WANDERLEY DA SILVA MARQUES

1 WANDERLEY DA SILVA MARQUES 2 Homens Secos 3 Copyrighht @ 2002 by Wanderley da Silva Marques Capa Wanderley da Silva Marques Digitalização e E...
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WANDERLEY DA SILVA MARQUES

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Homens Secos

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Copyrighht @ 2002 by Wanderley da Silva Marques Capa Wanderley da Silva Marques Digitalização e Editoração Eletrônica Marcos Porto

Revisão Nenê Nazaré

A UNIÃO Superintendência de Imprensa e Editora Br 101 - KM 03 - Distrito Industrial 58.082.010 - João Pessoa - Paraíba - Brasil

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SUMÁRIO PARTE I A Retirada I 15 Mortes no Rancho / 25 Reencontro com o Paraíba / 37 O vale do Rio Piranhas / 47 Perda de um amigo / 59 Duelo com lâminas / 69 A paz procurada I 81 PARTE II Folhas secas / 95 Os sete infernais / 105 Decisão a chumbo / 113 Os milites I 123 O fim de Floriano / 135 Chico Palmo / 1 49 Sinhá Ana / 159 PARTE III O retorno I 173 Ajuda ao acaso / 181 Destino camarada / 193 Os quatro da vindita / 203 Frente ao pactuário / 213

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PREFÁCIO Ler HOMENS SECOS é reviver a glória dos pioneiros antepassados desta terra, homens dotados de um alto código de valores e princípios morais, código este defendido à risca e muitas vezes a custo da própria vida. HOMENS SECOS consegue fascinar, ao tempo que prende e desperta no leitor um pouco do seu eu que é deixado esquecido, mas que ressurge em certas ocasiões. Longe de ser um simples livro, desponta com a força de um furacão pela maneira direta e legítima com que traz a autêntica odisséia dos primeiros desbravadores deste sertão. Os personagens aqui traçados não fogem de forma alguma dos verídicos vivedores dos dramas tão bem descritos por este novato. “Novato sim", todavia, pela forma como escreveu, não duvido de ter vivenciado na pele em tempos longínquos a própria saga; pois é só desta forma que encontro meio para discernir como ele conseguiu descrever histórias tão ricas de fatos, como os cenários, vozes, entre tantos outros. HOMENS SECOS retrata fielmente uma época, e acima de tudo a grandeza do tabaréu puro de espírito, ardoroso no convívio com os seus entes, fiel às suas crenças e costumes, gentil, Cortez, amigo, embora consiga ser o oposto quando é ofendido; assim é que é HOMENS SECOS, que bem poderia ter qualquer outro título, mas pelo que foi escrito, acredito eu, nenhum outro nome cairia melhor. Enaltecer HOMENS SECOS é fácil, pois quando se consegue elaborar um trabalho tão rico como este, tornar-se-á, para qualquer um escolher adjetivos e empregá-los no perfil desta obra. Assim, caríssimo escritor, obrigado, muito obrigado pelo

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presente que você nos doou, gerando HOMENS SECOS. Seu livro dispensa apresentação, e se o faço, sinto orgulho pela bandeira desfraldada em nome da nossa cultura, da nossa região c principalmente do nosso Estado Antônio Marques da Nóbrega

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Aviso HOMENS SECOS é um livro escrito de maneira incomum, comparado a outros do gênero: Aqui você encontra três histórias em período diferentes, buscando valorizar a leitura e despertar o interesse por tal prática. Escrito de modo simples e direto, identifica-se logo nas primeiras páginas com o autêntico povo nordestino-e suas tradições. Tem título único em razão das sagas que aqui passarão a ser descritas terem acontecidas em terras dos Estados da Região Nordeste, independente do tempo em que ocorreram. O autor

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LIVRO 1

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HOMENS SECOS

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PARTE I

A RETIRADA HOMENS SECOS 1896, nesse ano, algumas áreas da região nordestina foram castigadas por uma grande estiagem. Os dias amanheciam cada vez mais quentes; o sol abrasador consumia o pouco de vida que ainda teimava em resistir àquele inferno ardente. Nhó Vicente olhava com um fio de tristeza para as suas terras, outrora férteis e agora carbonizadas pela ação da estiagem. Zé Manoel, seu compadre, cunhado e amigo, estava sempre ao seu lado nestas horas. O pensamento de abandonarem tudo e botarem o pé na estrada estava para se tornar realidade, e já não o tinham feito, graças ao "estado interessante" da esposa de Nhó. A cada dia, o número de retirantes que passavam por aquelas paragens era maior; a terra abrasadora não oferecia condições de vida ao homem. Os últimos cacimbões torravam mediante a fúria do sol escaldante, pois isso! Viam-se forçados a procurar melhor vida em outras terras. Joana sucumbia de dores, seu filho estava prestes a nascer e ela tinha certeza de que, naquelas condições, dificilmente estaria viva após o parto. Nhó Vicente com os olhos voltados para ela mostrava-se alheio a tudo, o elo que parecia mantê-lo vivo estava a sua frente, sofrendo imensamente, e nada ele podia fazer para amenizar sua dor. Manoel, naquele instante botava água para ferver, nunca antes passara por situação igual, seu corpo trêmulo mostrava todo o seu nervosismo. Quando a água ficou pronta, e ele se dispunha a levá-la ao quarto; Vicente entrou na cozinha, sua face transtornada era a imagem viva da dor; sua expressão

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angustiante mostrou ao cunhado que tudo estava acabado. Uma lágrima corria naquele rosto queimado cheio de rugas marcadas pelo tempo. A tarde caiu, deixando para trás a manhã. Manoel encarregou-se de enterrar a irmã, falecida num parto em que mãe e filho pereceram, vítimas da desgraça maior, a incontinente seca. Horas mais tarde, cavara nos fundos da fazenda uma cova, local em que Joana, definitivamente, ficaria unida à terra que tanto amou. Ajudado por Nhó Vicente, depositou o corpo na abertura, com carinho, enrolado numa rede. Num último adeus, Nhó olhou para a mulher amada e não pode evitar a tenente de lágrimas que veio à tona. Manoel o afastou dali, momento depois terminava aquele penoso trabalho, cobrindo a cova; então, entrou em casa abatido, sua dor era tanta que não dava para chorar, por mais que quisesse não conseguia desabafar, sentia por dentro um imenso vazio e a sensação de estar péssimo. Nhó Vicente o contemplou por alguns segundos, aí pôde entender a dor que Manoel também sentia, até ali, ele se mostrara um bravo, não a deixando transparecer. Andou alguns passos em sua direção e o abraçou fraternalmente como se este fosse seu filho, pois afinal tinha o moço, idade de ser sua cria. - Manoel, infelizmente nada mais nos prende a estas terras, só resta agora à gente partir em busca de outro lugar aonde esta maldita estiagem não tenha chegado. - É verdade. Já tá mesmo na hora da gente escavacar por esse mundão aí afora, corno tu disse: nada mais existe para nos prender aqui - concordou o rapazola. Horas depois botavam o pé na estrada, andavam desalentados, a esmo, como que puxados por alguma coisa; a cada minuto, suas terras ficavam mais para trás, num aceno de adeus sem a certeza de regresso. Nhó Vicente andava na frente com uma velha carabina na mão, e a tiracolo, uma cabaça

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meada, acompanhada de um bornal contendo farinha e rapadura, essa era toda riqueza da qual podia dispor naquela jornada. Zé Manoel vinha logo atrás, cabisbaixo dava à impressão de carregar o mundo nas costas. Vez por outra arrumava coragem para fazer uma graça ao seu fiel cachorro, um vira-lata criado por ele desde novinho, a quem balizou por Feroz, tendo em vista a sua valentia. Portava na cintura um facão de médio porte, o qual manuseava como ninguém. Assim, durante todo o dia e parte da noite andaram jogados, sem destino, sem vontade própria, só andaram e só estavam naquele inferno em vida. A madrugada os pegou em plena mata carbonizada, onde garranchos de árvores pareciam espectros assustadores a se espalharam na imensidão do campo e vir-lhes testemunhar o estado de morte da natureza. Vencidos pela fome junto ao cansaço, foram obrigados a parar, alheios ao aspecto aterrador imposto pela mata. Dormiam ambos. Nhó com a cabeça escorada no bornal e Manoel sobre um toco improvisado como travesseiro, quando Feroz levantou-se bruscamente pondo-se a latir e a pular freneticamente, parecia enlouquecido. Manoel ralhou com ele, porém de nada adiantou, o cão continuava a latir e a pular preso numa correia amarrada a um tronco de marmeleiro, Nhó veio para junto dele desamarrando; tinha entendido que o animal farejara algo que eles não viam, mas que estava próximo incitou-o pronto a seguí-Io. - Isca! Vai pegar! - o cachorro partiu em disparada no meio da garrancheira. - Vem, Manoel! Vamos seguí-Io, ele deve ter farejado algo aqui por perto - completou, correndo atrás do cão, sendo seguido por Manoel. Logo chegaram ao local dos latidos de feroz. Dentro do leito seco de um rio, uma choupana de tronco de madeira e do interior desta outro cão ladrava em resposta ao

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primeiro, Feroz, agitado, continuou a latir mesmo quando Manoel e Nhó chegaram junto dele. Examinaram a choça atentamente, resolvendo entrar. Nhó de carabina armada posicionou-se ao lado da porta, enquanto Manoel arrombava-a com um chute. Entraram ambos quase ao mesmo tempo. No interior do ambiente feito de um só cômodo, encontraram uma cama improvisada feita de dois paus suspensos na horizontal e presos nas extremidades por cordas em quatro forquilhas na vertical vindas do chão a altura de trinta centímetros; sobre os paus maiores, uma série de menores alinhados em pequenos intervalos e cobertos por folhas secas. Deitado na armação, jazia um homem morto, seu braço esquerdo pendia caído quase roçando o solo; tinha a mão aberta, crispada, e próxima dela um enorme facão estendido no chão. No outro extremo, uma grande serpente despedaçada. Completando a cena, um cão ladrava lamuriento aos pés do falecido. Não lhes foi difícil deduzirem o que de fato acontecera naquele local. Vasculharam a choupana, encontrando alguns quilos de toucinho salgado, uma porção de farinha, duas belas rapaduras, e uma quarta de barro cheia com água: um verdadeiro tesouro para aqueles dois famintos. Sem dificuldades, abriram no solo leitoso do rio uma vala, onde enterraram o desconhecido: resolvendo passar o dia por ali e viajarem pela noite. O cachorro pareceu gostar de Nhó Vicente, que decidiu ficar com ele. De volta à cabana, encontraram ainda uma escopeta, munição e vários objetos de valor; com certeza aquele homem era um cangaceiro, pois estes infestavam a região. Comeram bem depois de muitos dias. Dormiram o restante da tarde, e quando escureceu partiram dali, levando mais um companheiro, o cão, a quem Nhó batizou por Trovão, mesmo sem saber o porquê da escolha deste nome. Os dias transcorriam normalmente, uma vez por outra, cruzavam com outros retirantes flagelados quando paravam

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para conversar. O assunto que mais ouviam, referia-se às atrocidades de um grupo de bandoleiros comandados por um tal Bastião Paraíba, elemento a quem a "força" andava a procura pelos inúmeros crimes cometidos, prometiam até uma recompensa a quem desse uma pista que levasse ao bando, coisa impossível, visto que o bando não parava em um mesmo lugar, atacava aqui e acolá, estava sempre em quase todos os lugares, saqueando, matando e roubando. O nome Bastião Paraíba impunha medo e o silêncio se fazia na pronúncia deste nome; dele não estavam a salvo nem mesmo os retirantes, que nada de valor tinham consigo além da própria vida. Numa dessas manhãs Nhó Vicente acordara sorridente, uma esperança de dias melhores nascia em seu peito. Manoel percebeu isso, mas não acreditava na sorte, já fazia mais de cinco meses desde a saída de casa, e até ali viviam como animais, comendo quando aparecia e não raro passavam dias de fome, mascando raízes para sobreviver. Nhó Vicente era um homem alto, robusto, agora estava magro, abatido; naqueles meses envelhecera muito, os que o conheceram outrora, certamente não o reconheceriam de imediato. Ele, Manoel, completara vinte anos e eslava aparentando bem mais que isso: era de estatura mediana, magro, todavia, possuidor de uma agilidade impressionante, audacioso e cheio de vida. Estavam acampados próximo há trilha no meio da mata morta, com seus cães descansando, deitados no solo de cabeça erguida, esperando a hora de seguirem em frente. Estes vinham sobrevivendo da caça a pequenos lagartos, principalmente lagartixas, existentes na caatinga ardente. Ao pôr do sol seguiram como almas penadas, levadas pelo vento, seus passos trôpegos levavam-nos a qualquer lugar. Foi quando uma poeira imensa se fez a certa altura da estrada lá a diante, Nhó Vicente divisou-a curioso.

