistia não parava de balançar as penas. No momento em que passava as imagens de sexo, embora embaçadas, ele se sentia incomodado em vê-las constantemente, pois virava o rosto para não olhar a cena. Após ver a matéria, perguntamos o que ele achou. Ele respondeu: “É uma matéria muito chocante, né? Com revelações que eles não têm como negarem. O pior é o Bispo ter acobertado, ao invés de excomungar eles, quer protege-los. E, pelo jeito não aconteceu nada e nem vai acontecer com eles, a não ser que o delegado consiga indicia-lo por crime, mas caso contrário. Muito lamentável”. No final da entrevista perguntamos se caso o filho dele desejasse ser coroinha, se ele permitiria. Ele respondeu: “Eu permitiria sim, depende do padre, se eu conhecesse o padre. Eu iria fazer uma análise da pessoa aí eu veria se permitiria ou não”. Na última resposta ele mostrou insegurança com a igreja e com padre, assim como alguns entrevistados após assistir à matéria do repórter Roberto Cabrini. A entrevista foi na casa do pesquisador porque assim preferiu o participante. Durante a entrevista foi difícil tirar dele respostas mais completas. Ele mostrou ser tímido e estava nervoso, pois não parava de tirar e colocar os óculos, além de ficar balançando dom a perna o tempo todo. A quinta entrevista foi realizada no dia 25 de outubro e teve a duração de 28 minutos e 42 segundos. O entrevistado foi o padre da Paróquia Santíssima Trindade e Capela Todos os Santos. Ele tem 40 anos e tem 14 anos de sacerdócio. Na paróquia e na capela ele tem três anos de serviço. Decidiu ser padre em 1996, porque desejava ajudar as pessoas. Ele conta que os veículos de comunicação, especialmente o de TV, não influenciam o seu dia a dia e a sua forma de ver a sociedade. Ele explica: “Hoje, como eu me encontro, como sacerdote, depois de ter feito um estudo durante anos para a formação sacerdotal, já não influencia tanto. Porque o meu modo de ver a sociedade que se chega até mim, a televisão já não consegue me

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influenciar. Eu já consegui ter um senso crítico. Então, com uma notícia eu já consigo ter uma impressão sobre ela e eu já faço o juízo”. Perguntamos o porquê ele decidiu seguir a igreja católica. Ele respondeu: O que influenciou mais foi por eu ter uma família católica. Eu já nasci dentro de uma família católica e isso eu mantive. Inclusive, eu nunca tive vontade de deixar o meio católico porque eu fui seguindo um caminho bem mais aprofundado, o caminho sacerdotal”. Perguntamos ao padre qual a importância do padre para igreja. Ele respondeu: “Fundamental importância, um papel determinante, porque a igreja tem elementos que ajudam a formar um ser humano. A gente sabe que a igreja não é um sistema ditatorial, onde você simplesmente faz as coisas, porque você é obrigado. Mas é modo de viver. Ela tem como base o ensinamento de Cristo. O ensinamento de Cristo está contido nos evangelhos e isso passada de geração a geração, até nos encontramos, hoje, diante delas. Então, o papel é fundamental, uma vez que ela coloca os verdadeiros valores, apesar de nossas fraquezas, os nossos pecados que existem, porque todos nós somos pecadores. Mas é preciso ter uma visão de fé”. Depois perguntamos se acaso ele já questionou alguma doutrinada igreja. Ele respondeu: “Eu nunca tive assim um questionamento. Durante o tempo de seminários a gente é levado a fazer questionamentos, porque é área acadêmica. Mas com relação aos dogmas e à própria doutrina, eu nunca tive nenhum questionamento. Às vezes a gente fica sem clareza quanto a exposição do tema, mas dúvida em relação a isso eu nunca tive”. Questionamos se ele ficou sabendo dos crimes de pedofilia cometidos por padres. Ele respondeu: “Algumas sim. Até porque, no seminário a gente tem muito acesso a informação, mas muito pouco no sentido de comunicação interna, mas grande parte pela mídia em geral. A gente fica sabendo mais pela mídia mesmo”. Aqui ele mostra que o conhecimento dele sobre os crimes não vem só da mídia. Além de mostrar que os casos pedofilia na igreja é antiga, visto que ele entrou no seminário em1996”. Então perguntamos o que ele acha sobre o fato. Ele explanou: “É um fato que ao mesmo tempo nos assusta, porque está presente na vida do ser humano, o homem de modo especial, que tem a capacidade de agir dessa forma, ter uma relação com uma criança. Mas também não podemos achar que tudo esta perdido, muito pelo contrário, é uma oportunidade de revermos, digamos, algumas atitudes da própria igreja, dentro da própria formação do seminário, como estamos formando os padres. Porque o foco é justamente o sacerdote

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pedófilo. O quê leva um padre agir dessa forma? Então, isso esta dentro da origem da formação dessa pessoa para saber detectar onde esta o problema, seja ele afetivo, seja ele emocional, psicológico, tudo isso é um conjunto, que compõe a formação humana e que ele pode, dentro do seminário, detectar isso. Ou se resolve, procura um tratamento uma terapia ou então, ele é levado a não assumir esse tipo de vocação”. Perguntamos o que ele acha do posicionamento da igreja. Ele respondeu: A igreja está muito preocupada, tanto que os últimos papas, nós tivemos aí papa João Paulo II, papa Bento XVI e o papa Francisco estavam sempre muito preocupados em resolver as questões. Embora, isso tome várias formas no mundo inteiro. No Brasil, é de uma forma, nos Estados Unidos de outra, sendo que há países que acontece com mais frequência. Então, eles já vão tentando corrigir isso, e traz reflexos. Então, existe uma preocupação, como eu já lhe disse, de trabalhar a formação, de admitir somente pessoas que, de fato, possam ter um equilíbrio, porque o sacerdote é aquele que vai conduzir uma comunidade. Ele vai estar à frente de um povo. E, uma vez que ele age desta forma, ainda mais causando dificuldades na vida da comunidade, ele vai de fato estar escandalizando o povo e não é isso que a igreja deseja, Ela quer, como o próprio Jesus Cristo diz: O bom pastor conhece as suas ovelhas, dá a vida pelas suas ovelhas. Então, acontece ao contrário, nesse caso da pedofilia”. Também perguntamos a opinião dele sobre algum tipo de veiculo de comunicação, quanto à forma de abordar temas da igreja católica. Ele conta: “Eu tenho observado que existem muitas tendências nesse aspecto. Alguns veículos tendem a abordar o tema de uma forma, que é claramente perceptível que existe ali uma critica a igreja católica, muitas vezes que suscita uma opinião da pessoa. Ela pode induzir a pessoa a tomar uma opinião de que aquilo é de modo geral porque o modo que se aborda traz essa consequência de que todos, ou pelo menos grande parte dos padres, são pedófilos. Isso não é verdade. E, por aí a gente vai vendo vários veículos que tem o desejo de transmitir e levar o conhecimento, que isso de fato acontece. Mas é preciso também ter muito cuidado para não trazer a impressão de que a igreja não está preocupada com esse tipo de situação, porque ela está. Não é simples de resolver da noite para o dia, é preciso tempo e de medidas que levam bastante tempo. Tanto que para um padre ser ordenado hoje, ele leva oito anos. Só o fato de a formação ser longa, isso vai influenciar nessa certa demora de trabalhar essa questão da formação. E, aqueles que já são problemáticos, de tentar, realmente, resolver sem perder, porque a igreja acredita muito na mudança do ser humano. Então, não é simplesmente jogar a pedra e dizer: olha, você não serve mais pra ser padre, então, saí do sacerdócio. Não é bem assim. A igreja tenta de todas as

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formas salvar pessoas com tratamento, com formas de recuperação e que a pessoa também possa se deixar cuidar”. O padre assiste muito pouco ao Programa Conexão Repórter e não chegou a ver a reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica. Colocamos a matéria para ele assistir e depois perguntamos o que ele achou. Ele respondeu: “Então, ela realmente retrata o que acontece. Bom, eu vejo que ela tem dois lados, que é de mostrar uma verdade. Mas outro lado que é ressaltar somente esse lado. Claro, que no final, o repórter deixou bem claro que existem também os padres que honram a batina, que estão aí lutando e que esse ato também fere aqueles que estão lutando, para não cometer o erro dessa forma. Mas existem fatores dentro da própria reportagem, aquela coisa da sonoplastia, daquela música ali, tenebrosa, parecendo filme de terror. Isso ressalta ainda mais a questão do erro. É claro, que o erro existe e é crime tanto que o papa já deixou muito claro, os padres que são pego em ato de pedofilia, eles devem ser punidos pela lei e também pela igreja. Então, eles vão deixar de exercer o sacerdócio, vão cumprir com as penalidades já estabelecidas pela lei local que ele se encontra”. A entrevista aconteceu na casa do padre. Ele estava tranquilo e não hesitou em responder a nenhuma pergunta. A última entrevista foi difícil de ser realizada, porque precisávamos de uma senhora idosa, mas a maioria rejeitou dar entrevista, porque se recusava a falar sobre o assunto de pedofilia cometido por padres ou se sentia desconfortável pelo fato de dar entrevista. Mas, por fim, depois de tanto procurar conseguimos uma senhora viúva de 67, costureira, que mora em Ceilândia há 42 anos. Desde que a Capela Todos os Santos foi fundada ela vai às missas, embora ela não faça ideia em que ano isso ocorreu. Ela é católica desde criança, mas não participa e nunca participou de nenhuma pastoral da igreja. Perguntada o porquê de seguir a Igreja Católica Apostólica Romana. Ela respondeu: “Porque os meus pais erma católicos, então a gente só frequentava a igreja católica”. Depois perguntamos a ela qual era o papel da igreja na sociedade. Ela respondeu: “Em minha opinião, ela faz a gente ficar mais vulnerável a muita coisa, a palavra de Deus a tudo”. Também, perguntamos qual era o papel do padre na igreja. Ela disse: “Bom, ele entra como se fosse para fazer a coisa de Deus, né e orientar os participantes da igreja”. E, quando

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perguntada se já havia se questionado sobre alguma doutrina da igreja. A senhora respondeu que nunca se questionou sobre nenhuma doutrina. Com essas repostas percebemos que ela é uma fiel a igreja, mas não tem muito conhecimento sobre a Igreja Católica Apostólica Romana. Etretanto, ela tem conhecimento dos casos de pedofilia da igreja, porque ela viu as notícias na televisão, único meio de comunicação mencionado por ela e, ao que tudo indica o único que ela tem acesso. Perguntamos o que ela pensa sobre esse fato. Ela respondeu: “O fato é dolorido, mas fazer o que, já fizeram mesmo. Porque eles estão ali para orientar. Fazem isso, e como é que ficam os outros”. Em seguida, perguntamos o que ela acha sobre o posicionamento da igreja perante os crimes de pedofilia cometidos por padres. Ela deu uma longa pausa e depois respondeu que não sabia. Ela também informou que não assistiu ao programa Conexão Repórter, logo, ela não viu a reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica. Colocamos a reportagem para ela ver. Depois que ela acabou de assistir, perguntamos o que ela achou: “Fiquei indignada. Já pensou, porque os pais largam a mão dos filhos nas mãos do padre e olha só o que esses padres vão aprontar, que coisa feia”. Posteriormente, perguntamos o que ela sentiu enquanto assistia à reportagem. Ela respondeu: “Fico sentida com as coisas. Nunca me passou pela minha cabeça que os padres pudessem fazer uma coisa dessas. Depois que eu venho assistindo essas coisas na TV. É no mundo inteiro. É que eu fico indignada”. Se acaso os netos dela quisessem se tornar coroinhas, ela permitiria. Disse: “Mandava eles tomarem cuidado”. Ela estava tranquila na entrevista, mas sentia dificuldade de se expressar, suas respostas mostram que ela não tem um conhecimento aprofundado sobre o caso de pedofilia cometido por padres.

6.2 ANÁLISE E RESULTADOS Como pode ser visto, realizamos entrevistas com seis participantes que têm modos de vida diferentes, mas que fazem parte de uma mesma comunidade religiosa, ou seja, são católicos da Capela Todos os Santos, com exceção de um entrevistado, mesmo assim, ele já pertenceu a esse grupo.

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A autora Sarah Chucid da Viá (1983, p.15) afirma que a natureza da opinião se origina do “grau de informação sobre o assunto”. Ao lermos as respostas de cada um, percebemos que o nível de informação sobre a igreja e os crimes de pedofilia, assim como a ocupação de cada um na igreja, interferiu na construção das suas opiniões. Observar-se a resposta de cada um deles, começando pelos dois entrevistados que mostraram ter maior envolvimento com a Igreja. O primeiro e o quinto entrevistado. O 1º entrevistado desta pesquisa é uma catequista que já participou de várias pastorais e pertence a uma família católica praticante. Com suas respostas, conseguimos saber o que a entrevistada pensa da igreja como fiel e sua intepretação valorativa da Igreja Católica. O fato de ela ser catequista mostra o seu grau de conhecimento sobre a igreja, porque é um indivíduo que passou por uma formação para evangelizar, ensinar as doutrinas da Igreja Católica e a palavra de Deus para jovens e crianças. Além disso, mostra ser informada sobre os crimes de pedofilia. Pode-se observar isso quando ela diz que a pedofilia esta em todo lugar e afirma: “[...] Foi feita uma pesquisa. Os padres não são os maiores números de pedófilos. 70% dos casos são causados por pais, depois padrastos, depois tios, primos, irmãos ou algum parente próximo. Ou seja, não é porque ele é o padre, que ele é o principal pedófilo. As maiorias dos casos estão dentro da família. [...]”. Ela também revela observar como o acontecimento é divulgado na mídia. Isso pode ser visto por meio desta resposta: “[...] Nas emissoras, no geral, sobre a igreja, não vejo muita as coisas no exagero, no geral. Só quando aparece uma coisa ou outra que eles querem ver o circo pegar fogo, querem audiência. E, a gente sabe que isso não é legal. Mas a mídia vive disso, os jornalistas vivem disso, notícias, chamar atenção das pessoas, seja assunto religioso, seja uma criança assassinada, seja lá o que for, eles querem chamar a atenção para serem ouvidos”. Essa forma de ela pensar também pode intervir na opinião. O seu grau de conhecimento sobre a igreja e os assuntos de abuso sexual infantil pode ser considerado mais coerente se comparado com alguns entrevistados. Por esta razão, podemos afirmar que esse conhecimento interferiu na construção da sua avaliação e na sua percepção ao ver a reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica. Assim, como também podemos verificar que a sua cultura, sua experiência e o seu contexto de vida, intervieram na formação da sua opinião. Isso pode ser constatado por meio da sua reposta dada ao questionamento da origem da formação da sua opinião, na qual diz: “A minha

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opinião, em particular, vem da minha criação, já vem do meu jeito de vida, do meu modo de vida, da minha religião”. Também observamos que os crimes de pedofilia cometidos pelos padres da igreja católica, divulgada pela televisão e mostrada na reportagem do Roberto Cabrini, não interferiu em sua crença e no que ela pensa sobre a Igreja Católica e a suas doutrinas. E ela, como católica praticante, quer que o padre seja levado à justiça, como qualquer pessoa que infringiu a lei. Revemos algumas de suas respostas, na qual diz: “Que eles [se referindo aos padres], foram criminosos, como qualquer outro pedófilo e tem que pagar sim, como qualquer outro [...]”. Ou quando ela disse que se sentiu “envergonhada, decepcionada, porque a igreja é o padre. Faz com que as pessoas percam a credibilidade. Eu nunca vou deixa a igreja por isso, mas a gente ouve outros falarem. Até mesmo, aqueles que não têm tanto conhecimento do que é a igreja, do que é um padre, que dizem, por exemplo, não vou deixar o meu filho no grupo de coroinhas, para ele ser abusado. Sendo que o maior abusador podia estar dentro da casa da pessoa e a pessoa não sabe. Mas devido a tanta informação, de tanto se falar daquilo, algumas pessoas pensam assim: Não vou deixar o meu filho na igreja, para quê, para ele ser abusado pelo padre. Mas, particularmente, isso não me afetou, eu tenho um filho de 12 anos e se ele quiser ser coroinha eu deixaria, sem nenhum problema”. O quinto entrevistado foi um padre. A construção da sua opinião é o reflexo do seu conhecimento sacerdotal sobre a igreja. Na sua última fala, após assistir a reportagem, houve um pouco de discordância dito por ele. Em suas respostas anteriores não chegou a mencionar a palavra crime e cita que os padres devem receber tratamento e não, necessariamente, precisam deixar a batina. Revemos o trecho que ele afirmou isso: “E, aqueles que já são problemáticos, de tentar, realmente, resolver sem perder, porque a igreja acredita muito na mudança do ser humano. Então, não é simplesmente jogar a pedra e dizer: olha, você não serve mais pra ser padre, então, saí do sacerdócio. Não é bem assim. A igreja tenta de todas as formas salvar pessoas com tratamento, com formas de recuperação e que a pessoa também possa se deixar cuidar”. Entretanto, na última reposta do padre o pensamento já foi mais drástico, afirmando que os padres devem deixar de exercer o sacerdócio. Vejamos o trecho dito: “É claro, que o erro existe e é crime tanto que o papa já deixou muito claro, os padres que são pegos em ato de pedofilia, eles devem ser punidos pela lei e também pela igreja. Então, eles vão

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deixar de exercer o sacerdócio, vão cumprir com as penalidades já estabelecidas pela lei local que ele se encontra”. Podemos observar que o fato de ele ser católico desde criança, pertencer a uma família católica, ter estudado oito anos em seminário e executado 14 anos de serviço à igreja católica justifica o fato de ele procurar defender os padres, ou seja, a sua realidade, seu cotidiano, a sua ocupação dentro da igreja. Isso significa que sua cultura interferiu na construção da sua opinião. Mas ao a assistir a reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica, o padre mudou um pouco em sua fala a posição de tentar recuperar os padres, afirmando, sobre apoio da fala do papa, que eles deveriam ser punidos conforme a lei, deixando de exercer o sacerdócio. Pode-se notar que essa mudança pode ter ocorrido porque o padre viu as imagens do ato sexual do Monsenhor Luiz e o posicionamento dos padres acusados e visto que, aquelas imagens o atingiram com mais intensidade, comparado com outros entrevistados, pelo fato de ele ser padre. Isto é, a matéria retrata uma realidade mais próxima da dele. Além do mais, a opinião “[...] se forma e expressa de modo distinto, seguindo a natureza dos grupos e tipos de contato que os indivíduos têm dentro desses grupos” (VIÁ, 1983, p.9). É o que se observa também com os outros participantes. Os outros entrevistados comparados com o padre e a catequista, mostram ter um envolvimento menor com a igreja, assim como eles revelam ter um conhecimento superficial sobre os crimes de pedofilia. Embora eles tenham falado coisas diferentes, a interpretação valorativa da igreja foi a mesma, com exceção do jovem, que deixou de ser católico, algumas de suas resposta mostrou uma visão diferente, inclusive de quando ele era fiel. Para ele a igreja é ditadora, sua convicção nisso é baseada em suas experiências e conhecimentos. Essa visão nos aponta o que foi dito por alguns autores neste trabalho, de que a realidade pode ser interpretada de formas diversificadas de acordo com cultura do individuo. Porém a forma que o ex-católico recebeu a reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica foi igual a todos os entrevistados, com exceção do padre e da catequista. A pergunta chave que nos dá essa afirmação é: Se seu filho quiser se tornar coroinha você permitiria? A resposta dada por eles foram ditas com palavras diferentes, mas mostrou um único significado: confiança abalada nos sacerdotes. Abaixo, segue a reposta dessa pergunta dada pelos entrevistados.