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- Vê lá, Manoel! O que tu acha? Serão os tais bandoleiros? E aí! Vamos entrar no mato ou ticar e ver o que é da nossa sorte? - Eu já estou até farto de viver como bicho, depois, pode ser quem for que venha acolá eu não vou deixar meu caminho. Já é mais do que hora de a gente saber o que vai ser de nós, camarada. Completou Manoel, de escopeta na mão pronta para usá-Ia. Nhó concordava com ele, embora não admitisse "que seria melhor morrer do que viver daquela forma", mesmo assim, armou seu trabuco, esperando o desfecho que já se aproximava. Um grupo de seis homens, mal vestidos, seminus, a cavalo, parou de frente aos cunhados, todos eles bem armados; os rostos barbudos lhes davam certa semelhança. Um deles adiantou se aos demais, medindo os dois viandantes, sorriu maliciosamente descendo da sua montaria. - Ora! Ora! Mas vejam só! dois perdidos e parece que eles querem brigar pessoal - terminou a frase virando-se aos que continuavam montados, apontando as armas de Nhó Vicente e Zé Manuel - talvez - continuou - vocês dois queiram me dizer o que pretendem com estas armas apontadas para nós? Nhó Vicente olhou·o dentro dos olhos antes de responder, e o fora-da-lei pôde perceber estar diante de dois homens sem sombra de dúvidas, valentes, sem medo da morte. - Por enquanto nada, só desejamos seguir o nosso caminho; para nós já chega de viver se escondendo no mato sempre que surge uma empreitada. Essa vida moço! Não é nossa, e se estamos aqui agora é culpa desta maldita estiagem. - Tá certo! Talvez os deixe passar, pois como vêem, somos mais e podemos eliminá-los se assim for o caso - disse sorrindo tentando meter medo aos dois retirantes, ainda aumentou olhem, vocês não me servem, as suas armas é que sim. Há algumas horas atrás demos de cara com a força, vários de nós

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morreram, porém! Como vocês mesmos estão vendo, estamos vivos; mas eles! Pobres coitados. Zé Manoel até ali calado, resolveu intervir. - É agora que a porca torce o rabo só! Pelo modo vosmecê é o tal de Bastião Paraíba. Bom! Se o é, isto não nos mete medo. Então vá logo ficando avisado, que se pode matar a nós dois, acho bom ver que antes disto acontecer, alguns de vocês morrerão, e o primeiro a ir comer capim pela raiz, faço questão, será vosmecê. Completou a frase, apontando a escopeta para o marginal, este pela primeira vez na vida encontrava alguém a não temê-lo. Assim O entendeu. - Tem razão moço, pode passar. Mas um dia! Nós nos encontraremos por este mundão aí afora, e então vou querer tirar a limpo essa sua bravata. Ao término da última palavra, montou seu cavalo, jogou algo no chão e partiu galopando seguido por seus sectários. Não mais olharam para os retirantes, que ficaram ali, parados, vendo-os se encobrirem na distância da rodagem. Passaram pelo maior perigo de suas vidas, realmente era aquele homem, Bastião Paraíba, o matador frio que o fazia por puro prazer, por pouco não aumentaram a lista de mortos do bando marginal. Manoel riu a promessa de um novo confronto com aquele homem seria quase impossível, tinha certeza de jamais vê-lo nos seus caminhos doravante. Feroz encostou-se-lhe nas pernas e dentro de pouco seguiram jornada. Os mais distantes rincões, vales, grotões e serras, a dupla transpôs à procura de algo há muito deixado para trás. A esperança de um inverno farto os fazia viver. Nhó Vicente cheio de inteligência passava seus conhecimentos ao cunhado a quem tinha como filho.

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MORTES NO RANCHO Naquela tarde, o dia transcorria como outro qualquer a mais no inferno seco que estavam a terra. Ao longe, entre duas serras, puderam avistar um povoado, isso muito lhes agradou, pois há dias não viam ninguém e necessitavam suprir suas matulas. Com as cédulas, deixadas pelo bandoleiro, fariam isto seguindo jornada. Em busca de algo que não sabiam onde estava, tendo em vista mais de meio ano de vida errante, "pensaram". - Manoel! Não sei mesmo o que é da gente. Andamos feito bicho e até agora não arrumamos um lugar para ficar, em toda parte tem seca e desgraceira. Talvez, nesse lugar aí possamos arrumar trabalho, mesmo que seja só pela alimentação - falou Nhó Vicente. - Para mim tá bom. Qualquer caminho que tu fores tomar eu irei contigo - resumiu absoluto o rapaz. Deixando para trás um mar carbonizado de plantas, adentraram no arraial. O lugarejo era igual a todos os outros por onde passaram. Entrementes! Suas pequenas ruelas estavam limpas, conservadas, num sinal de que a população local adequou-se e se dispôs a conviver com a seca. - Amigo! Indagou Manoel a um sujeito passante - que lugar é este?

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- Logo se vê que são de fora. Vocês estão na Bahia e o lugar é Santa Ana do Desterro - informou o habitante seguindo caminho. Nhó Vicente riu. Sua terra natal tinha ficado para trás há muito tempo, só agora se dava conta da realidade; as lembranças dessa no interior da Paraíba vieram-lhe à mente por alguns instantes. Apanhara de mais com a seca, já não sabia lamentar, "concluiu". Para um velho armazém situado no centro da rua principal, caminharam depois da entrevista ao transeunte, no intuito de realizarem o mesmo objetivo. O velho comerciante os atendeu puxando conversa. - Também são seguidores do Beato de Canudos? O padrinho Antônio Conselheiro? Estranharam a pergunta, pois até ali não haviam tomado conhecimento de quem fosse Antônio Conselheiro. Assim, pediram ao presbítero que os pusesse a par do assunto, no que foram atendidos com prazer. Momentos depois abandonavam a cidade com destino certo. Entretanto, uma Patrulha Militar saída de Juazeiro passou por eles na entrada da rua. Atentos, ouviram vozes diversificadas tecendo comentários sobre o tratamento aos fanáticos de Canudos. Isto lhes tirou a vontade de irem para aquele lugar e mais adiante, largando a estrada, entraram no mato. Anelando o restante do dia com parte da noite, descansaram de madrugada; seguindo em frente ao nascer do sol. Lá pela tarde, avistaram uma fazenda situada num fundão. Apressando o passo, rumaram à casa-grande. Nesse instante, um grupo de jagunços rodeou os dois fazendo inúmeras perguntas, às quais se dispuseram a responder abertamente. Não demorou, e um senhor de meia idade bem vestido a quem os peões chamavam de Coronel, veio até eles.

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- O que desejam por estas bandas vocês dois? E de onde vêm? perguntou autoritário. Nhó Vicente respondeu: - Somos gente de paz, viemos da Paraíba e andamos querendo trabalhar, até mesmo se for o caso em troca de comida, seu menino. A resposta agradou ao Coronel, que sorriu descontraindo o clima do ambiente. - Se são retirantes como parecem, terão trabalho. Estamos precisando de mão de obra; contudo é trabalho árduo, pensem duas vezes antes de responderem. Do contrário, dêem meia volta e sumam daqui enquanto ainda podem. Mesmo sem saber do que se tratava, Manoel adiantou-se e respondeu por ambos que aceitariam. Dali já foram levados a um casarão onde ficaram arranchados. Cedo da noite uma criada veio trazer-lhes o jantar. Comeram, fazendo companhia um ao outro, pois os demais empregados da fazenda não estavam ali, certamente, por trabalharem a muito tempo no rancho, havia ganhado a confiança do patrão e ceavam na sua cozinha, onde o rango era com certeza bem mais farto. Satisfeito, recolheram-se as suas camas para matar o enfado da caminhada. Desde que Manoel impusera sua palavra, Nhó matutava silencioso, tentando adivinhar qual seria o trabalho que os aguardava. Era um sujeito simplacheirão, mas! Fosse o que fosse, desde que honesto; 'ele faria. Agarrado a este pensamento caiu no sono. Ás cinco da matina em ponto, o Coronel acompanhado de seu capataz e dois peões veio acordá-los. Feroz, estranhou o Coronel, cuincando a mostrar-lhe os dentes. O homem não pensou duas vezes, sacou sua garrucha e disparou no animal que tombou morto. Trovão, com o som do estampido, correu desaparecendo nos arbustos secos; Manoel

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pulou da cama e correu para fora, cá! O Coronel ria, enquanto recarregava sua arma, explicando aos colonos. - Nunca gostei mesmo de cães. Manoel saiu em tempo de também ouvir a frase pronunciada pelo outro; este ao vê-lo explicou. - Seu cachorro tentou me morder, tive que matá-lo para evitar a dentada. Um ódio imenso tomou conta do retirante, que pôde ler nos olhos do fazendeiro o quanto ele era perverso. Nhó Vicente, chegando fora de arma na mão, ao presenciar a cena sentiu comiseração pelo cunhado, chorando sobre o dorso do animal. - Ei rapaz! - Chamou atenção o Coronel - Aqui não é lugar para manteiga derretida. Se quer trabalhar ... ! Não pôde continuar falando, Manoel pulou sobre ele e agaturrados rolaram por terra, daí! O início drástico do bafafá. Imediato o capataz tentou puxar sua arma da cinta. Foi seu último ato, Nhó antecipou disparando sua espingarda mortalmente à queima-roupa, com isso, atingiu aquele jagunço posicionado a poucos metros do chefe trabalhador quando do gesto de sacar a arma, chumbado no braço, este só moveu o esquerdo para segurar o direito. O terceiro elemento com o som do tiro permaneceu parado, foi o tempo preciso de Nhó Vicente pular para junto dele já de faca na mão encostando-a na pança do mesmo, ordenando que ficasse quieto. A ordem serviu igualmente para o ferido, fazendo-o aquietar-se mais ainda. Depois da detonação os dois contendores largaram-se um do outro ficando de pé, atordoados sem perceberem o desfecho do tiro. Nhó aproveitou o relance e puxando o cunhado pejo braço abandonaram a fazenda, correndo. Refeito do susto, Manoel agradeceu ao companheiro, continuando a corrida mata adentro, enquanto na fazenda o velho Coronel organizava seus homens para caçar os fugitivos assassinos do seu feito.

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Corriam há mais de meia hora, sem fôlego, extenuados, resolveram parar, logo ouviram o som do trotar de cavalos vindos em busca de onde estavam. - E agora! O que é que amos fazer? - Perguntou preocupado, Manoel. - Não sei ainda. Mas eles não nos pegarão tão fácil quanto parece. Afinal temos arma e podemos usá-la. - A quem quer enganar? Só podemos atirar uma única vez; quando viermos recarregar de novo, há tempo quê teremos ido pra o beleléu. - Ainda não vai ser agora. Vamos voltar arrodeando e retornar pra fazenda no mesmo passo. - Pra fazenda, Nhó! - Exclamou José Manoel - Isso. Lá as nossas chances serão bem maiores, até a gente pode tocar de sorte de não ter ficado ninguém de guarda. Entendeu? - Entendi. Vamos ver se conseguimos retornar sem "peitar" com eles, esse é o problema. ... Uma hora depois chegavam na fazenda, evitando os perseguidores, e como predefiniu Nhó Vicente, não encontraram nenhuma defesa. Foram direto à casa-grande adentrando na mesma. Um frangote de recados ao perceber os dois retornando, saiu sorrateiramente pelos fundos à procura do Coronel. Todavia, uma rapariga viçosa que ali estava, encarou os dois com coragem e firmeza. - O que querem aqui? Já não basta a morte do capataz? Manoel respondeu: - Dona! Não nos basta matar ninguém. Era ele ou nós, e acredite! Não estamos nenhum pouco contente com o acontecido; e ainda tem mais! Se a gente pudesse estaria longe destas terras. Melhor, nem tinha passado por cá. Neste instante, o Coronel descobria os rastros dos fugitivos e seguia-os

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cautelosamente; apressou-se ao constatar que ambos retornavam no sentido do rancho. Assim, deu meia volta, regressando a soltar impropérios pelo caminho e maldizendo-se de sua imprudência; vitupérios que aumentaram ao cruzar com o frangote. Já na fazenda, Nhó Vicente terminava de corrigir toda a casa, encontrando excelente armamento. Ali continha três fuzis e um pequeno número de outras armas menores, além de muita munição. Após apoderar-se destas, entregou parte a Manoel passando a esperar pela chegada do Coronel com os seus cabras, o que não demorou a acontecer, visto que, gritos eclodiram no frontispício da casa principal a propagar-se da mesma forma por todo o rancho. Desmontaram no terreiro avançando em leque. Na casa, Nhó Vicente postou-se abaixado atrás do balcão da janela. Zé Manoel, antes da chegada dos inimigos, instruído pelo cunhado, ocultou-se atrás de um enorme tronco de baraúna tombado ao solo na entrada da propriedade pela ação do homem. Não existia vento, nem mesmo o menor barulho causado por outra causa que fosse a não ser dos homens, se fazia naquele momento, aparentemente, em honra da morte. A menos de cinco metros da porta frontal, o Coronel e todos os peões em campo aberto, mas! De armas posicionadas a fogo, detiveram-se; e este gritou a plenos pulmões. - Vocês estão cercados! Não têm por aonde ir. Entreguemse e eu os levarei pessoalmente para Santa Ana do Desterro, à presença da autoridade do Cabo Dias novo. Não houve resposta, agora reinava o silêncio absoluto, numa guerra de nervos incomum aos dois lados. Nhó sabia que a proposta do Coronel era fiada, e que ele não os deixaria sair vivos dali; já o Coronel exitava iniciar o tiroteio, temendo por sua filha donzela, em razão de não saber a posição dela no interior do casarão. Todavia! A cachopa fora

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deixada à parte pelos dois companheiros, e vencendo os degraus da escada por determinação de Nhó Vicente, foi trancar-se em seu aposento. Em dado momento, Nhó exsurgiu escorado rente à parede para olhar pra fora; só parte da cabeça passou da armação da janela, isto porém, foi o suficiente para eclodir o tiroteio. Recuou sistemático, enquanto Manoel, de sua posição abria fogo, disparando repetidamente, na corja de jagunços. Coibidos pelas costas, estes entraram em pânico largando suas posições. O primeiro a tombar recebeu uma bala na espinha dorsal sendo arremessado à frente numa grotesca cambalhota. Outro! Próximo desse virou-se instintivamente, contudo não chegou a disparar, caiu fulminado com um tiro nó coração. O Coronel praguejou ao notar seus homens caindo e ordenou a recuada de todos. Agora, Nhó Vicente com espaço para agir, mirou contra ele e acionou o gatilho maquinalmente. Este pulou de lado saindo da linha de tiro; mal tocou o solo teve que fazer nova peripécia para não ser baleado, desta feita saltou atirando-se dentro de um tanque de tijolos situado ali no pátio, o qual servia de bebedouro para os animais da propriedade. Dois outros jagunços, tomados de pavor, abandonaram seus postos; esquecendo da briga bateram em retirada. Nessa altura, embriagado pelo fulgor da luta, Nhó não deu importância à posição dos homens em fuga e disparou seguro. Aos três que restaram não sobraram alternativas, a não ser uma tentativa de fuga coletiva. Agindo com maestria, responderam aos disparos das duas direções; dois voltados para Zé Manoel não lhe davam tempo de ser preciso, atirando e recuando. O terceiro fazia o mesmo, porém alvejando aquele na janela. Graças a este ardil conseguiram alcançar uma depressão no terreno para depois atingirem um grotão rasgado

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na superfície do solo por chuvas passadas, só então pelo interior da frincha evadiram se do campo de batalha. Deitado no bebedouro o Coronel tentou sair deste, quando da interrupção dós pipocos. Entretanto, um novo disparo contra sua toca o fez desistir no intento, e segundos depois foi miseravelmente arrancado do abrigo pelos seus dois contendores. - Não me matem! Levem tudo. Mais me deixem viver! Exclamou pedindo o vencido. Alheios ao pedido, a dupla permaneceu em silêncio assim como estiveram durante toda a contenda, deixando com isso o outro assombrado e a tremer exageradamente, mais de medo que de ódio. Manoel, aproveitando a deixa, desferiu um potente soco no rosto do inimigo, fazendo-o voar de costas até estatelarse no chão. Contorcendo-se de dor, o Coronel bolou por terra vomitando uma enxurrada de palavrões aos algozes. Num descuido da dupla, este puxou uma pequena faca feita à encomenda e arremessou-a contra o tão odiado mancebo. Nhó percebeu o objeto de relance; dando um esbarrão no camarada salvou-o por um triz, enquanto a faca perdia-se no ar caindo alguns metros à frente sem tocar em nada. Colérico, Manoel pulou sobre o velho e o despedaçou a miúdo, só voltou à razão, quando uma bala passou roçando sua orelha fazendo com que largasse a vítima. Já Nhó! Correu rumo à casa de onde tinha partido o disparo, e junto da parede caminhou agachado de alma empunhada pronta para usar. Pela janela frontal aberta ouviu o resmungo de uma voz, maldizendo da arma; sem perda de tempo galgou-a saltando sobre o atirador. Ficou surpreso ao reconhecer a rapariga trajada como vaqueiro, por sorte o coice cio fuzil a desequilibrara provocando o fiasco no disparo e o engasgue da arma. Manoel vinha bufando de lâmina em riste, imaginando "quem seria o sicário na espreita" quando seu cunhado saiu com

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a prisioneira dominada. - Oxente! E foi esta danada quem ia me matando? - perguntou com um ar num. A moça adiantou-se ao perguntado. - Fui eu sim. Vocês mataram meu pai; era só isso que mereciam a morte - terminou cuspindo na face do mancebo. Uma chispa de sangue invadiu a vista do retirante que levantou o facão numa atitude decisiva. - Vou matá-la, mulher! Foi interrompido por Nhó Vicente que o chamou de volta à consciência antes de terminar o movimento. - Já chega! Ela é só uma mulher, não seria justo. Zé Manoel hesitou por uns segundos, mas acabou aceitando o raciocínio do cunhado, afinal ele tinha razão, a pequena era só uma mulher. - Tá certo! Mas vou castigá-la pra aprender a se comportar melhor, e vou fazer de modo que ela se lembre de mim para o resto da vida. Ao completar a frase tomou-a pelo braço e arrastando-a voltou para a casa, deixando Nhó Vicente estático, indeciso no pátio da fazenda. - Vai ver o que imaginei para você, sua quengota dos diabos disse maldosamente arrancando as roupas do corpo da cachopa. A donzela suportou o abuso em silêncio, enquanto durou. Minutos depois Manoel a largou e esta o encarou friamente. - Você ainda vai se arrepender deste dia seu covarde avisou para perder os sentidos. A frase soara como uma chicotada no rosto do moço retirante; confuso, saiu dali sem olhar para trás. Nhó o esperava com dois cavalos encilhados. Silenciosos, partiram num galope fechado, presos a seus pensamentos, deixando uma trilha de sangue e ódio, a primeira para se tornarem bandoleiros procurados. Os dias passaram-se e vieram as semanas, das semanas os meses, depois o ano; ao novo que trouxe consigo sinais de

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inverno, retornaram muitos retirantes logo com as primeiras chuvas para as suas terras. Zé Manoel e Nhó Vicente, porém não; tornaram-se nomes conhecidos, temidos e procurados pela milícia em mais de um Estado, por assassinato e extorsão. Num encontro com a força, os dois foram cobertos a balas, todavia, fugiam da morte embrenhando-se no mato iguais a bichos, como já acostumados a viver. Certos de terem despistado a coluna, diminuíram a marcha e Manoel puxou conversação. - Nhó! Estou pensando em voltar pra casa. Tenho andado meio fadigado dessa nossa vida de alinhavador do espinhaço do mundo. Pouco importa pra mim o que aconteça, mas eu quero rever nossas terras e visitar a covarde Joana, e se for possível, recomeçar outra vez. Em todo caso, se não der, vou embora para o Sul mas não fico mais deste jeito. - Não lhe tiro a razão de direito, também desejo voltar. Já há muito tempo, venho matutando neste assunto. Porém! sei que não é fácil, pois corno diz o ditado popular "desgraça chama desgraça" e as coisas para o nosso lado não são nada boas. Isto sem falar naquela mulher que vossemecê estuprou, ela ainda vai arrumar alguém pra mandar atrás de nós. Hoje me arrependo de não ter deixado você matá-Ia, pois sinto que futuramente, ela será a pedra do nosso caminho. - É! Tem toda razão; Agora tá sem jeito! De tudo que eu já fiz, foi à coisa mais errada. Mas homem! Quando me lembro das palavras dela, chego a tremer. Contudo! Se um dia cruzar com ela novamente, estarei preparado para responder pelo que foi feito. Nhó o olhou admirado após a última frase, notando a razão fluir no jovem pupilo, num sinal de maturidade que diferencia a capacidade do homem fiel às suas crenças ao vivedor do acaso.

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REENCONTRO COM O PARAÍBA Continuavam proseando em como retornar à terra natal, sem mais se lembrarem do descalabro causado à rapariga; pois ao veterano, o reconhecimento da culpa no fato, existia desde o momento que lhe faltara peito para barrar o impulso do cunhado. Cavalgavam cruzando um rio de águas temporárias, que com as poucas chuvas não chegara a juntá-las, ficando empoçadas nas partes mais profundas, para uma dessas dirigiram as montarias no intuito de lhes darem de beber; estavam empenhados nesta tarefa, desatentos, que não perceberam um grupo armado, avizinhando-se cauteloso. O chefe do bando a poucos metros dos dois parentes alardeou. - Ora! Ora! Este sertão tá mesmo cheio de pragas. Vejam só, estes dois perdidos; bons cavalos, boas armas e quem sabe até dinheiro. Nhó Vicente reconheceu o timbre daquela voz imediatamente, por isso virou-se lentamente. Zé Manoel ao contrário, voltara-se rapidamente com a mão no cabo de sua arma; desistiu do primeiro propósito ao perceber alguns canos direcionados para seu corpo. - Logo se vê que esta reunião fica em família, ou você não está reconhecendo a gente; Bastião Paraíba, se é que este ainda é o seu nome. O referido levou as mãos à cabeça num gesto patético e soltou uma sonora gargalhada. - Mas é claro! Agora me lembro direitinho, vocês são aqueles dois perdidos que eu encontrei outrora, atravessando o meu caminho, mas que tive que deixar passar. Como esse mundo é pequeno! Baixem as armas homens! Estes dois são

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dos bons; e em pensar que achei que fossem dois rastreadores de pista. E tu perdido! Indagou a Zé Manoel ainda é decidido como foi daquela vez? Manoel sorriu enaltecido com a indagação. - Agente só faz o que pode seu Paraíba. - Muito bem moleque! Muito bem, mas me digam as suas graças quais são? - Nhó Vicente, um seu criado - apresentou-se tirando o chapéu. - José Manoel ou Zé como queira, às suas ordens. Momentos depois, o bando junto aos dois retirantes confidenciava-se familiarizados. - Realmente as coisas estão indo de mal a pior para todos nós - Disse o Paraíba, abatido pelos anos naquela vida enfadonha - Se eu pudesse voltar atrás já tinha voltado; Mas há certas coisas que a gente não pode mudar nunca. Como vocês! Eu também venho pensando em uma ... ! Como diria? Já sei: Empreitada" voltando à nossa terra mãe. Lá ainda tenho uns acertos a fazer, só que estou achando poucos os homens que tenho pra isso, e depois aonde vou achar gente qualificada? Ao conhecerem a idéia do bandoleiro, os cunhados se alegraram; já estavam decididos a tal finalidade e agora com companhia, o feito seria mais fácil. Não lhes foi difícil convencerem o líder conterrâneo a fazerem esta jornada juntos. Jucundo! Nhó relembrou de Joana labutando pressa aos seus quefazeres, sorrindo para ele e o irmão, aí! uma lágrima escapou descendo de lado junto do nariz. Quando a par da vida do renegado, postos pelo jovem Manoel, todos ficaram tristes, afinal eram humanos e sentiam tanto quanto outro qualquer; sua sagas não eram menos dolorosas que as do companheiro. Ao cair da noite, o grupo desprendeu marcha, era sempre mais seguro viajar nestas horas. Com a madrugada entrando, resolveram parar, tinham coberto muitos quilômetros desde a

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borda do rio. Por ali a relva florescia enchendo os campos, cheia de vida; as árvores outrora carbonizadas agora tinha um novo aspecto, uma esperança de inverno enchia a campina, e o homem viajante fixava parada. - Este local tá bom pra acampar. Daqui a três ou quatro dias nós entraremos no Ceará, e depois já podemos nos sentir em casa meus Senhores - explicou brando Bastião Paraíba. O local escolhido ticava numa depressão, onde existia alguns troncos ressecados mudando sua aparência, e formando um abrigo natural de maneira a passar despercebido por quem cavalgasse na campina. Acaso; não muito longe dali, um grupo de milicianos acompanhado por voluntários caçavam para matar a praga que infestava aquelas terras: salteadores, quadrilheiros e outros. Comandados por um Cabo, era composto por mais de quinze homens. De volta ao acampamento, a caterva conversava animada, traçando planos para a nova vida, quando perto deles uma coruja pousou a chirriar penosa. Um dos bandoleiros a olhou intrigado. - Sai fora bicho azarado! pega caminho. Findou arremessando uma pedra na ave que içou vôo para longe. Um outro que saíra para dar umas batidas na região, retomava naquele instante galopando apressado. . - Tem um grupo de busca bem perto daqui, pra esses lado - Expressou apontando à direção sem desmontar do cavalo. e continuou. - É bom a gente sair logo, turma, ou podemos ter encrenca das boas. Nesse mesmo tempo, o batedor da força passava iguais informações aos seus camaradas, indicando a posição da turba. Não demorou nada para seguirem no rumo do bando. Quando chegaram estes estavam de saída, travando com o encontro, violento tiroteio.