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O segundo entrevistado foi a catequisanda e sobre essa questão, respondeu: “Eu pensaria duas vezes, agora. Na verdade, eu não iria incentivar. Se eles quisessem, eu acho que não ia chegar a proibir.... só se fosse uma igreja que eu estou a muito tempo, com muita confiança, se fosse assim, eu permitiria”. Durante a fala, ela deu uma pausa. O que mostrou que ela estava muito pensativa sobre o que falar. Com essa resposta, podemos notar que o fato apresentado atingiu a sua forma de pensar. Quando ela responde a pergunta com “eu pensaria duas vezes, agora” aponta para um pensamento diferente que ela passou a ter. Além disso, mostra claramente, que a sua confiança na igreja foi abalada. O terceiro entrevistado foi o jovem e ex-católico, que disse: “Não, não mesmo. Eu não sei na mão de quem tá. Depois de uma matéria dessas, um padre pra mim é uma pessoa comum como qualquer outra, você não sabe se a pessoa boa ou ruim. Então, não a mínima possibilidade de deixar um filho meu estar junto de pessoas que eu não sei quem são de fato”. Podemos ver que a reportagem interferiu muito na construção dessa resposta, desse pensamento. Ele deixou isso explícito ao dizer: “Depois de uma matéria dessas”. O quarto entrevistado foi um policial. Sobre o tema, ele respondeu: “Eu permitiria sim, depende do padre, se eu conhecesse o padre. Eu iria fazer uma análise da pessoa aí eu veria se permitiria ou não”. Aqui, vemos que ao mesmo tempo em que ele afirma, ele também desconfia. O sexto entrevistado foi uma senhora idosa, que afirmou: “Mandaria eles tomarem cuidado”. O fato de ela alertar revela um receio. A catequista não foi perguntada, porque ela já havia dado a resposta. Para ela não teria problema o filho se tornar coroinha. Já o padre não respondeu à pergunta porque a ele não cabia esse questionamento, por ele ser um sacerdote e, em tese, não pretender ter filhos. Podemos averiguar também o comportamento dos entrevistados ao darem as suas respostas ou no momento em que assistiam a reportagem do Roberto Cabrini. Para isso, segue uma tabela que mostra como os participantes se comportaram durante a entrevista e depois faremos uma comparação.

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Tabela 1 - Comportamento durante a entrevista

Estava Tranquilo

Tempo para responder

Respostas Curtas

Catequista Crismanda Ex- Católico

Sim Sim Sim

Não Não Não

Policial

Não

Sim

Sim

Padre

Sim

Não

Não

Idosa

Sim

Imediato Imediato Imediato Demorava um pouco Imediato Demorava um pouco

Dificuldade para se expressar Não Sim Não

Sim

Sim

Participante

Fonte: Elaboração do autor

Observar-se pela tabela que todos estavam tranquilos durante a entrevista. A catequista falava com convicção e não se atrapalhava com as palavras. Ao ver a reportagem mostrava-se tranquila, às vezes, revelava uma expressão de desagrado quando olhava a cena de sexo do padre. A crismanda se atrapalhava com a escolha das palavras para se expressar. Assistiu à reportagem com seriedade e, em sua última resposta mostrou uma expressão de desgosto e sua voz ficou mais branda. O ex-católico estava fala bem e claramente. Quando assistiu à reportagem mostrou estar irritado com o posicionamento dos padres. Ao dar a sua última resposta demonstrou expressar excesso de raiva engrossando um pouco a voz e elevando a mão em direção a TV. O policial entrevistado estava nervoso, mexia a perna e no objeto a sua frente sem parar enquanto dava as respostas. Demonstrava sinais de timidez. Aos poucos ía se soltando, pensava muito antes de dar as repostas, que eram bastante curtas, não gostava de expressar detalhes sobre o que pensava. Ele também mexia muito a perna enquanto assistia à reportagem e virava o rosto nas cenas de sexo do padre. Mesmo a imagem dessa cena sendo embaçada, ele mostrava estar incomodado ao ver. O padre entrevistado se expressou muito bem. Não mostrou sinais de nervosismo e aparentava estar seguro ao falar. Enquanto assistia à reportagem ficava com a expressão fixa e séria.

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A idosa sentia dificuldade para se expressar. Suas repostas foram quase monossilábicas. Foi muito difícil fazer com que ela fornecesse respostas mais concretas. Enquanto assistia à reportagem ficou calma, mas concentrada. Saber como os praticantes se comportaram em suas expressões físicas nos faz compreender como eles receberam a reportagem. O corpo também se comunica. “A comunicação não é somente a linguagem verbal, ela é feita em grande parte pela linguagem não-verbal. O importante é que uma esteja em concordância com a outra, de forma que a comunicação seja um processo completo e coerente” (SCHELLES, 2008, p. 01). Agora, procuramos elaborar uma outra tabela, que tem como objetivo mostrar a estrutura das respostas dadas pelos entrevistados.

Dessa forma é possível visualizar

resumidamente o grau de informação, o envolvimento com a igreja e analisar a opinião de cada participante sobre os crimes de pedofilia cometidos por padres na Igreja Católica e seu enquadramento legal.

Tabela 2- Quadro de comparação de respostas dada pelos participantes



Catequista

38

Razoável

Muito Bom

Os padres devem pagar pelos crime Sim



Crismanda

17

Pouco

Razoável

Sim

Sim

24

Bastante

Razoável

Sim

Não

Não muito

Razoável

Sim

Sim

Excelente

Sim

Sim

Pouco

Sim

Sim

Entrevista



Ocupação na Igreja

Excatólico

Idade

Costuma ver TV e telejornais

Nível de conhecimento Igreja e Pedofilia



Fiel

48



Padre

40



Fiel

67

Muito pouco Diariamente

Continua na Igreja e acredita na doutrina Sim

Fonte: Elaboração do autor

Observa-se pela tabela acima que, independente da idade, nível de conhecimento e acesso a informação pela TV todos concordaram que os padres deveriam ser levados à justiça.

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Isso revela de uma forma ampla que os fiéis da Capela Todos os Santos não deixaram de ser sujeitos sociais e nem abandonaram sua cultura religiosa ao se depararem com temas relacionados à pedofilia e em especial os tratados na reportagem Sexo Intriga e Poder da Igreja Católica.

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho é possível identificar, a partir das análises feitas e da bibliografia pesquisada algumas conclusões que respondem ao item Hipóteses: Os fiéis católicos querem que os padres sejam levados à justiça, como qualquer outra pessoa que infringiu a lei. E as notícias sobre os crimes de pedofilia praticada pelos padres da Igreja Católica Apostólica Romana e divulgada pela televisão não interviram na construção das opiniões sobre as doutrinas da igreja. Embora, alguns dos fiéis tenham mostrado a confiança nos padres abalada. Eles não demostraram desacreditar em alguma doutrina depois que assistiram a reportagem do repórter Roberto Cabrini. Podemos ver, na coleta de dados que a notícia divulgada pela reportagem provocou sentimento de indignação nos participantes, mas não é possível afirmar que a razão foi de a reportagem utilizar discurso apelativo, pois não nos coube neste trabalho fazer uma análise de conteúdo da reportagem. Assim, como também não foi possível constatar se o fato da Igreja Católica, como uma instituição religiosa universal, com maior número de seguidores e manifestações religiosas; e de seus lideres não poderem casar ou manter um relacionamento amoroso, contribuiu para repercussão da notícia sobre crimes pedofilia ocasionada por padres e pela produção da reportagem Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica, pois seria necessário um estudo bibliográfico sobre agendamento, o qual não foi apontado neste trabalho, devido a complexidade e, consequente desvio nos objetivos da pesquisa. Por outro lado, detecta-se que o estudo sobre agendamento se faz necessário para dar continuidade e aprofundar esta pesquisa em estudos futuros. Optar pelos estudos da recepção foi o primeiro passo para dar inicio a investigação da influencia mediática. Com esta pesquisa concluímos a partir da análise, que os receptores, no caso desta pesquisa, os fiéis da Capela Todos os Santos não são sujeitos apáticos ao tema e cada um teve uma forma de interpretar a reportagem e enxergar a realidade da Igreja Católica

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a partir da sua experiência cultural, sendo assim, coerente com as proposições de Stuart Hall (2006) e Martin Barbero (2009). Pela análise foi possível identificar que os entrevistados com pouco conhecimento sobre o contexto da igreja e com pouca informação sobre os crimes de pedofilia praticados por padres, tiveram maior interferência do acontecimento contado na reportagem do repórter Cabrini em suas opiniões. Com isso, concluímos também que o nível de conhecimento dos participantes foi fundamental na forma de eles elaborarem suas opiniões. Entretanto não podemos afirmar se houve influencia da informação sobre os crimes dos padres, na formulação da opinião destes fiéis, pois, se trata de um questionamento que, certamente, não pode ser respondido totalmente neste trabalho, dada a natureza e os limites, ficando aberto para novas pesquisas. Por fim, espera-se que este estudo possa contribuir com novas perspectivas para comunicação e estudo das recepções da mídia em acontecimentos que envolvam espaços religiosos.