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- Desmontem cambada! e protejam-se. Vamos mostrar pra esta macacada o valor dos nossos trabucos de ira. Berrou Bastião Paraíba; o mesmo fez o comandante da volante orientando seus comandados. Palavras desnecessárias, pois todos ali presentes brigavam com afinco, motivados por suas razões. Um jagunço próximo a Nhó foi alvejado no peito e quedou mortalmente ferido. Outro perto desse, foi espiar de lado no tronco onde estava acobertado e uma bala estourou-lhe os miolos. Zé Manoel disparando endiabrado atingiu um oponente no rosto; o elemento nem gritou, levou as mãos à face e tombou rolando pelo barranco. O batedor da milícia mais alguns companheiros arrodearam dando a volta e vieram pela retaguarda disparando; enquanto apertavam o cerco certos bandoleiros tiveram seus corpos atravessados pelos mosquitos quentes pendendo para a morte. Nhó com Manoel, precisos, refizeram a defesa nesse ponto, ficando a disparar em pé frente a frente com os sequiosos de seu sangue. O batedor foi o primeiro de eles a cair, após receber o projétil na barriga foi impulsionado para trás, e caindo esbarrou nos dois que vinham ao seu lado. Momentaneamente, outros três da tropa ficaram cara a cara, disparando com aqueles demônios infernais. O som das muitas detonações soaram funestas, iguais; cessadas, o trio jazia pelo chão. Já! os dois cunhados, vitoriosos, saltavam sobre aqueles dois atrapalhados pelo batedor, que se recompunham prontos para disparar. Lâminas impiedosas adiantaram-se cortando intestinos desgraçadamente, entrando e saindo por mais de uma vez, sem darem chance de ser efetuado um único tiro. - Bastião! a retaguarda está aberta. Venha! vamos sair e tentar fugir - gritou Nhó Vicente. Ao ouvir a nova, o Paraíba ordenou a seus seguidores. Recuar! ...

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Nessa tentativa de fuga matavam e morriam; desesperados, lutavam como podia transpassando suas condições, tal era a vontade de sobressaírem aquele ninho de mortos. No mesmo empenho ascendia os esforços da milícia para evitar qualquer fuga; com isto às baixas bandoleiras aumentavam velozmente. Os tiros na linha frontal foram diminuindo à medida que os jagunços pereciam, contudo não cessaram de vez, pois Bastião bem coberto junto a um caboclo achaparrado, continuava respondendo aos disparos da força embargando-lhes o passo. Zé Manoel e Nhó Vicente de onde estavam cobriam seus camaradas que tentavam chegar até eles; porém, não faziam baixas aos adversários bem melhores posicionados. Acaso! Dos muitos que chegaram ali, agora se encontravam bastante reduzidos, assim não podiam conter a saída dos que corriam em aberto à retaguarda marginal. Foram quatro os que chegaram até Nhó e Zé. O Paraíba de sua posição fez um sinal com as mãos mandando que partissem, pois iria ficar ali até o final; decidira morrer brigando. Alguém da milícia se expôs um pouco e foi o suficiente para o comparsa do líder jagunço que disparou certeiro. Entretanto, de outro ângulo, uma detonação igual à feita pelo marginal alcançou-o nas costas. Largando a arma, o caboclo andou movido pela fisgada do chumbo dando uns passos para frente com as mãos crispadas, erguida. Por cima dos ombros como quem buscando tirar aquilo que não estava enterrado por trás, pois o atravessara perfurando o corpo. Os homens da tropa, abrigados nas mais diversas posições, assistiam á cena sem efetuar um disparo sequer, deliravam antegozando a morte do peão salteador. Bastião Paraíba voltou-se buscando a direção do disparo que atingira seu camarada, mas não viu ninguém. Zé Manoel, Nhó Vicente e outros dos seus já haviam partido; sorriu amargo torcendo para que o jovem companheiro

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chegasse ao destino almejado, por uma estranha razão simpatizara com o mancebo. Juvenal Quaresma o penúltimo bandoleiro, parou exaurido, seus olhos arregalaram-se ganhando dimensões atemorizantes e ele emborcou para frente, caindo com a cara no solo. O som de várias gargalhadas eclodiu na campina, chegando ao chefe jagunço. Passado alguns segundos uma voz partiu de cima da formação vinda de trás de uma árvore. -- Gostou da brincadeira jagunço? É bom que tenha, pois é o que vai-lhe acontecer também. Fora o Cabo comandante da patrulha quem explicitara ao meliante. O homem da lei vinha no encalço.o de tal bando há meses, era conhecido por sua perseverança contra quadrilhas deste tipo e por seu nome assustador, famoso em todo nordeste brasileiro por força de pronúncia "Chico' Diabo" como também de grandes feitos. Bastião em silêncio olhou a sua volta e entristeceu ao ver seus antigos seguidores espalhados pelo chão, todos mortos. Um ódio gigante invadiu-lhe o interior, despertando sua ira. - Pois não precisa vir aqui Cabo Cão! eu mesmo irei até aí! Desgraçado - Gritou a plenos pulmões abandonando o abrigo e partindo ao encontro dos remanescentes milicianos. Estes, abismados com a atitude do fora-da-lei deixaram-no aproximarse demasiadamente, num erro grave, visto que a poucos passos de arma em punho, disparou no militar não tão bem abrigado. Inúmeros outros disparos se seguiram atravessando o corpo do jagunço por todos os lados após balear o cabeça da volante; quando tombou já tinha morrido. Intencionalmente o Cabo não fora ferido de morte, mas iria precisar de um médico urgente. A sobra da força então resolveu levá-lo à cidade esquecendo-se dos que escapuliram dali.

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"Como pensou o Paraíba: muito mais tempo para os seus fugirem e quem sabe atingirem sua terra de origem" Três semanas depois, seis homens mal vestidos, famintos, entravam pela Vila de Bomburral, alto sertão da Paraíba alcançando o mesmo objetivo; mais uns dois dias estariam em casa. A frente destes, um sujeito magro, de boa aparência, alto, apresentando meia idade, seguido pelos demais com alguns traços em comum; caminhava portando armas pela ruela central; Foi esse que logo percebeu o Capitão Cajazeiras vindo ao seu encontro. O Capitão era Delegado por toda aquela, região fronteiriça com o Estado do Ceará. Naquele momento, estava escorado numa pilastra do alpendre de sua casa; ao lado, quase pegada a essa ficava a Delegacia, onde algumas "praças" também contemplavam os recém-chegados. Aquele, à frente, foi direto ao homem que usava fardas e ostentava as insígnias de Capitão. - Bom dia seu Cabo-Major. - Bom dia - respondeu o Capitão, observando a todos. Antes de qualquer pergunta, o forasteiro continuou. - Por bondade! Informe de um local onde se possa comer e dormir, pois viajamos há dias e estamos muito enfadados. Sim: e lembrando, antes do Senhor perguntar; agente não vai ficar muito tempo por cá, só precisamos comer, descansar um pouco e assim seguir em frente. O Oficial os observou demoradamente "deduzindo" que tanto podiam estar falando a verdade como mentindo para ele. Na certa fugiam de algo, como não era do seu conhecimento algum fato delituoso cobrado contra meia dúzia de homens, resolveu ignorar temporariamente; todavia, avisou. - Está certo, Senhores. Podem ficar e descansar à vontade, contudo! Aviso-os, ao primeiro sinal de conflito, irão se ver comigo; tenho bons homens ao meu serviço. De uma coisa

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podem ticar certos: Com paz serão bem vindos sem ela à situação é outra. Apontando a pequena pensão, silenciou dando meia volta nos calcanhares e saindo para outro canto, enquanto os seis tomavam a direção indo ao local indicado. ... De noite à vila estava cheia de pessoas alegres e bem tratadas, conversando na rua, Manoel ficou sabendo ser em função de um baile, Início das comemorações do casamento de uma elas filhas do Capitão com um mancebo do local. Estas durariam por uma semana, com vaquejadas, corridas no prado, missário, apresentações de bandas cabaçais, queima de fogos, cantorias, entre outras alusões. Seus companheiros mais velhos, sem aquela euforia da mocidade, resolveram pernoitar. Assim o moço se viu obrigado a ir sozinho ao arrasta-pé, partindo para o baião ao ouvir os primeiros acordes no samba. Os homenageados iniciaram O bachinche, depois, os foliões caíram em quadra, entregando-se ao ritmo da música. Quem vira a chegada do jovem Manoel naquele lugar não poderia reconhecê-lo agora, cabelos cortados, barba raspada, na pinta, parecia um típico rapaz das vizinhanças. Não tardou a despertar o interesse de uma rapariga com a qual flertava desde a sua chegada ao sorongo, tirando-a a parte dançaram por mais de hora, quando pararam ficaram a prosear sob os olhares alheios. A cachopa também lhe despertara profundo sentimento, entretanto, no íntimo ao saber quem era ela, sentiu-se triste, pois achava impossível manter qualquer relacionamento com a filha do homem que representava o oposto do que ele era. Esta, ao percebê-lo tácito tentou saber a causa do repentino silêncio. - Manoel não sei a causa do teu repentino silêncio, mas seja qual for não te preocupes. Painho é um homem justo e não

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julga ninguém a primeira vista; ele acha que vocês vêm fugindo de alguma coisa, no entanto, nada têm contra em sua Delegacia que os possa atingir, e se o tivesse não condenaria a ti e nenhum daqueles teus companheiros sem antes dar a chance de defesa. Ele não gosta de cometer injustiças. Sendo assim! Não tem porque preocupar-te em me fazer companhia, não há nada de errado nisto, José Manoel. - Vossemecê me alegra falando assim Luzia - procurou novo rumo para aquela cavaqueira -mas amanhã terei ido embora e na certa não poderemos nos ver de novo, só que se tu quiseres um dia eu volto e abro meu coração pra você sobre minha vida - explicou. - É claro que quero José, ficarei lhe esperando e quando o fizer, painho também lhe ouvirá. Apertaram as mãos num sinal de despedida e os seus olhares se cruzaram penetrantes. Tinha feito uma promessa à Senhorita e a cumpriria custasse o que custasse. Daquele lugar retornou à pensão com poucas horas de folia, mas muitas para a emoção que ganhou ao conhecer a filha caçula do Capitão Cândido Cajazeiras. Ao nascer do sol, seis homens agora a cavalo, partiram deixando para trás o vilarejo de Bomburral; entre eles havia um que prometera voltar àquele recanto e que certamente o faria.

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O VALE DO RIO PIRANHAS Na tarde do segundo dia chegaram ao Vale do Rio Piranhas, terra natal de Nhó Vicente e Zé Manoel Em cada quilômetro vencido, uma alegria imensa invadia aqueles dois, estavam em casa depois de terem sobrevivido a tantas provas; era quase um sonho estar ali. De longe avistaram a casa-grande que se encontrava em ruínas, mas que logo seria soerguida "refletiu Manoel à primeira vista", Apearam os cavalos ao tronco de um juazeiro antigo e entraram na velha vivenda; pelo interior puderam observar com maior clareza o estado ele desprezo pela ausência dos donos da terra. Saindo pelos escombros na parte traseira, os dois cunhados foram direto à sepultura de Joana, fora ali que a viram pela derradeira vez no sono da morte, Rezavam de joelhos durante um bom tempo, à medida que seus camaradas, posicionados na ante-sala, sequiavam animados, despreocupados. Iriam começar vida nova, essa expectativa os fazia sentirem-se bem. Passos apressados, ordens, e quatro desconhecidos bem armados adentraram no ambiente. Os que proseavam sentados levantaram-se sem compreender a situação. Acaso suas armas melhores haviam ficado lá fora, nas montarias. O curto silêncio existido ao ficarem de frente, foi rompido pelo bradar dos implacáveis tiros destes novatos. O bandoleiro mais junto a estes chegou a sacar sua garrucha, porém chumbado no tórax caiu agonizante sem disparar a arma. Outro, escorado na parede recebeu a carga na pança, contudo, antes de escorregar para a morte, disparou sua pistola alvejando no coração o seu carrasco. Já aí os dois últimos pulavam de lado e conseguindo

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sacar as armas da bandoleira, responderam ao fogo adversário. Do trio, o do centro foi azaradamente cuspido para trás ao ser acertado pelo chumbo das duas garruchas defensoras. Zé Manoel e Nhó Vicente ao ouvirem a primeira detonação, correram de volta a casa de armas nas mãos; cá, os seus dois comparsas movimentavam-se iguais a gatos com os trabucos descarregados. O mesmo acontecia a dupla atacante que; largando as escopetas, buscaram as armas na: cintura; chegaram quando os dois desconhecidos disparavam suas pistolas cano duplos nos seus companheiros com exímia precisão. Automáticos, pela fenda da parede, atiraram nos estranhos a escolha. O baleado por Nhó Vicente teve o abdômen picado pelo chumbo e caiu largando a pistola com uma bala na agulha. O segundo foi empurrado para trás, I passando pela porta de entrada, estendendo-se na poeira da terra, já no terreiro; alvejado por José Manoel. Nhó Vicente correu para o comparsa caído junto à parede, constatando que este morria. Os demais, inertes, foram examinados por Manoel; verificando, constatou estarem mortos. Por quê? “Procuraram uma resposta e não encontraram aquela que” aplacasse suas interrogações, tinham certeza de que ninguém sabia quem I eram. Correram para fora com o relincho de um cavalo no pátio, lá o elemento ferido por Zé Manoel, com o ombro ensangüentado tentava montar o animal, sem forças, não tinha logrado êxito; os retirantes cercaram-no e este balbuciou. - Não me mate pelo amor de Deus, seu menino! Nhó o segurou pela camisa e perguntou qual o significado daquelas mortes; ele nada disse. Mais uma vez lhe foi repetida a indagação pelo interlocutor que não obteve resposta. Zé Manoel segurando firme urna peixeira arrebatou-o das mãos do camarada e encostando a lâmina fria, no ventre do aprisionado, insistiu na pergunta. I

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- Como é! Tá querendo brincar com fogo? Vai ou não vai dizer qual a causa destas mortes? Afobado, o mancebo deblaterou, fazendo uma estria na pele do segurado, ordenando. - Vamos lá sujeito! Responda o que lhe foi perguntado, cabra da peste. O elemento olhou nos olhos deste e fez uma careta deixando transparecer a dor do ferimento no ombro, como também a causada pela arma branca, mas nada disse. Sedento, o gume foi redirecionado saindo de lado da pança e ficando com a ponta encostada um pouco abaixo do umbigo; sentindo a manobra, o azarado matador baixou a cabeça olhando para o fio da faca, levantou-a de olhos arregalados com uma expressão mórbida. Pois que Zé Manoel num impulso enérgico cravou o instrumento nas carnes do indivíduo até o cabo, após, forçando-o para cima abriu um enorme talho nas entranhas do miserável que sequer pode gritar; uma golfada de sangue invadiu-lhe a boca e escorreu saindo pelo nariz. Nhó Vicente reprovou o ato indevido. - Assim é que não vamos descobrir nada mesmo. Vosmecê matou o homem que poderia nos dizer alguma coisa, de modo que ficou mais difícil esse causo. Largando o fardo Zé Manoel respondeu ao cunhado, sentando se sob uma formação setial. - Eu sei disso homem, mas é que este cabra não ia falar de jeito nenhum. Depois, a gente pode ir lá na cidade e tentar ver se consegue descobrir algumas explicações com alguém de lá. Sabe como é! O povo da rua sempre é bem informado, sabe tudo. Nhó assentiu gesticulando e sem enterrarem os corpos dos que ali tombaram, cavalgaram para Umburanas Velhas onde, decorridos algumas horas adentraram na cidade, convencidos

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de que naquele lugar obteriam a resposta procurada. As portas das residências estavam em grande número totalmente fechadas, estranharam o fato, já que Umburanas não procedia assim anterior à sua partida. Num barzinho de esquina novo, eles perceberam um grande burburinho e para lá caminharam. A entrada de ambos passou desatenta, graças à estiagem o vale estava infestado dos mais diversos e maldosos tipos. Não avistaram um só conhecido, o que mais aumentou suas intrigas. Beberam algumas doses de aguardente passando a prestar atenção na conversa dos presentes. Sem tardar, repararam que dois sujeitos embriagados faziam freqüente menção a um nome desconhecido, enfatizando seus feitos, e que este nome impunha respeito, já que os outros fregueses evitavam tecer comentários. Aproveitando o momento, Nhó sinalizou a Manoel. Afastando uma cadeira sentou se a esperar a atuação do pupilo; este indo ao encontro dos falastrões convidou-os para uma rodada. Aceito, pediu uma garrafa e fingindo beber não deixou esvaziar os copos dos beberrões. Assim, antes de terminarem com a bebida, tinha conseguido, sem levantar suspeitas, valiosas informações sobre o pretenso autor da mortandade em suas terras. Jovelino Querubino do Nascimento Pereira, dito Coronel Jovelino, o homem poderoso daquele rincão, era um tirano e há muito tempo vinha se apossando das propried8des largadas pelos retirantes durante a estiagem. Agora, quando estes voltavam, eram mortos por pistoleiros mando, ou vendiam seus bens por uma ninharia, indo embora do vale. Desta forma, tomara-se o maior extensionista do Estado. Sem oposição e nada os pequenos agricultores podendo fazer, os desmandos da manda-chuva progrediam avultados; o próprio Delegado da cidade estava subornado ao poder absoluto deste Senhor.

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Este foi o nome ouvido pela dupla de cunhados e estas as informações colhidas com maestria por Zé Manoel dos dois chupa-rolha, altamente alcoolizados; tendo em seguida passadas ao veterano companheiro. Estava claro o ataque sofrido horas atrás. Porém, mesmo sabendo da ineficácia do Agente da Lei, resolveram visitá-lo. Caminhando, dirigiram-se à Delegacia onde um homem de pouca idade escrevia de cabeça abaixada, compenetrado no que fazia. Entraram, e este não percebeu estar com visitas, Nhó Vicente pigarreou, despertando a atenção da autoridade policial; preguiçosamente, este ergueu a cabeça mirando os recémchegados, estudando-os. - Quem são? O que querem os Senhores? - perguntou ríspido. - Se o Doutor for o Delegado - falou Nhó Vicente. Ficando de pé, o representante da ordem lançou um olhar insinuante ao seu interlocutor. - E se o for? Nhó Vicente continuou, enquanto Zé Manoel escorava-se ao pé da parede cruzando os braços. - Nós vamos querer prestar uma queixa. Então se falem contra quem! E qual o motivo? Não estamos com muita certeza, mas assim que pisamos em nossas terras, fomos recebidos a bala por desconhecidos, e por pouco não morremos... O Delegado interrompeu. -Esperam um pouco. Vocês foram tocaiados?! Mas pelo que vejo, sobressaíram ao fogo, estão bem; o que de certo não deve ter acontecido aos seus agressores. Não é isto? - Né sim. - Também não sabem quem é o mandante deste atentado, ou Sabem? - Não absolutamente com clareza.

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- Pois sem esta clareza, amigos, não se trabalha aqui. Quanto ao atentado, nada posso fazer; isto vem acontecendo com freqüência por toda esta região. Agora! Se vocês não tiverem mais nada a declarar tenham um bom dia e vão cuidar das suas vidas que eu tenho mais com o que me ocupar finalizou, voltando a sentar-se e a escrever. Zé Manoel, com o sangue fervendo nas veias, adiantou-se. Chegando à frente da mesa, declinou o corpo apoiando-se de braços abertos com as mãos estendidas na escrivania do Delegado, este ergueu o rosto lançando um olhar raivoso. - O que estão ainda fazendo aqui? - perguntou. - Ora essa é boa! Agente vem procurar pela lei, e é assim que ela nos trata? Mas tudo bem, Doutor! Fique avisado de que ninguém vai nos tirar de nossas terras; e lhe digo mais! Mesmo não tendo absoluta certeza do mandante daqueles pistoleiros, nós desconfiamos de quem seja o pretenso mandante deles. - Muito bem rapaz! Vocês já disseram isto antes. Agora o que quer que eu faça? Acha que sou mágico? A lei já está avisada dos fatos que lhes aconteceram, e não tirará a razão de vocês; no entanto! Não esperem solução a respeito deste problema, até porque não tenho ajudantes para esta finalidade, e os dois a meu serviço nem sempre estão por aqui comigo, como agora. - É! Tá dando pra gente notar. Mas mesmo assim! O Delegado não quer ouvir o nome do suspeito, só pra poder ficar sabendo? A esta indagação o Delegado olhou para Zé Manoel fazendo uma: cara de poucos amigos. - Moço! Só vou repetir esta vez. Caia fora! Saia desta Delegacia com as suas desconfianças - ordenou secamente. - Já vamos sair sim; até porque não esperava do Senhor alguma ação contra o Coronel Jovelino - esclareceu desbriadamente Zé Manoel com debique à autoridade local.

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Diante do menosprezo atrevido daquele indivíduo, o delegante da lei quase saltou da cadeira. - Rapaz! Você não foi sensato nem um pouco. Primeiramente por mim ofender; segundo por acusar a pessoa do amigo Coronel Jovelino sem ter nenhuma prova. Entretanto! Por se achar de cabeça quente, vou fingir que não ouvi nada, e isto! Só porque estou levando em conta o atentado que sofreram. Imaginem! lá o Coronel seria homem para isso? Agora sumam daqui imediatamente ou lhes meto atrás das grades de uma boa cela. Manoel não pôde conter sua ira e explodiu diante do cinismo deste. - O Coronel não é homem pra isso! Pois pra mim parece que ele é pra muito mais do que isto. Por que então até agora, só ele foi quem teve peito pra apoderar-se das terras dos outros? Esse maldito que vosmecê quer encobrir no fim não passa de um ladrão de terras! Aproveitando o desabafo do queixoso, o Delegado umburanense teve oportunidade de abrir urna gaveta do móvel e disfarçadamente sacou uma pistola, apontando-a no rosto do atrevido fazendeiro. - Já o tinha avisado! Você deu um passo maior do que a perna poderia alcançar. Seja lá quem diabo for! Está preso, e quanto a você aí! Vá saindo ligeiramente antes que o tranque também - referiu-se, ordenando a Nhó Vicente. - Sim, Senhor! Sim, Senhor! Já tou saindo, seu Delegado Respondeu o tabaréu volteando nos calcanhares, dando as costas para este, demonstrando ir retirar se em perfeita paz. "Vê-se logo de antemão que é mais ajuizado que este seu colega". Pensou o Delegado de Umburanas Velha, redondamente equivocado com a aparente pacifícidade do homem mais idoso da dupla.