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ANEXO ANEXO A- PERGUNTAS DA ENTREVISTA 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25. 26. 27. 28. 29. 30. 31. 32. 33. 34. 35. 36. 37. 38. 39. 40.

Nome: Idade: Você é casado (a)? Há quanto tempo você é casada? Tem filhos? Quantos? Quantos anos seu filho tem? Qual a sua Profissão? Há quanto tempo você mora na região? Você tem costume de assistir à televisão? Quais programas você mais gosta de ver na TV? Você assiste á telejornais? Quais? Por que você assiste a telejornal? Você acredita que os mios de comunicação, especialmente a televisão, influenciam o seu dia a dia no modo de ver a sociedade? Você é católico praticante? Toda a sua família é católica? Você sempre seguiu a religião Católica Apostólica Romana? Por que você decidiu seguir a religião Católica Apostólica Romana? Em sua opinião, qual é o papel da igreja na sociedade? Há quanto tempo você frequenta a Comunidade Todos os Santos? Há quanto tempo você mora neste lugar, próximo a esta comunidade católica? Atualmente, você participa de alguma pastoral na Comunidade? Já participou de outras pastorais na Comunidade? Seu filho é batizado e já fez a 1º eucaristia? Qual é a importância do ensino catequético para você? Você vai às missas dominicais e festivas? Em sua opinião, qual é o papel do pároco na igreja? Você concorda com todas as doutrinas da igreja católica ou você já se questionou sobre alguma doutrina? Já se questionou sobre qual doutrina? Você ficou sabendo das notícias sobre pedofilia cometida por padres da igreja católica? Como você ficou sabendo sobre esses crimes de pedofilia na igreja Católica? O que você pensa sobre esse fato? Como você acha que a igreja está se posicionando diante da publicação dessas notícias? Você tem uma opinião sobre algum tipo de veiculo de comunicação, quanto a forma de abordar temas da religião católica? Você acredita que é obrigação dos jornalistas ou dos repórteres investigar esse tipo de assunto? Como você analisa o poder da igreja e o poder dos veículos de comunicação, especialmente aquele da televisão? Você assiste o programa Conexão Repórter do SBT? Você viu a reportagem sobre padres que abusaram de crianças no município de Arapiraca em Alagoas? O que você achou? Como você se sentiu ao assistir a matéria? Você não tem filhos, mas se você tivesse, permitiria que seus filhos se tornassem coroinha?

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APÊNDICE APÊNDICE A – TRANSCRIÇÃO DO PROGRAMA Abaixo segue a transcrição da reportagem “Sexo, Intriga e Poder da Igreja Católica” que denunciou casos de pedofilia envolvendo sacerdotes da Paróquia de São José, da Paróquia Nossa Senhora do Carmo e da Catedral de Nossa Senhora do Bom Conselho, todas localizadas no Estado de Alagoas. A matéria foi feita pelo jornalista Roberto Cabrini e transmitida em 2010, ás 21h no Programa Conexão Repórter do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) e segue gravada no DVD entregue junto com esse trabalho. Narrador: Roberto Cabrini Abertura do programa Atrás da Sacristia, o segredo. Uma imagem perturbadora. Sexo, intrigas e poder na Igreja Católica. O altar e o crucifixo como testemunhas. Mentes traumatizadas. Lembranças que persistem. Pesadelos intermináveis. A tentativa de acobertar o indefensável. A inocência negada, proibida, violentada. O programa inicia Boa Noite! Durante seis semanas investigamos denuncias de abuso sexual contra coroinhas de uma das principais cidades do nordeste brasileiro. Abusos cometidos em nome de Deus. Os acusados padres da igreja local mais grave ainda é a ação orquestrada para encobrir o caso. Aqui, Roberto Cabrini e este o Conexão repórter. Reportagem A investigação começa quando se tem acesso a um vídeo, entregue por um morador de uma cidade de Alagoas. Imagens perturbadoras. Cenas que revelam uma face obscura da fé. No fundo, o altar de uma casa construída com o dinheiro dos fiéis. Na cama, um padre. O sacerdote em ato sexual com um jovem. Imagens fortes, que obviamente não podemos mostrar em sua totalidade. A imagem do Crucifixo pendurado à espera de seu dono, ocupado em práticas sexuais é emblemática. Ao final, o padre se assusta ao perceber que tudo estava sendo registrado: Monsenhor: Quem é? Monsenhor: Quem é que está aí na janela? Monsenhor: Quem é? Monsenhor: Quem é que está aqui? Para descobrir o que está por detrás deste vídeo, vamos até a cidade onde a cenas foram registradas. Arapiraca, no agreste do nordeste brasileiro, duzentos mil habitantes, a segunda maior cidade do estado de Alagoas. Aqui, como em tantos lugares do interior do país, a igreja exerce colossal influência na vida da comunidade. Identificamos o padre que aparece na gravação. Trata-se de um dos religiosos mais conhecidos na região: Monsenhor Luíz Marques Barbosa, 82 anos, natural de Maceió. 58 anos de sacerdócio, 20 anos a frente da Paróquia de São José. Aposentado recentemente com muitas homenagens. Mesmo assim, Monsenhor Luiz continua celebrando missas e casamentos pelo enorme prestígio.

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Esta escola leva o seu nome e até a visita de Dom João Paulo 2º ao nordeste teve a participação dele. Como retribuição a população de Arapiraca realizou um mutirão para construir esta casa, a mesma casa que estas imagens foram gravadas. Na época, camisetas, como estas, foram vendidas para arrecadar o dinheiro. Estampada a frase: Ajudei na construção da casa para a 3º idade do Monsenhor Luiz. Os fiéis de Arapiraca o enxergam como uma verdadeira santidade. Monsenhor Luiz é considerado extremamente moralista. Ele não permite, por exemplo, que mulheres com decotes ousados ou roupas muito curtas, frequente seus cultos. Oficialmente Monsenhor Luiz tem uma imagem de auto respeito. Mas nos bastidores existe, ainda, outra visão. Continuamos a nossa investigação. Identificamos quem é a outra pessoa que esta no vídeo e, quem o filmou. Jovem1: Ele falava que tinha medo de dormir só em casa. Aí, ele me convidava para ir dormir com ele, até que um dia, um momento que, ele começou a ficar pelado na minha frente e vinha pegar nos meus órgãos genitais. (sic) Jovem2: Eu sentia o cheiro dele em mim, aquele cheiro nojento. Eu sonhava com ele me atacando. Eu sonhava com ele falando: Eu quero ter você em mim. (sic) Em Arapiraca, localizamos jovens atormentados pela culpa e pela vergonha. Os rostos não serão mostrados para preservar a integridade física de cada um. São ex-coroinhas que venceram o medo e pressões para acobertarem os abusos. Agora, eles revelam tudo. Fabiano é o primeiro nome, o sobrenome, nós não divulgaremos. Ele é o ex-coroinha que aparece no vídeo mantendo relações sexuais com o Monsenhor Luiz Marques. As imagens foram filmadas em janeiro de 2009, quando Fabiano já tinha completado 19 anos e ainda era coroinha do Monsenhor. Hoje, ele conta que tem consciência do mal que o assolou durante 8 anos. Nesta foto, o coroinha Fabiano aos 15 anos Aparece abraçando o senhor Monsenhor Luiz. O registro foi feito durante a sua cerimonia de crisma. Prepara-se agora para um depoimento forte e revelador: Fabiano: Ele me abraçando, me acariciando, me beijando. Fazendo juras de amor: “Eu te amo. Eu gosto muito de você. Você é uma das razões da minha vida. Eu quero você pra sempre.” Isso era o que ele dizia muito, até mesmo, na hora da celebração litúrgica, ali ao redor do altar, na hora da paz de cristo, da confraternização, ele falava isso nos nossos ouvidos. Por baixo da casula dele, ele colocava a mão nas nossas genitais, não só na minha, como de outras pessoas, que eu sei. (sic) Roberto Cabrini: Até mesmo durante a missa? Fabiano: Durante a missa. Ele não tinha respeito à celebração, a igreja, a casa dele, a casa de outras pessoas. Como é comum a cantos religiosos Monsenhor Luiz participou diretamente na educação de Fabiano e sempre foi respeitado, quase venerado pela família do adolescente. O que ele dizia, era praticamente lei. E, Fabiano tinha um sonho: ser padre. Fabiano: Hoje eu não sonho mais. Roberto Cabrini: Você é uma pessoa de fé? Fabiano: Creio em Deus, creio muito em Deus, minha devoção está toda nele, mas não na igreja. Infelizmente, eu não creio em nenhuma igreja mais. Hoje eu não tenho confiança em praticamente quase ninguém. (sic) Mas a fé inabalável foi pouco a pouco substituída por outro sentimento: revolta.