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Só foi preciso o Delegado desviar a vista um pouco e o velho retirante virou-se repentinamente de arma empunhada, disparando com insigne firmeza. Acertado de improviso, o administrador da lei viu avermelhar sua camisa, ensopando-se de sangue na altura do estômago. Pasmado! Abriu a boca na intenção de pronunciar algo, porém desvanecido, apenas guturalizou palavras sem nexo, caindo pesadamente. Sem perda de tempo, os cunhados passaram para a rua transversal, saltando por uma janela que a ela dava acesso, afastando-se como se nada tivessem feito. Não havia viva alma na rua naquele instante, até as poucas casas que viram abertas momentos antes, agora estavam de portas e janelas batidas, num ato de prova que à região vivia sobre o jugo de medo. Isto acaso lhes favoreceu saírem sossegados da cidadela, retornando à fazenda numa galopada alucinante. - Desta agora nós estamos bem - disse Manoel. Mal chegamos e já tivemos que matar de novo; esse tal Coronel aí, não vai gostar nem um pouco quando souber que o seu capacho virou com a cara na terra. Seguindo um corpo à frente do outro pela estrada repleta de seixos, Nhó Vicente diminuiu a velocidade, esperando o amigo emparelhar-se a ele para indagá-lo. - E isto não é o que nós queremos Manoel? - Só· é uai! Mais eu quero saber de você o que vamos fazer pra gente pegar ele, antes dele vir atrás de nós dois? - Tenha só um pouco de calma que já tou bolando um plano pra gente agarrar ele. Ansioso em ouvir o que Nhó Vicente imaginava, José Manoel passou a aguardar os planos do camarada, entusiasmado. Não demorou muito para matar suas expectativas.

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- Vai funcionar assim - Começou Nhó. Daremos um jeito de avisar pra esse Coronel que o sujeito matador do Delegado é um homem peitado que está escondendo-se numa fazenda nos arredores locais. Logo, com certeza, ele vai vir atrás de nós com um bando de jagunços pra acertar as contas: só que ao invés de um homem ele vai achar dois. -- Ochente! Não tô lhe entendendo direito. Nós vamos esperar por eles? E se vierem em grande número? Preocupou-se Zé Manoel, balançando a cabeça num gesto de desaprovação. Nhó Vicente sorriu olhando a fisionomia de desagrado deste. Cê acha que tô ficando bilé seu menino? Deixe só eu explicar direitinho que tu vai entender. - Pois então se ande logo homem! Que eu já tô até com as idéias friviando. - Veja como é simples: à fazenda onde o suposto matador vai estar, será a nossa; o que já é uma grande vantagem para nós. Depois tem o fato de que eles estarão achando de encontrar um homem só. Está entendendo aonde eu quero chegar, Manoel? - Mais ou menos, porque ainda acho que se eles resolverem vir atrás deste suposto matador com muita gente, isto pra nós pode ser perigoso. - Aí é que tu se engana! Não haverá muito risco. - E por que não? - Porque ao invés de você e eu estarmos juntos esperando por eles! Nós vamos é ficar separados, escondidos de tocaia; um perto da casa e o outro afastado, de modo que quando aqui chegarem, fiquem entre dois fogos. - Há! Ha! Ha! Agora compreendi direitinho Nhó. Cê é mesmo de lascar; vai ser igualzinho àquela vez lá na fazenda daquele Coronel - gargalhou satisfeito com o plano do cunhado, compreendendo aonde o outro queria chegar.

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Lembrando-se de um pequeno detalhe esquecido por Nhó Vicente, Manoel enrijeceu a face abruptamente questionando em pensamento "o que fariam se essa peça não se enquadrasse nos planos do seu mentor" Nhó, perceptivo, tratou de imediato saber o que preocupava o mancebo. - Vamos lá, Manoel, o que é desta vez? - Não é nada de mais, só bobagem minha. - Vamos, fale rapaz! Deixe de arrodeios que estou vendo em sua cara algo lhe perturbando. - Tá bom! já lhe digo mesmo. O problema é que tou achando que agente pode dar com os burros nágua, Nhó Vicente. - Como assim? agora sou eu quem não está lhe entendendo. - Já imaginou que esse Coronel pode não aparecer por cá? - Sim! imaginei. Contudo acho difícil disso acontecer; mas! Se ele não der as caras, outros virão, e aí é menos gente pra nós se preocupar adiante. - Sendo assim, sim.

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PERDA DE UM AMIGO Não tardou para os dois homens fazerem correr os boatos desejados pelos distritos vizinhos e também dentro da área urbana. Dois dias depois, chegando já à tarde do terceiro em espera, Nhó e Zé discutiam duvidosos o funcionamento do plano, quando o som do tropel de cavalos, viajando pelo vento chegou aos seus ouvidos. - São eles! Vamos para a nossa posição depressa camarada alertou Nhó, movimentando-se ligeiro; o mesmo fez Manoel. Com pouco tempo de assumirem suas posições, viram cinco homem liderados por um sexto de traje pomposo, invadirem o pátio da antiga vivenda, desmontando a umas trinta braças dos escombros. Nhó os observou acompanhando seus movimentos, relembrando a cena que um dia os jogara naquele inferno de vida. Um dos cinco, ao lado do distinto, manuseou a alavanca do seu fuzil municiando a câmara da arma, sendo imitado pelos demais. Prontos, avançaram em linhas na dianteira do líder. Zé Manoel de frente a estes, amparado por um monte de entulhos no centro da sala, local onde preferiu ocultar-se, passou a língua nos lábios saboreando mentalmente o princípio da matança. Nhó Vicente posicionou seu fuzil, arma esta adquirida no início de sua vida pregressa, e disparou primeiro, antes do som de sua detonação cessar, conforme combinado, Zé Manoel atirou também, repetindo-se o esquema ida e volta. Alvejados sem proteção, frente e verso, foram caindo gradualmente, um a um. O primeiro disparo acertou o chefe do

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bando por trás, vindo o projétil sair em cima do peito direito; só aí os cunhados ficaram sabendo tratar-se do Coronel Jovelino, porque um dos peões gritou, alarmando em seguida a detonação. - É uma armadilha, Coronel! Vamos sair daqui. Foi o segundo a cair alvejado por Zé Manoel; os Quatro restantes tiveram a oportunidade de efetuar algum disparo, mas! Sem visão dos atiradores na tocaia, findaram beijando o terreno. Com a vista embargada, turva, o Coronel Jovelino reuniu suas últimas forças conseguindo ficar de joelhos com uma mão apoiada na terra e outra segurando a coronha do fuzil, buscando erguê-lo. Deixando suas posições, Zé Manoel e Nhó Vicente vieram de encontro ao baleado, segurando suas armas em posição de fogo. Esmorecido, Jovelino deixou a arma escapar-lhe da mão; Zé Manoel frente a este, ergueu a sua decidido a terminar com os sofrimentos do êmulo. Nhó, compreendendo a intenção do camarada, balançou a cabeça não concordando com a decisão do rapaz. Este obediente ao cunhado baixou a guarda. Chegando junto do ferido, Nhó Vicente afastou a arma, chutando a para diante, impressionado com a capacidade de resistência do falado Coronel; brigando para continuar vivo. Erguendo a cabeça, o Coronel Jovelino olhou para os desconhecidos, indagando. - Quem... são... vo...cês? - Os donos destas terras - Respondeu-lhe Nhó. - Enten..... do - falou esvaído, emanando um suspiro cortado, emborcando para frente o fadado Jovelino Querubino do Nascimento Pereira. Nhó Vicente, parado, pensativo, ergueu a vista para o céu. Não gostava daquela vida; ardorosamente, faria tudo para não ter que matar outra vez. Preso aos seus pensamentos, não viu

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um dos jagunços semimorto, mover-se lentamente e disparar sua arma num último ato de vida. O disparo ressoou estrondo rosa aos ouvidos de Zé Manoel, que linha deixado o palco da briga indo buscar os cavalos. Voltou apressado, correndo na direção do cunhado ao vê-lo dar alguns passos trôpegos, penetrando nas ruínas da casa; rapidamente atravessou toda a extensão da ex-morada saindo pela cozinha, e, pôde ver seu camarada ajoelhado de costa no túmulo da esposa. Por um instante sorriu feliz, entretanto, logo contraiu a face ao ver que ele tombava sobre a sepultura. Correu a tempo de desemborcá-lo, vendo ô respirar dificultoso. - Nhó! Nhó! Cê não pode morrer homem. Balbuciou chorando sobre o amigo que apresentava no tórax uma imensa mancha de sangue embebendo as vestes. - Manoel! ... Mano .. el... me ... enterre neste.. lugar aqui expressou exalando nas agonias da morte. ... Sem dificuldades, Manoel retirou devagar a terra da cova, até chegar aos restos mortais, de Joana; ali parou para depositar o corpo do camarada junto da companheira que tanto amou. Caía à noite quando findou a tarefa. Suado, grudento. Caminhou carregando a estranha sensação de ser o único homem sobre a terra. Seus olhos avermelhados demonstravam sinal de muito choro, na mente uma enorme batalha emocional tinha lugar, onde buscava decidir o que fazer doravante. Alisando o pescoço do cavalo de seu velho mestre, retirou a arreação do animal e tangeu-o, libertando-o do seu encargo; em seguida, passou a perna no dorso de sua montaria, afastandose daquele lugar. O sol brilhou forte na manhã, alcançando José Manoel cavalgando impassível no lombo do seu bagual a muitas léguas

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de casa. Sua vida errante o tornara forte, contudo não conseguia negar-se da dor que estava sentindo. Nhó Vicente tinha sido para ele: pai, amigo, professor e espelho, viver sem ele após tantas situações seria uma prova maior que a do flagelo da seca. "Eita velho amigo! antes tivesse sido eu do que você, porque de nada adiantou essa briga se lhe tenho morto. Essas terras nunca mais me verão de novo, pois tudo que eu prezava ela levou de mim. Até outro dia, meu camarada". Pensou olhando para trás atravessando os limites da sua região com a vizinha. Duas semanas se foram desde o dia da morte de Nhó Vicente. Zé acostumou-se nesse pouco tempo com a idéia de nômade; por onde passou deixou o seu rastro de sangue, por pouco brigava até a morte, e neste curto período já despachara dois elementos que se puseram no seu caminho. Evidente que matou numa briga justa, onde as peixeiras falaram a língua da morte. Noutra ocasião, teve que fugir às pressas de uma pequena vila por ter esfaqueado o filho de um fazendeiro local, por pouco não tombou nesse lugar ao ser alvejado por mais de uma vez por uns vaqueiros, entrando na dita, quando ele saía. Só graças ao alazão, deixou todos para trás, escapando dos perseguidores. A imagem sorridente de uma donzela crescente dentro de si, lhe trouxe à razão fazendo aquietar o seu ímpeto sanguinário. Só não retornaria ao Bomburral do Capitão Cândido por causa da vida ociosa adotada desde o desaparecimento do cunhado; assim, resolveu dar tempo em busca de forças para peitar com firmeza o velho miliciano. Uma tarde, contemplando o horizonte bateu-lhe a vontade de ir a Canudos. Todavia, nunca mais desde tomar conhecimento desse lugar, ouvira alguém falar da cidade Santa; o desejo de ir àquele canto lho empurrou de volta à Bahia.

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Passando pelos sertões outrora cavalgados por ele e Nhó Vicente, sentiu voltarem lembranças fortes de certos fatos vivenciados, quando percorriam aquelas terras. Por vontade inconsciente ou ao mero acaso, numa manhã, cruzou o local onde Bastião Paraíba e muitos outros perderam a vida. O tempo, encarregado de mudar aquela região, não apagara totalmente os traços do conflito, pois marcas de balas e cruzes fincadas no chão se espalhavam pela área. Penetrando mais e mais por aqueles rincões, esbarrou numa pequena cidade, certo dia, reconhecendo na como a mesma próxima à fazenda do Coronel, que junto ao cunhado matou, ingressando naquela vida bandida. As lembranças da mulher violentada por ele vieram conturbá-lo fazendo-o arrepender-se de ato tão vil Quando esteve por cá em outros tempos, apresentava-se totalmente diferente no aspecto físico comparado a agora; mais gordo cabelos e barba tratados, vestimentas melhores e até um semblante de Senhor. Temporariamente desistiu de ir a Canudos e rumou para a fazenda da inimiga, estonteado, sem saber a razão, porém sentindo que deveria ir àquele lugar. Aquelas terras estavam modificadas por completo, as novas construções davam prova do elevado progresso da fazenda; as plantações de cacau estendiam-se, espalhando até se perderem de vista, despontando com abundância por toda zona de cultivo. Guiando o alazão, parou de fronte a fachada da casa-grande, aonde um mulato veio recebê-lo. - Boas tarde, Senhor menino! O que deseja por estas bandas? Interpelou o caseiro ao recém-chegado, que antes de responder desmontou do cavalo e o apeou enquanto respostava. - Boas tarde. Não estou ainda bem certo se vim ao local exato, mas gostaria de ver seu patrão, se for possível?

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Não foi necessário o empregado informar da visita a sua Senhoria, esta saiu à porta naquele momento trajando roupas de homem, e lançando um olhar firme, estudou o forasteiro sentindo um estranho frio percorrer-lhe o corpo ao olhar o rosto do desconhecido; sem explicação para aquilo, ela sorriu disfarçando. - O Senhor não gostaria de entrar? Miguel, não se preocupe, eu receberei este Senhor, pode voltar aos seus afazeres. - Sim Senhora patroinha! Já vou indo - respondeu o colono. Brigando para sustentar Seu nervosismo, Zé Manoel galgou os batentes do patamar conjugado à sacada da residência, obras estas inéditas às lembranças anteriores de outrora, ainda aéreo sem saber por que veio ali. Adentraram à sala de visitas e nela viu, impressionando, o que o arrastou inconsciente àquele lugar; uma criança, andando inocente bolinando em tudo. - Ou, meu filho! Venha cá. Mamãe não esqueceu de você. Ela foi apenas atender este ... Entendendo que ela ia perguntar seu nome, despistou-a antecipando se ao complemento da fala. - Que menino bonito este, danadinho Senhora! Como é o nome dele? Deve de ser bem o do pai não? Insinuou, buscando ocultar se. - Não! Cortou secamente a fazendeira. - Nesta localidade não é segredo a ninguém minha história, por isto! para que o senhor não volte a tocar no assunto: posso lhe dizer que o pai desta criança é um aventureiro que há muito passou por cá, provocando mortes e dores aos meus. Embora deva concordar em parte de que o meu falecido pai tenha contribuído para o ocorrido aqui naquele dia. Quanto ao mais, não permito falar neste assunto dentro desta fazenda, ao atingir

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este ponto, ela fez uma pausa para continuar - me desculpe! Eu não quis ser grosseira. É que certos boatos correm por aí. e como sendo pode tê-los ouvido antes de chegar aqui. - É... Bem... Atarantado pela franqueza da mulher, Zé Manoel perdeu o tino, resolvendo inventar qualquer coisa, afinal ela não merecia mais sofrer. Com os olhos voltados para o filho, sentiu-se útil, e o vazio antes existente cedeu lugar àquela criança inocente, alheia às circunstâncias que a puseram no mundo. - Me desculpe, não está mais aqui quem falou. Olhe moça! Tem certas coisas que agente não pode evitar, elas estão marcadas para acontecer se não é com um é com outro, mas tem que acontecer. Estas coisas, quando a pessoa vem dar por elas, já estão feitas e não se pode desmanchá-las. Agora, com sua licença! Tenho que ir. Adeus! - Espere! Não lhe entendi. Qual o significado destas palavras confusas? O que ... - Olhe bem para mim – interrompeu a pela segunda vez – por que mesmo eu tentando me enganar nada iria conseguir ao meu favor. Completou correndo à saída, agilmente montou no cavalo, partindo a todo galope. Embora sem entender aquela conversa, fitou o bem, assim, quando este saiu uma ponta de tristeza e ódio lhe brotaram no coração. Não podia ser! Mas o forasteiro era o mesmo homem que a violentara. Suas palavras contudo foram sinceras, não tendo como enfrentar a realidade da própria culpa, fugiu ao olhá-la de frente; pois até o mais chulo dos elementos também tem seu lado bom, e aquele demonstrou o seu. Chegando à porta, o viu cobrir-se na estrada adiante, em seguida, olhando para o filho chorou em silêncio.

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Antes achara que aquele indivíduo fosse um comprador de cacau, e, sem compreender aquela estranha aparição momentânea, pensou. "Talvez um dia eu chegue até a perdoá-lo, contudo! perdoar é quase impossível visto o que você fez; porém, o tempo saberá dizer quais as providências que deva tomar em relação a sua pessoa". Açoitando o cavalo em galope, Zé Manoel deixava a sua dor transparecer. A imagem do filho era por demais dolorosa, e mais triste ainda era saber que não tinha direito sobre ele. Chorando, deixou que as lágrimas caíssem amaldiçoando a estiagem que o expulsara de casa tirando lhe a irmã, o cunhado, sua paz, tornando-o, o bandido que era. “Tinha vontade de sumir, de morrer; agora mais que antes convenceu se do quanto teria sido melhor perecer no lugar de Nhó Vicente”. Embrenhando no serrado, esqueceu a idéia de ir a Canudos, esqueceu de si próprio, apenas cavalgou sem rumo certo, Treze dias de jornada sem percurso, venceu cidades, rios, serras; parando numa propriedade de um Senhor de engenho, cá, prestou serviços, permanecendo por meio ano, ate o dia em que sentiu vontade de rever seu Estado natal. Pedindo as contas, pegou carona junto a uns tropeiros vindo na mesma direção, sua, aliado à tropa, integrado aos mascates, partiram de madrugadinha da fazenda, carregados de mel, rapaduras, batidas, farinha e outros do gênero, produtos estes a ser negociado no Bomburral elo Capitão Cândido Cajazeiras. Decorridos vinte dias de viagem. Sentia-se familiarizado com os membros da tangida, principalmente com o chefe tropeiro, Pedro Caboclo, figura que sabiamente apesar de possuir modos crassos, ajudou-o, aconselhando e ensinando a lidar com os seus problemas. - José, daqui pra mais cinco dias nós vamos estar no Bomburral. Explicara. O camarada Pedro Caboclo na cabeça da

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tangida, puxando a tropa, iniciando prosa com acompanhante de jornada. Encerrando a fila de burros e jegues, cavalgavam na cauda do rebanho cargueiro, dois Jovens taludos, sobrinhos do velho comerciante; estes pouco falavam, e quando, entre ambos. - Cinco dias e estamos chegando perto. - Estamos sim. Mais perto do que pra longe, mas antes vamos perder uma tarde num povoadozinho logo adiante; devemos chegar lá, deixe-me ver - inclinando a aba do chapéu com a mão, o tarimbado tropeiro olhou para o céu estudando a posição do sol - pertinho ou depois, pouca coisa do meio dia – afirmou. - Pra mim tá bom, uma tarde a mais outra a menos não vai fazer diferença, seu Caboclo. Seguiram por ali proseando numa cavaqueira sem fim e conforme previsão de Pedro, ao pingo do meio dia chegaram ao lugarejo, onde amarram os animais embaixo de um frondoso cajueiro situado na parte lateral de uma pensão desses viajantes das estradas; como de costume, para adentrarem logo depois. - Salve seu Pedro Caboclo! Sempre, sempre, vosmecê chega na hora esperada. Tomara que tenha trazido boas mercadorias porque estou com o estoque no fim. Saudou o dono do estabelecimento, um velho conhecido deste tropeiro, viandante dos caminhos. - Salve seu Boa Ventura. Mercadorias ótimas, de primeira qualidade venho trazendo, os caçuás estão abarrotados pra vosmecê escolher a gosto. Só que antes, agente gostaria de almoçar e tirar o pó da goela. - Mais é muito justo sim; vá se ajeitando na mesa e lhe trago uma boa pinga, enquanto mando das Dores servir a bóia. - Agora vosmecê falou rosado, homem! Vamos sentando José, que aqui nós estamos em casa - convidou Pedro caboclo ao seu acompanhante.

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- Agora mesmo, homem de Deus - respondeu o convidado.

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DUELO COM LÂMINAS Almoçaram sem pressa, apreciando a aguardente. Quando acabaram, Caboclo junto aos sobrinhos foi atender Boa Ventura, suprindo ô com seus produtos. Já! Zé Manoel continuou sentado à mesa, picotando pacientemente uma manoca do chefe tropeiro retirada da borjaca do homem; tendo esse deixado-a sobre a mesa. Nisto, adentrou no recinto um elemento suntuoso de avantajado porte físico, trajando roupas elegantes, descaracterizando-a, por portar pendente na cintura uma faca de arrasto. Com desdém dirigiu-se à mesa ocupada por José Manoel. - Moço! Diga-me onde está o Boa Ventura? Erguendo a cabeça, Manoel contemplou-o sem se impressionar. - Acho que tá lá fora, recebendo umas mercadorias de Pedro Caboclo; deve vir logo. - Deve vir logo uma ova! Vá chamá-lo imediatamente: diga que é Cipriano quem o chama. Três hospedes da pensão que haviam sido servidos bem depois dos tropeiros, ficaram atentos à conversa na mesa adiante. - Você está pedindo ou mandando chamar o dono daqui replicou Manoel. - Não faz diferença, pedir ou mandar, quando falo as pessoas obedecem. Fui claro? . Guardando o fumo, Zé Manoel levantou-se da mesa sentindo a aproximação de encrencas. - Pode ser que até o dia de hoje tenha sido assim com quem você falou, só que comigo a coisa é outra - avisou se pondo em guarda. Soltando uma soberba gargalhada o grandalhão explodiu.

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- Agora nanico, vou ter que lhe mostrar com quantos paus se faz uma cangalha pra o teu uso, e ainda por cima adorná-lo com jaez, símbolo dos burros. - É mesmo! Quero só ver, sujeito ordinário. Pule pra cima que já está perdendo tempo. Sacaram suas lâminas, estudando de arma em punho o melhor momento de atacar. Manoel, astuto, procurou ofendê-lo com palavras visando desequilibrá-lo emocionalmente. - Chegue pra perto vara de bater pecado, o pedaço que você passa de mim é podre. A frase soou como uma picada venenosa; cego de ódio, Q grandalhão cutucou jogando a faca. Vigilante, Manoel esquivou o corpo fazendo o bote sair perdido. Novo lance e nova pirueta. Na terceira tentativa as lâminas se encontraram tinindo uma contra a outra. Amedrontados com a briga, os hóspedes correram deixando a sós os dois contendores, saindo sem sequer alertarem aos tropeiros ou ao Boa Ventura. Por cá, os dois valentões seguiram digladiando também com verbos e adjetivos outros. - Para um pouco que já te rasgo carrapato de cachichola! - Vai latindo enquanto pode tamborete de botar carga em jumento. Metendo a faca com fúria, Cipriano usou toda a força do braço; ao choque do aço, Manoel desandou perdendo sua arma branca. Acaso, ficou apoiado na mesa que antes estivera atento ao rival parado a uns três metros, fitando-o com ar vitorioso. - Mais ôxel já perdeu a língua? Se preocupe não azedo, já te faço falar bem direitinho. Enquanto o outro antegozava, Manoel passou a mão por sobre a mesa procurando atrás de si a borjaca do fumo; achando-a, não lhe foi difícil retirar dela sem deixar perceber, a mão cheia de tabaco picado.

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- Parece que você só sabe ladrir, e como cão que ladre não morde, tu só és capaz de furar uma velha cega e ainda por cima se ela estiver dormindo. Fulo, o grande partiu bufando, pronto a terminar com a querela. Ligado nos movimentos do adverso, José Manoel saltou de banda arremessando o fumo nos olhos deste. Cipriano temporariamente cego não pôde se defender, barroou na mesa e caiu após deslizar sobre esta derrubando uma segunda à frente. Ligeiramente, Zé Manoel recuperou sua arma e saltando em cima do atordoado algoz, cravou-lhe a lâmina em cima do peito esquerdo, ferindo-o de morte. Pedro Caboclo, os sobrinhos e Boa Ventura, ouviram o grito funesto no instante em que terminavam de armazenar a rapadura, apressados em saber a causa, correram de volta à pensão, deixando o depósito nos fundos desta em aberto. Maria das Dores, por ser surda, nada ouviu e continuou nos seus afazeres da cozinha. Limpando calmamente como se nada tivesse acontecido, a lâmina nas vestes do morto, José Manoel guardou-a na bainha. Pedro Caboclo chegou primeiro que os outros, deparando com o corpo do desconhecido tombado em uma poça de sangue ali dentro, perguntou perplexo. - O que foi que houve aqui, Manoel? - Ainda não deu para entender ao certo, talvez o seu Boa Ventura aí - este acabava de entra mais os dois sobrinhos do tropeiro - saiba nos dizer. Porque até agora eu estou sem entender nada. Boa Ventura ao ver o corpanzil inet1e, correu até ele. - Não pode ser! mais é ele mesmo. Seu menino vosmecê sozinho conseguiu vencer Cipriano!? Isto é de causar a maior admiração; pois ele só! Cansou de botar para correr daqui, até de quatro homens.