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Roberto Cabrini: O que aconteceu exatamente? Fabiano: Ele começou a me tocar, tentando beijar a minha boca, eu virava, mas ele insistia. Eu me sentia muito enojado, me dava muita vontade de vomitar e começou a tirar a minha roupa (sic). Tirou a minha camisa, tirou a minha calça e começou a se despir também. Começou a fazer sexo oral comigo. Roberto Cabrini: Você sentiu obrigado a isso? Fabiano: Sentia-me. Com certeza! Roberto Cabrini: Por quê? Fabiano: Porque, ele de certa forma, ele comprava e ameaçava. Nessa parte da ameaça ele dizia: Olha, não fale nada disso pra ninguém. Isso é uma coisa entre mim e você. Isso vai ser muito ruim pra mim, quanto pra você. (sic) Roberto Cabrini: Você tem ideia de quantas vezes você foi abusado sexualmente, somente pelo padre Luiz? Fabiano: Incontáveis vezes. Não tem como falar, mas te asseguro que foram muitas. Roberto Cabrini: Você chorou algumas vezes? Fabiano: Chorei. Passei noites chorando. Roberto Cabrini: Quem é que sabia dentro da igreja que tudo isso estava acontecendo? Fabiano: Pessoas que trabalhavam lá, como motoristas, secretários. Roberto Cabrini: Todos sabiam? Fabiano: Sabiam e zombavam. Roberto Cabrine: Tem certeza disso? Fabiano: Tenho certeza. Eles zombavam de mim: Ah! Já foi dá um trato na mamãe. Eram coisas e apelidos que eles próprios davam. (sic) Roberto Cabrini: Você se sentia desmoralizado? Fabiano: Com certeza! Não tinha reação, não tinha como me defender. Em Arapiraca localizamos também que filmou essas imagens. Trata-se de outro ex-coroinha do Monsenhor Luiz. Flavio também vitima dos abusos do padre. Relatos chocantes de uma infância perdida. Roberto Cabrini: Quando é que você sofreu o seu primeiro assedio? Flavio: Ele me chamou na casa dele, para ir pegar uns vinhos e umas hóstias lá no escritório. (sic) Roberto Cabrini: Monsenhor Luiz? Flavio: Sim, Monsenhor Luiz. E, quando eu cheguei, ele me abraçou, começou a me beijar dizendo que eu era o amor da vida dele. Não tive como evitar de ter tido relação sexual com ele. (sic) Ele mandou que eu pegasse um creme, que não sei o nome e mandou que eu passasse nas nádegas as dele pra mim fazer a penetração nele. Então, ali eu tinha os meus 12 anos de idade. Hoje com 21 anos, ele resolveu dar um basta. O ex-coroinha aproveitou que o portão da casa estava entreaberto e com uma câmera na mão, registrou à tarde de orgia e luxuria do Monsenhor Luiz. A cena é chocante, Janeiro de 2009, na cama Monsenhor Luiz em ato sexual com o seu coroinha. Nestas imagens, Fabiano já é maior de idade. As imagens sugerem uma relação consentida, mas

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Fabiano conta que os abusos começaram quando ele era apenas um menino. Ao lado da cama o altar e Jesus como testemunha do pecado. O padre percebe uma movimentação estranha por trás da cortina. Mas não consegue identificar quem estava ali e nem o que estava ocorrendo. Ele não se da conta de que tinha sido filmado, pelo menos naquele momento. Roberto Cabrini: A filmagem é sua? Flaviano: A filmagem é minha Roberto Cabrini: Por que você decidiu fazer essa filmagem? Flaviano: Porque tinha que ter um ponto final nessa história. Porque já era muitas vitimas e todos tinham medo de fazer alguma coisa. Eu tive que tomar uma atitude. Eu me vi no meio de muitos menores ali. Eu tinha que tomar uma atitude e filmar. Roberto Cabrini: Você queria uma prova? Flaviano: Queria uma prova. (sic) Roberto Cabrini: Quem é que sabia que você estava buscando essa prova? Flaviano: Ninguém sabia. Roberto Cabrini: Foi uma decisão sua? Flaviano: Foi uma decisão minha. Os depoimentos dos coroinhas são fortes, as acusações graves. Mas é fundamental ouvir o outro lado da história. Você vai ver agora o que o padre acusado tem a dizer. Prepara-se, meu encontro com ele foi tenso em alguns momentos e surpreendentes em outros. Estamos nos aproximando da casa onde estar Monsenhor Luiz. É um momento de tensão, não sabemos como ele vai reagir, quando confrontado com as mais duras questões. Roberto Cabrine: Boa noite! Maria no interfone: Quem é? Roberto Cabrini: Por gentileza, meu nome é Roberto eu precisava falar com Monsenhor Luiz, por gentileza. Maria no interfone: Espere um momento, viu? Roberto Cabrini: Pois não! Minutos depois, Maria a governanta da casa abre a porta. Roberto Cabrine: Boa noite, como vai? Tudo bem? Prazer Maria: Tudo bom, Maria... Roberto Cabrini: Faz tempo que você trabalha aqui Maria? Maria: Vai fazer sete anos Roberto Cabrini: é apresentado ao Monsenhor Luiz. Roberto Cabrini: Boa Noite. Monsenhor Luiz: Boa Noite Roberto Cabrine: Prazer em Conhecê-lo. Como é que vai as coisas? Monsenhor Luiz: Ótimas! Então, Monsenhor Luiz aceita conversar comigo diante de nossa câmera. Roberto Cabrini: A gente está fazendo uma série de levantamentos aqui na região. Ouvindo várias pessoas e gostaríamos de ouvir o senhor também.

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Roberto Cabrini: Posso sentar aqui? Monsenhor Luiz: Pode... Roberto Cabrini: Nesses 50 anos de sacerdócio, qual é a palavra mais importante para o senhor? Monsenhor Luiz: Mais importante? É... sinceridade e caridade. Sinceridade e caridade...O mundo sem isso...É o que tá faltando hoje no mundo. Tem muitas mentiras...Muita mentira. Tão tentando enganar a gente em toda a parte do mundo. (sic) Roberto Cabrini: Aqui tem muito esse problema? Monsenhor Luiz: Em toda parte do mundo. Roberto Cabrini: Mas que tipo de mentira mais incomoda o senhor? Monsenhor Luiz: A mentira das pessoas acharem que estão agindo corretamente e não estão. Por exemplo, a mentira do salário. A mentira da casa para o povo. Roberto Cabrini: Tipo assim: falsidade... Roberto Cabrini: O que significa esse crucifixo? Monsenhor Luiz: Jesus Cristo, meu senhor e meu mestre. A caridade está aqui, né. Dá a vida pelo outro, né? Sou padre católico...formação cristã. E agradeço a Deus porque tenho essa vocação. Quando um padre realiza seu ministério tem que estar com o povo. Então, a gente aprende com os sofrimentos humanos, porque há muito progresso, mas há muita desumanidade. Roberto Cabrini: Padre tem que ter autocritica nos seus atos? Monsenhor Luiz: Tem sim. Ele é homem...Uma pessoa inteligente tem que ter discernimento. Roberto Cabrini: O senhor acha que já cometeu pecados também? Monsenhor Luiz: Quem nunca cometeu pecados? Como eles falam... atira a pedra. (sic) Roberto Cabrini: Até mesmo um padre? Monsenhor Luiz: O padre não deixa de ser homem. Para ser padre tem que ser homem primeiro. Roberto Cabrini: Que pecado o senhor acha que o senhor cometeu? Monsenhor Luiz: Ah, confessar pecado só no confessionário. Roberto Cabrini: Padre a gente está investigando uma denuncia de que haveria uma série de casos de pedofilia aqui na região... Monsenhor Luiz: Ah! Gente ouve em toda parte. Roberto Cabrini: O que o senhor sabe sobre isso? Monsenhor Luiz: Muitos casos. Roberto Cabrini: Tem muitos casos de pedofilia aqui? Monsenhor Luiz: Não tantos quanto há pelo mundo a fora. Arapiraca ainda é pequena, né? Roberto Cabrini: Mas o problema de pedofilia é muito sério aqui de pessoas que abusam de crianças? É muito sério aqui nessa região? Monsenhor Luiz: Eu acho que é mais homossexualismo do que pedofilia. Roberto Cabrini: Que tipo de pecado está praticando um padre que comete pedofilia? Monsenhor Luiz: Um pecado mortal. Agora, um pecado mortal. Agora, ele pode se arrepender disso. (sic)

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Roberto Cabrini: Pode se arrepender? Monsenhor Luiz: Claro. Tem cachaceiro... quando a pessoa diz: Ah, eu bebo muito. Eu digo: conheça um cachaceiro para então poder dizer que é um. Roberto Cabrini: O senhor sabe de algum caso envolvendo padres aqui nessa região? Padres que abusam de crianças, de coroinhas? Monsenhor Luiz: Ah, eu não sei. E chega o momento mais tenso da entrevista. Roberto Cabrine: Nos seus 58 anos de sacerdócio. O senhor já abusou de alguma vez de um coroinha? Monsenhor Luiz: Eu não posso te dizer isso, porque se eu tenho um pecado, só ao meu confessor eu posso dizer qualquer pecado meu (sic). O senhor não tem esse direito. Roberto Cabrini: Não, eu sei. Mas o senhor já praticou algum ato desse tipo? Monsenhor Luiz: Não posso dizer senhor. Nem admito que venha na minha casa saber disso. Tá entrando na minha privacidade. (sic) Roberto Cabrini: Não, entendo. Mas é que nós recebemos uma denuncia de que haveria casos assim e uma dessas denuncia diz respeito ao senhor. Monsenhor Luiz: Denúncia todo mundo diz. Ai, não posso dizer mais nada. Ai, fugiu. Roberto Cabrini: O senhor admite ou nega isso? Monsenhor Luiz: Não preciso admitir, nem negar. É caso de confessionário isso (sic). O médico nunca pode dizer se uma pessoa tá doente... tem que negar. Roberto Cabrnini: O senhor nunca abusou de coroinhas? Monsenhor Luiz: Não posso dizer sobre isso, nada. Roberto Cabrini: O senhor tem a sua consciência tranquila. Monsenhor Luiz: Não posso dizer nada a esse respeito. E nem admito que o senhor venha na minha casa saber disso. O senhor está entrando na minha privacidade. Entrando nisso o senhor já está avançando. E eu acho melhor que o senhor saia daqui. Roberto Cabrini: Eu sei, mas nós só estamos tentando esclarecer as coisas. Monsenhor Luiz: Não...Não...Há muitos pecados no que vocês precisam cuidar mais do que isso. (sic) Roberto Cabrini: Que tipo de pecado? Monsenhor Luiz: Não sei. Já basta. Encerra... Conversa encerrada. Roberto Cabrini: Tá bom. O senhor me desculpe, mas... Monsenhor Luiz: Tem muita gente... nada eu posso dizer (sic) Roberto Cabrini: Mas o senhor não pode nem me dizer se isso é verdade ou mentira? Monsenhor Luiz: Isso eu não posso dizer nada, viu? (sic) Obrigado. Antes de saí eu insisto mais uma vez Roberto Cabrini: Só mais uma pergunta senhor? Monsenhor Luiz: Eu encerrei... Eu encerrei, encerrei a questão, por favor... Roberto Cabrini: Se o senhor soubesse de um caso desses na sua Paróquia. O senhor iria apurar ou não? Monsenhor Luiz: Oh Maria!

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Roberto Cabrini: Tá bom padre. Obrigado. O senhor me desculpe ter entrado nesse assunto padre. É que eu recebi uma denúncia. Roberto Cabrini: É preciso ter muito cuidado para fazer esse zelo nas casas das pessoas, viu? Cuide da sua vida... acho melhor ... cuide da sua vida. Evite fazer qualquer pecado no mundo. Tá bom? Roberto Cabrini: Tá certo padre. Tenha uma boa noite para o senhor. Atendendo ao pedido paramos a gravação e nos retiramos. Nossa presença em Arapiraca deixou setores da igreja local incomodados. A situação piora com revelações de uma terceira vitima de abusos sexuais. E outros padres são acusados. Roberto Cabrini: Você nunca chegou a falar: “Padre eu não quero” Fabiano: Já falei. Eu consegui falar uma vez. Mas ele insistiu dizendo: “Não, mas por que você não quer? Eu acho errado. Mas não é uma coisa errada, isso é um ato natural do ser humano. O que a gente está fazendo aqui não é errado. É um amor entre eu e você”. Anderson, também ex-coroinha. Des de menino conta que passou pelos mesmos constrangimentos e abusos. Ele acusa outro religioso: Monsenhor Raimundo Gomes. Atualmente, vigário geral de Arapiraca, figura admirada e acima de qualquer suspeito. Anderson: Ele me chamava às vezes para ir até a casa dele. Para fazer companhia a ele. Ele sempre vinha me cantando, me oferecendo coisas para que eu caísse na dele. Nessa época, eu tinha 14 anos de idade. Com o tempo o assedio começou a ficar mais pesado. Em qualquer hora e em qualquer lugar. Anderson: Na casa paroquial dele. No escritório dele. No quarto dele. Ás vezes até na hora da celebração da missa. Ele vinha com palavras indecentes e vinha querer pegar nos meus órgãos genitais. Ele dizia que eu era bonito e que tinha atração muito forte por mim. Queria namorar comigo, tinha ciúme de mim. Ele não me queria ver conversando com nenhuma menina, que já tinha ciúmes... (sic) Este homem trabalhou como motorista particular do Monsenhor Raimundo Gomes e tem informações preciosas. Ele era uma espécie de confidente dos coroinhas. Relata com detalhes o sofrimento e o desespero dos meninos. Também revela a forma de aproximação do Monsenhor. Motorista: Dando presente. Sendo amigo, sendo um pai, carinhoso. Essas coisas todas. Tudo para ganhar a confiança do garoto, para usar o garoto. Depois de usar o garoto, muitas vezes ele ameaçava. Quando aquele não sedia da forma que ele queria. Ele expulsava do serviço de coroinha, depois expulsava na paróquia e onde ele celebrava a missa, nas homilias. Ele falava: “fulano não é mais dessa equipe, porque fulano é um menino ruim, é um menino que não presta, é um menino que é maloqueiro, é um menino que gosta disso, que gosta daquilo ou outro, gosta de festa, gosta de farra”. Intimidações, respostas nada esclarecedoras, justificativas improváveis e a pressão de quem defende a imagem da igreja local. Momentos de tensões. Nossa equipe sofre intimidações de quem defende os padres acusados. Esse é o momento emblemático. Os sinos da Paróquia Nossa Senhora do Carmo dobram. Enquanto isso, nós estamos nos preparando para falar com Monsenhor Raimundo, também acusado de abusar de coroinhas. De abusar de seres humanos que sempre confiaram nele. Interfone da casa: Alô, quem é? Roberto Cabrini: Boa noite, por gentileza, Monsenhor Raimundo. Interfone da casa: Por favor, um momento.

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Roberto Cabrini: Como? Interfone da casa: Não está. Quem gostaria? Roberto Cabrni: É o Roberto, de São Paulo.(sic) Como é que eu faço para falar com ele, por gentileza? Interfone da casa: Agora, ele não tá não... (sic) Interfone da casa: Que horas eu posso falar com ele? Por favor. Interfone da casa: Ô Roberto, é daqui mesmo? Roberto Cabrini: Não, é de São Paulo. (sic) Interfone da casa: Não pode deixar um recado, não? Roberto Cabrini: Não, eu precisava conversar com ele pessoalmente. Como é que eu faço para falar com ele? Por gentileza. Interfone da casa: Não sei não, porque ele saiu cedo e ate agora não chegou. Acho que está em reunião. Roberto Cabrini: Tá bom, eu volto mais tarde. Obrigado. Interfone da casa: Tudo bem. Vizinhos nos confidenciam. Monsenhor Raimundo está sim na casa paroquial. Mas ele não quer nos atender. Já teria sido avisado de nossa investigação pelo Monsenhor Luiz. Um carro se aproxima. Um homem desce e caminha em nossa direção. Ele quer saber o que estamos fazendo ali. Seu nome é Jordão Viera e ele é um paroquiano. Jordão Viera: Prazer Grande. Eu tô reconhecendo. (sic) Roberto Cabrini: Eu precisava falar com Monsenhor Raimundo. Jordão Viera: Ele não está? A menina me ligou e disse que tinha um pessoal aqui. Pediu pra tá ajudando ele. Roberto Cabrini: Sei. Como é que eu faço para estar falando com ele? Por gentileza. Jordão Viana: Aí a gente tem que ver. Ele hoje tinha viajado...Deve retornar. Tem que conversar com ele quando ele chegar. (sic) Roberto Cabrini: Tá, tá bom. Jordão Viera: Ligar pra cá. Roberto Cabrini: O senhor acha que ele volta ainda hoje? Jordão Viera: Acho que sim. Acredito que volta sim. Roberto Cabrini: Tá. É que tinha umas informações (sic), que talvez ele possa me ajudar em uma reportagem. Entendeu? Jordão Viera: Não quer me falar do que se trata para eu conversar com ele? Roberto Cabrini: Puxa, é um assunto meio pessoal pro seu...Gostaria de falar com ele. Tem que ser com ele mesmo. Jordão Viera: Tá ok. (sic) Roberto Cabrini: Não me leve a mal. Dois coroinhas trazem a bandeja com os copos e a jarra. Robertno Cabrini: Por que você decidiu ser coroinha? Coroinha: Muita vontade minha. Roberto Cabrini: Você que decidiu. Não foram os seus pais?

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Coroinha: Não. Coroinhas são auxiliares do sacerdote. Para as famílias católicas não existem hora maior do que vestir essa túnica e ocupar esta posição. Grande parte deles almejam se tornar padre. Pedimos para conhecer a Paróquia. Jordão abre as portas. Robero Cabrini: Esse é Monsenhor Luís? Jordão Viera: Monsenhor Luís Marques. Roberto Cabrini: Papa Bento XVI. E esse daqui? Jordão Viera: Esse é Dom Valério... O Bispo. Roberto Cabrini: Tá. E esse? Jordão Viera: Este é o Raimundo. Enquanto as mulheres rezam. Chega o advogado do Monsenhor Raimundo Gomes. Ele se identifica como Daniel Fernandes. Inicialmente, diz ser advogado do Monsenhor Raimundo. Depois afirma também representar Monsenhor Luiz. Advogado Fernandes: Agora... eu solicito que nenhuma gravação nesse momento. Uma conversa preliminar pra gente saber se autoriza ou não pra que se faça a reportagem. As condições são essas. Roberto Cabrini: Tá, certo. Roberto Cabrini: Nós recebemos denuncias sérias de pedofilia na igreja. E queremos conversar com ele para ver se essas denúncias procedem ou não. São denuncias extremamente sérias e graves. Advogado Daniel Fernandes: Certo. Roberto Cabrini: E queremos conversar com ele pra ver se isso procede ou não procede. Advogado Daniel Fernandes: Perfeito, sem problema nenhum. Roberto Cabrini: Então, por isso tem que ser registrado. Porque chegou ao nosso conhecimento, que existem vitimas. Existe sofrimento, existe abuso. (Cabrini se direciona para Jordão). Você está rindo do que? Você acha isso é algo engraçado? Você acha que esse assunto é engraçado. Jordão Viera: Eu sou paroquiano, rapaz. Tô rindo porque são denúncias vazias. (sic) Advogado Daniel Fernandes: Calma. Roberto Cabrini: Não, eu só estou perguntando. O senhor acha isso engraçado? Advogado Daniel Fernandes: Não de forma alguma. Roberto Cabrini: Ah, bom. Porque eu também não vejo graça alguma. Então, é o seguinte, eu acho que devia conversar com ele pessoalmente, porque são denuncias. Existem acusações e queremos saber se isso procede ou se isso não procede. Advogado Daniel Fernandes: Certo. Eu mais uma vez, reitero... Vocês devem ter eu acho que uma assessoria jurídica e devem saber como proceder com relação à divulgação de imagens. Divulgação de vídeo. Respeitando obviamente o que “pertine” e que permite a lei de imprensa. Roberto Cabrini: O mesmo respeito, que religiosos tenham com a comunidade, tenham com coroinha etc. O senhor concorda comigo? Advogado Daniel Fernandes: Lógico. Concordo plenamente. Roberto Cabrini: O senhor acha que um coroinha merece respeito ou não? Advogado Daniel Fernandes: Lógico que sim.

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Roberto Cabrini: Ah, bom, só pra saber. Uma hora de negociação e Monsenhor Raimundo aceita falar. Mas ele impõe uma condição. Não podemos gravar o seu rosto, apenas a sua voz. Estamos aqui na Paróquia Nossa Senhora do Carmo. Monsenhor Raimundo Gomes pediu para que sua imagem não fosse registrada. E nós vamos respeitar esse pedido. Roberto Cabrini: Monsenhor. Existem denúncias de abuso sexual contra menores. Contra coroinhas. Envolvendo padre da sua paróquia, inclusive o senhor. Essas denúncias procedem? Monsenhor Raimundo: Ocorre com padres da Diocese. Não é assim? Roberto Cabrini: Não dá sua paróquia. Monsenhor Raimundo: Mas padre, só eu da minha paróquia. (sic) Roberto Cabrini: Não existe o padre Luiz da sua paróquia? (sic) Monsenhor Raimundo: Ah, sim. Não tenho, em relação da minha parte. Não tenho conhecimento de tais fatos. Todos me conhecem e conhecem o meu trabalho pastoral, de evangelização desta comunidade. Eu desconheço, então, tal procedência, e tais denúncias e tais fatos. Neste momento, pra mim, então, foi um momento de surpresa dessa comunidade paroquial. (sic) Roberto Cabrini: Então, para ficar totalmente claro. O senhor em algum dia cometeu algum tipo de abuso sexual contra coroinhas da sua igreja. (sic) Monsenhor Raimundo: De jeito nenhum. De jeito nenhum. Roberto Cabrini: Que tipo de explicação o senhor tem para essa denúncia. Monsenhor Raimundo: O tipo de explicação que eu tenho é que são apenas calúnias para deturpar, então, a imagem do sacerdote, sobretudo neste ano sacerdotal. (sic) Roberto Cabrini: Jamais aconteceu nada, que desse imagem a esse tipo de acusação? Monsenhor Raimundo: Jamais aconteceu e porque, então, até os próprios meus coroinhas estão aí pra dizer quem é Monsenhor Raimundo. (sic) Roberto Cabrini: Muito obrigado Monsenhor. Monsenhor Raimundo: Que Deus o abençoe. Mãe de Anderson: Meu filho tinha 14 anos. Monsenhor Raimundo chegou na minha casa, como cordeiro. Um lobo em pele de cordeiro e... eu acolhi. A gente acolhemos ele assim, com toda a educação, com todo respeito por amor mesmo.. Esta mulher é a mãe de Anderson, ex-coroinha que conta ter sido abusado por Monsenhor Raimundo. Ela viu o filho sofrer em silêncio durante anos, sem saber o real motivo de sua agonia. Mãe de Anderson: O meu filho foi destruído. A alegria dele, a vocação dele. Tudo foi por água a baixo. Só Deus mesmo é quem vai curar essa magoa dele. Anderson: A minha família ficou muito chocada. A minha ficou em tempo de entrar na justiça, de denunciar e de abrir a boca pra toda sociedade saber quem é esses padres corruptos, desonestos, pedófilos. Isso, eu digo que nem um é um clero. Isso. eu falo que é uma quadrilha de pedófilos. (sic) Com o alerta de nossa presença em Arapiraca, começa o cerco a testemunhas, pressões e ameaças. Flavio, ex-coroinha que gravou o vídeo do Monsenhor Luiz fazendo sexo com Fabiano, recebe o primeiro telefonema do advogado Daniel Fernandes. Flavio tenta despistar. Preste atenção nos diálogos que vem a seguir. São muitas as indicações de ameaças e tentativas de manipulação.

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Flavio: Alô Advogado Daniel Fernandes: Cadê você? [sic] Flavio: Ô Doutor Daniel, tão me seguindo. Tão me seguindo. Eu não vou poder ir pra ai não. Tô morrendo de medo. (sic) Advogado Daniel Fernandes: Quem disse que tão lhe seguindo? (sic) Flavio: Oi? Advogado Daniel Fernandes: Quem disse que tão lhe seguindo? (sic) Flavio: Minha mãe é que me falou. Que tão filmando eu. (sic) Advogado Daniel Fernandes: Tão lhe filmando? Só tem um carro aqui deles. Eu já tive com eles. Vem aqui pro escritório. (sic) Flavio: O que é que eles querem? (sic) Advogado Daniel Fernandes: É sobre aquele assunto. (sic) Flavio: Mas eu tô com medo. Eles devem tá ai atrás do senhor. (sic) Advogado Daniel Fernandes: Não tá não, rapaz. Meu carro tá sem placa. Eles não tem nem como está atrás de mim. Venha pra cá pro escritório. (sic) Flavio: Eu tô morrendo de medo. Eu acho... (sic) Advogado Daniel Fernandes: Venha pra cá. (sic) Flavio: Não é melhor a gente conversar amanhã, não. (sic) Advogado Daniel Fernandes: Não, tem que ser agora. Eu preciso conversar com você agora. Venha pra cá. Daqui, a gente vê o quê que faz. Venha pra cá agora. (sic) Flavio: Certo, certo. Advogado Daniel Fernandes: Venha pra cá agora. Não fale com mais ninguém. Venha pra cá agora. Não diga a ninguém que tu tá vindo pra cá. (sic) Flavio aceita ir ao escritório do advogado Daniel, com um microfone escondido. Do lado de fora estamos gravando tudo. Sempre com a autorização de Flavio. Flavio: Mas... Assim, o que é que realmente eles querem? Porque... (sic) Advogado Daniel Fernandes: O que eles querem é o seguinte. Chegaram a enviar pra ele uma denúncia de que na paróquia aqui, havia abuso de menores. E que envolviam o Monsenhor Luis, envolviam o Monsenhor Raimundo e me parece que mais dois outros padres. Então pra se chegar nesse tempo, só pode ter sido dessa comunidade. (sic) Flavio: Sim, mas e o Monsenhor? O que é que foi que ele fez com o... Advogado Daniel Fernandes: Com o quê? (sic) Flavio: Com as fitas. Advogado Daniel Fernandes: Ele destruiu. Já não existe mais nada. Tá tudo destruído. Aquele mesmo pacote que você me entregou. Acho que dois ou três DVD’s, né? (sic) Flavio: Quatro. Advogado Daniel Fernandes: Quatro? Então, daquele mesmo jeito foi tudo triturado... queimado. O rumo da conversa muda para tom ameaçadores. Advogado Daniel Fernandes: Mas pesem bem até onde vocês vão levar essa história, porque se isso desanda pra botar no freio é difícil. E outra... Todo mundo sai prejudicado e vocês

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muito mais. Porque é uma coisa, e eu espero, ainda tenho fé que isso vai morrer... Vai esfriar. É... Mas vocês vão carregar uma coisa pro resto da vida que não faz sentido. (sic) Flavio: Ele foi pra casa do Monsenhor Luis e depois pra casa do Monsenhor Raimundo. Mas, por que foi pra casa do Monsenhor Raimundo? (sic) Advogado Daniel Fernandes: Porque o nome do Monsenhor Raimundo tá também. (sic) Advogado Daniel Fernandes: E Monsenhor Raimundo participou daquele acordo... De tudo. )sic) O acordo citado pelo advogado é esse aqui. Um termo de compromisso firmado pelo Fabiano, Flávio e Monsenhor Luiz Marques. Consta-se a assinaturas dos ex-coroinhas e a do padre. Nele, fica acertado que o vídeo que Monsenhor Luiz aparece fazendo sexo com Fabiano não seria divulgado. Em troca, Monsenhor Luiz se compromete a pagar uma divida. Valor: R$ 32.250,00. O documento assinado pelos coroinhas e Monsenhor Luiz tem ainda outra informação importante. Menciona que uma cópia deste vídeo em que o padre e o coroinha aparecem mantendo relações sexuais está na posse de Dom Valério Breda, justamente o Bispo da Diocese de Penedo, a qual as paróquias de Arapiraca estão subordinadas. Fabiano: Eles nos pressionaram pra que a gente entregasse a gravação. Que de forma alguma a gente fosse mexer mais nesse assunto. Foi um cala a boca. Monsenhor Raimundo estava presente nessa negociação e disse: “vocês querem dinheiro para acabarem com isso”. (sic) Roberto Cabrini: Afinal de contas, o padre Luiz foi extorquido? Fabiano: De forma alguma... De forma alguma. Não houve nenhum tipo de extorsão. Roberto Cabrini: Você foi abusado por outros padres também? Fabiano: Pelo padre Edilson Duarte. Que na frente da minha mãe, ele começou a me elogiar e a dizer que me queria pra ele. “Eu quero esse menino pra mim”. Na frente da minha própria mãe. O padre Edilson Duarte, citado por Fabiano, é o responsável pela igreja mais importante de Arapiraca. A catedral de Nossa Senhora do Bom Conselho. Para saber o que ele tem a dizer. Vamos à casa do padre Edilson. Padre Edilson: Sobre isso eu estou tranquilo. Sobre isso eu estou tranquilo. Agora, eu não sei quem levantou essas denúncias. De onde veio à denúncia. (sic) Entrevistador: O senhor já ouviu algum comentário? Padre Edilson: Nada... Nada. Nada não. Desconfiado, ele quer se certificar de que a conversar não está sendo gravada. Padre Edilson: Cadê o microfone? Meu filho, calma, tranquilo. É seu trabalho... sua pesquisa. Pode ficar tranquilo. Comigo você pode ficar tranquilo. Esse assunto comigo, não. (sic) Não convencido, ele mais uma vez coloca a mão no peito de nosso produtor. Está a procura de um microfone. Padre Edilson: Cadê o ... o microfone? É seu trabalho... Tranquilo. É só isso? O comportamento dele é estranho para uma pessoa suspostamente inocente. Ele nega todas as acusações de abuso sexual e no final tenta passar a imagem de um padre dedicado. Padre Edilson: Deus abençoe você.

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Criança: Eu fui me confessar. O padre estava lá no confessionário. O padre Edilson. E depois da confissão normalmente, ele me chamou.(sic) Quando eu me levantei e tinha saído do confessionário. Ele me chamou e falou que eu era um rapaz bonito. Mãe da criança: Ele voltou muito transtornado, voltou muito nervoso. Sentou ao meu lado e eu até perguntei: “Filho não vai não rezar? Não vai não fazer a penitencia que o padre lhe pediu?” Aí, ele disse: “ Não, não eu quero ir embora, quero ir embora”. “O que é que aconteceu? A gente saiu pra fora da igreja e chegando lá ele me disse. Eu achei um absurdo. Achei e continuo achando um absurdo, porque ele é uma pessoa que representa Cristo. Até então a gente tinha essa percepção da pessoa que representa Cristo aqui na Terra. Que dizer, a gente tem a liberdade de conversar, de desabafar, de se confessar. E vindo de uma pessoa dessa teria assim a maior confiança, vamos dizer assim. Não é mais, a gente não pode ter mais confiança, até em um padre. (sic) Arapiraca não dorme. As pressões contra as testemunhas prosseguem. Agora o rapaz filmado fazendo sexo com Monsenhor Luiz é chamado no escritório do advogado Daniel, o homem que se diz representar os padres da Paróquia São José, impõe como o coroinha deve proceder. O advogado nem desconfia, mas tudo está sendo gravado com a autorização de Fabiano. Advogado Daniel Fernandes: Aquele repórter famoso, o Roberto Cabrini. Fabiano: Roberto Cabrini, né? Advogado Daniel Fernandes: É... Ele teve lá na casa do Monsenhor, que o recebeu. Não sabia quem era. Ele comentou sobre o assunto. Tiveram depois na casa do Monsenhor Raimundo. Lá, eu já tinha feito contato com ele e cheguei a tempo. Intermediei a conversa. E a história que a gente sabe é que o padre faz isso. Ele perguntou: “O Que é que você tem a dizer? Ele fez com você?” Eu disse: “Não, jamais”. Comigo não fez, então não tenho o que falar. (sic) Fabiano: Então, é pra negar tudo. Advogado Daniel: Não... é só não dar conversa. Eles têm um jeito de ir perguntando, de ir questionando. Logo na primeira eu disse: Não, não é comigo. Eu não tenho nada a falar sobre esse assunto. Não conheço, não sei e não quero tratar sobre isso. Agora, Fabiano é ameaçado. Advogado Daniel Fernandes: Então, tome cuidado porque se vocês entrarem numa dessas, o prejuízo para vocês é maior do que para todo mundo. Porque é o seguinte ... Se esse negócio for um pouco mais pra frente, ai eu vou tomar as providencias que eu já tinha que ter tomado desde o inicio. Abusos ou relações homossexuais. Padres em pecado. Garotos atrás de dinheiro ou as duas coisas. Padres e coroinhas, um relacionamento atrás da sacristia. Para a família dos meninos a magoa e a dor. Pai da criança: Aí você ver a situação de um pai. De uma pai trabalhando dia a dia, com toda a dificuldade. Tenta confiar nas pessoas, principalmente em um padre, né? Um padre que serve a Deus. Mostra servir a Deus... Desse jeito. Você imagina quantas crianças vem sofrendo com esse padres, com esses vigaristas da igreja, quantas crianças, né?. Que a mãe confia, porque é padre, tem imagem de padre. (sic) Segundo os depoimentos, padre em tentação, meninos atormentados. Anderson: Eu tenho medo de ele mandar me matar. Tenho um medo muito grande. Não posso ver um carro na minha porta, não posso ver nada, que eu tenho muito medo. Até dos amigos dele, da sociedade dele, da sociedade de padre. Ele é capaz de tudo. (sic) Roberto Cabrini: Mesmo um pecado assim o senhor perdoaria?

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Monsenhor Luiz: Porque não? Deus é perdão. As vitimas e as famílias não comungam do mesmo sentimento. Pai da criança: Eu fui criado desde pequenininho, que a minha fé é a igreja católica. Então, está na hora de a gente defender a nossa fé. Mostrar porque Jesus Cristo é tão bom e aparece tantos satanás de batinas aí, como esse padre Edilson e outros padres que existe aqui em Arapiraca. (sic) Mãe de Anderson: Que os pais denunciem e não tenham medo, não. Porque o errado são eles. Quem apronta e quem vive acabando com a juventude são eles. (sic) Por isso, não deve ter medo. É denunciar e pronto. A defesa dos acusados alega que nunca houve abuso, a cena do vídeo seria apenas um ato homossexual. Os padres acusam os meninos de crime de extorsão. Eles estariam interessados em arrancar dinheiro dos religiosos. Roberto Cabrini: Você fez essa filmagem com o objetivo de extorquir o padre? Flavio: De maneira nenhuma. Nunca. Roberto Cabrini: Nunca passou pela sua cabeça isso? Flavio: Nunca passou pela minha cabeça isso. Roberto Cabrini: Mas foi paga uma quantia em dinheiro? Flavio: Não, pelo advogado dele. Roberto Cabrini: Que estava representando o padre? Flavio: Que estava representando o padre. Roberto Cabrini: Quanto? Flavio: Trinta mil Roberto Cabrini: Para onde foi esse dinheiro? Flavio: Para pagar uma divida de cartão de credito. Roberto Cabrini: Eram trinta mil. Pelo acordo você destruiria a gravação. Flavio: Era para mim entregar a gravação, não era para mim destruir não. Era para mim entregar na mãos deles. (sic) Roberto Cabrini: Você entregou a gravação? Flavio: Entreguei Roberto Cabrini: Mas você ficou com uma cópia? Flavio: Fiquei com uma cópia. Roberto Cabrini: Porque você decidiu ficar com a cópia? Flavio: Eu decidi ficar com a cópia naquele momento. No caso de algum dia eles vinhesse fazer alguma mal a mim, era a minha prova. (sic) Anderson: Eles continuam exercendo a mesma função. Continuam sendo párocos. Nem transferido são. Continuam sendo padre aqui, em Arapiraca. Não são punidos. Isso não acontece, porque tudo tem o rabo preso, todos devem um favor ao outro e sabe... è que nem fosse uma árvore, uma árvore a anoite. Se você chegar e tocar fogo, quando amanhecer, no outro dia, amanhece um monte de pardal morto no chão. (sic) Marcilio Barenco, delegado geral de Alagoas: A delegacia geral de Alagoas analisou e diante dos indícios da pratica de crime, contra a criança e adolescente e da força da requisição formulada, determinou a restauração de inquérito policial para apurar o fato. Nós enviamos

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um comunicado a arquidiocese de Maceió para que tomasse as providencias cabível, no que diz respeito ao âmbito administrativo que desrespeito a igreja. (sic) Os coroinhas que falaram nesse programa confirmaram todas as declarações ao Ministério Público e já estão sobre proteção da justiça. Acobertar possíveis atos indignos de padres, lesa não só as vitimas, mas também os verdadeiros sacerdotes. Aqueles, que horam a batina com respeito e devoção. Aqui, Roberto Cabrini e, este foi O Conexão Repórter. Boa Noite! Transcrição feita por Lucimar Bento de Faria. (Brasília, maio de 2014).