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- Peraí, seu Boa Ventura, explique isto direitinho. O que significa esta briga- pediu Pedro Caboclo. - Pois não. Cipriano era um perdido na vida, metido a valentão que vivia a explorar todos nós; quando resolvia querer algo, ou o povoado lhe dava ou nesse mesmo dia morria alguém. - Ah! Agora entendi a causa de que ele. chegou me mandando. Bom! Talvez agora ele ache em quem mandar lá pras bandas do inferno, que é aonde ele deve ter ido, Explicou José Manoel despreocupado com o fato de ter morto aquele massudo antagônico. - Mais me diga, uma coisa - continuou Pedro - ele não tem alguém, principalmente família, que possa querer vir se vingar? - Tem sim. Mais não para querer se vingar, isso porque ele matou a um próprio irmão por causa de uma besteirinha de nada Resumiu absoluto o proprietário da pensão, Maria das Dores chegando à sala. Desinformada da ocorrência, ao ver o corpanzil do aterrorizante peão, tombado no piso, voltou apressada à cozinha. . Pedro Caboclo tirou o chapéu da cabeça, andou até à porta e observou preocupado a aglomeração que já começava a formar se diante do prédio. - Sendo assim, tudo bem. Mais vamos embora agora mesmo, seu Boa Ventura. Vocês dois - referiu-se aos sobrinhos - preparem os animais que já! já! Vamos partir. Lhe peço ainda, por bondade, seu Boa Ventura, pra vosmecê avisar aos outros fregueses meus, que na volta deixo as mercadorias deles. Não quero demorar mais, para evitar algum problema futuro com o amigo Manoel. José Manoel assistia calado. - Está certo, seu Pedro, se o Senhor quer assim. Só que já lho disse que não tem problema ficar; o povo ia até agradecer a

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este moço. Creio eu. Quanto a avisar os demais fregueses seu, considere como dado O recado. - Lhe fico agradecido desde já pelo aviso. Quanto a ficar, acho melhor não. Concorda, José Manoel? - O que o Senhor decidir, seu Pedro Caboclo, eu acato - foi à resposta do mancebo. - Então, até mais ver seu Boa Ventura? - Até mais ver seu Pedro. - Até mais ver. seu Jose! - Até mais ver, seu Boa Ventura. Ao saírem da pensão, a aglomeração estava maior e comentando a frente do grosso, estavam os três hóspedes, mas ninguém se atreveu a barrar o caminho dos que saiam ou perguntar-lhes algo. Cinco dias depois, dentro do prazo pré-estabelecido, chegaram ao Bomburral. Os dois mancebos por determinação de Pedro Caboclo conduziram os animais direto ao ponto de desembarque das mercadorias, ficando ele a despedir-se do companheiro. - É! Chegamos. Bom! Se um dia quiser se juntar a mim, já sabe onde me encontrar. Foi um prazer tê-lo viajando comigo. - Obrigado, seu Pedro Caboclo, o gosto foi meu. Sabe! Depois que Nhó Vicente morreu. Vosmecê foi à única pessoa que pude confiar de verdade. - E saiba que poderá contar comigo sempre, Até outra vez, José Manoel - Até, seu Pedro. Apertando-se as mãos, despediram-se sem desmontarem dos cavalos. Pois, o velho tropeiro esporeou o seu, partindo para onde estava a tangida. Manoel dali mesmo dirigiu-se à residência do Capitão. Pouco depois batia a porta do militar, convicto de encontrar a Senhorita que tanto desejava ver. Alguém veio atendê-lo e para sua alegria a própria Luzia.

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- Boa tarde - saudou cortês - como vai? - Boa tarde, Senhor: vou bem muito obrigado. Entre e pegue uma cadeira. Se deseja falar com o meu pai, adianto-lhe que ele não se encontra, Viajou há dias e não retoma tão cedo- concluiu com um sorriso amargo. - Parece - começou o visitante - que cheguei com sorte, por causa de que vim visitar sua pessoa e não o seu pai; porém, é com tristeza que percebo vosmecê não se lembrar de mim. - Engana-se Senhor José Manoel - explicou demonstrando seu nervosismo - há muito que eu o esperava, sua ausência longa, o meu amor que guardei escondido de todos é prova de não tê-lo esquecido... Zé Manoel interrompeu-a. - Sendo assim! O que pode impedir da gente se enamorar? Houve um momento de reflexão antes da rapariga responde-lhe. Fitando-o de frente, seus olhos negros pareciam penetrá-lo. Logo, em poucos minutos colocou-o a par dos acontecimentos que a envolviam. “Um casamento com outro, por ter seu pai prometido sua mão, apalavrando ao genitor de seu futuro marido”. Aquela situação era típica dos sertões nordestinos. Analisando a entendeu estar de frente com mais um sério conflito, sabia que se quisesse a rapariga seria obrigado a lutar, matar de novo, coisa que não tencionava fazer, Refletindo bastante, decidiu partir e esquecer para sempre, aquele lugar com sua gente. Na mesma hora que chegou, partiu. Sem forçar sua montaria cavalgou num passo morto em busca de vida, como a que tinha em outros tempos, junto à irmã e ao cunhado nas suas próprias terras, hoje abandonadas à mercê de qualquer colono que as encontrasse e resolvesse apossar-se delas. Passado um mês desde a sua saída do Bomburral aportou em Santa Ana do Desterro, pois sabia que estando ali, estaria mais perto do filho.

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Assim sendo, procurou um lugar, hospedando-se num dormitório situado no baixo meretrício. O próximo passo foi vender seu animal e procurar trabalho, conseguindo ambas as necessidades realizar no decorrer deste mesmo dia. Pela noite, estreou no emprego como leão de chácara de uma das muitas, mas não tão movimentadas como esta casa de prostituição "Mama Lilia". O número de clientes no antro era enorme, e os mais divergentes tipos podiam ser encontrados ali. De repente! A atenção de toda a massa buscou um mesmo ponto, um mini-palco por onde uma vedete surgiu cantando e dançando acompanhada de cinco auxiliares, desfazendo-se das vestes ao ritmo de uma música picante. Findo O número, os aplausos foram calorosos, com alguns excedentes tentando subir no palco em busca das pequenas. Aqui, entrou os serviços de Zé Manoel que rapidamente ganhou fama em função da força empregada para afastar ditos indesejáveis. Outra noite surrara tanto dois baderneiros tidos como perigosos, que esses baixaram ao hospital; nesta ocasião foi orientado a ter cuidado com represálias por parte dos dois, quando viessem a deixar a casa de saúde. Com poucas noites de serviço passou a sentir-se adaptado ao meio ambiente, ganhando o respeito de todos com a amizade de poucos e o ódio de muitos. A protegida, maravilhadas com o empenho do defensor, descobriu estar amando-o. Este fazendo desperceber a situação continuava alheio com a mente voltada para o filho. O desejo de ir vê-lo aumentava cada vez mais, só não o fazia em função da fazendeira, irresponsavelmente estuprada por ele gerando a cria. Homem de pouca conversa, foi se fechando no decorrer dos meses, suportando sua angústia. Satisfazendo as necessidades do corpo, amou a cantora por muitas noites sem se deixar prender pelas carícias e beleza

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da mulher. Seus pensamentos até nestas horas estavam distantes, e por mais que ela tentasse nada dizia deles. Noite, outra qualquer desde que aqui chegara. Nessa, a vedete apresentou seu ato com certas inovações, por isso a apresentação foi prolongada. Terminada, dois sujeitos pularam para o palco decididos a agarrá-Ia; mais uma vez seu guardacostas entrou em ação pronto para defendê-Ia. - Alto lá! Voltem pros seus lugares, ou eu os farei descer. Avisou Manoel em meio ao silêncio feito pelos demais fregueses assistindo o desenrolar da peleja que na certa Iria acontecer. Alguém, uns dos seus contáveis amigos, gritou do meio dos assistentes. - Cuidado, Paraíba! Esses aí são os mesmos que foram surrados outro dia por você, eles estão ai só para matá-lo. Paraíba, terra mãe de Zé Manoel, daí sua alcunha por aquela gente. De fato eram os mesmos referidos, assim que ganharam o tablado, Manoel os reconheceu tendo a certeza de que estavam ali para matá-lo, como desejavam desde a cossa recebida. A vedete, agora era apenas um pretexto para poderem provocá-lo e tirá-lo de circulação definitivamente. Aquele, ao lado das cantoras, ignorou-as, deixando-as passarem por ele, e de punhal na mão, investiu contra o leão da casa. - Agotado, filho de uma puta! Tu vai ver como é bom dar nos outros. O segundo pandengueiro, arrastando uma faca amolada dos dois lados, também caminhou de encontro ao "Paraíba, bradando. - De hoje tu não passa bichim! Vá se preparando pra ter com o Diabo 'que ele está te esperando. Só tem um, porém, tu não vai ver ele, porque eu vou te arrancar os olhos.

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- Será? Da outra vez fui até bonzinho pra vocês dois; então se vou caprichar desta para não ter uma terceira vez. Alertou, pondo-se em guarda de biguana na mão, o intrépido empregado da boate cabaré, disposto a vender caro sua carcaça, posicionado na beirada da madeira. O de punhal investiu contra Manoel, que com agilidade de gato esquivou-se do golpe desferido, fazendo o meliante, pelo ímpeto do arrojo ao avançar passar por ele saindo do palco. O outro assaltou em seguida exibindo firmeza; porém Zé Manoel mostrou o porquê era mestre neste tipo de desafio. Evitando o aço, atracou-se a este manuseando sua lamina em ziguezague, abrindo o ventre do marfado oponente, ao posso que com a mão livre segurava o braço armado do tal. Neste entretempo, voltando ao estrado, o primeiro individuo acometeu-se contra o "Paraíba, vindo por trás. Ainda agarrado com o ferido, não podendo pular de banda, num ultimo segundo, Manoel girou sobre si mesmo, fazendo o esfaqueado ficar no seu lugar e ele no dele. Tardio, oscilou o punhal cravando se, mas costelas do moribundo que esmorecido estremeceu agonizante nos braços elo oponente. Largando-o, José saltou para trás, enquanto praguejando, o remanescente arrancava sua arma das carnes do companheiro. Possesso, cheio de ira, partiu para cima do contraposto, com ódio redobrado. Pulando pelo palco, o funcionário da boate foi defendendo-se dos botes rivais, e ao sentir-se acuado num canto da parede, revidou jogando sua arma contra o competidor, que até ali não havia experimentado das suas investidas. Sem lhe dar espaços, o peão da casa ligeiramente modificou as posições encurralando o baderneiro. Acaso, quando estava para definir o combate, tropeçou no corpo do morto e perdeu o apoio: aproveitando a vez, o arruaceiro num lance frontal, arrancou sangue de Manoel, abrindo um pequeno rasgo no peito.

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Confiante no triunfo deu nova bote visando ferir a pandulha do lesionado. Foi sua última ação. Imóvel, Zé Manoel deixou vir de encontro ao seu corpo, a lâmina contrária; quando essa estava para atingí-lo, ergueu o calcanhar direito levemente, ficando apoiado na perna esquerda. Rodando o corpo sobre esta, levou a direita para trás, ficando de banda. Tal movimento fez com que o punhal perdesse o alvo passando direto; coisa que não aconteceu a biguana do Paraíba, encontrando a jugular do colacionador. Mal a disputa acabou o Delegado da cidade junto a dois soldados rasos, adentraram no local fortemente armados. Ouvindo algumas testemunhas, inclusive a Manoel, liberaram-no após interrogá-lo. Entrementes, intimaram-no a prestar depoimento na tarde seguinte. . Quatro dias depois. Livre pela autoridade policial, juntou seus objetos na pensão, e na feira comprou um cavalo selado, partindo dali sem mais voltar à noite para acertar as contas ou despedir-se da cantora.

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A PAZ PROCURADA Ao passar de fronte a um armazém no percurso de saída da cidade de, parou desmontando para comprar mantimentos e outros gêneros. Rumando na seqüência logo depois pela mesma via, à toa, ensimesmando. "Sô! parece que é uma sina esta minha, se não tivessem acontecido essas mortes, eu poderia ainda ficar um bom tempo por cá; só que agora não tem mais jeito e o melhor mesmo sou eu partir pra evitar mais encrencas", Empurrado à mercê de um passageiro chererém, cavalgou decidido a ver o filho, antes de desaparecer definitivamente daquela região. Para tal fim, desviou-se da fazenda a menos de quatro quilômetros, trotando na direção de uma velha lagoa próxima à propriedade no sopé de um morro; lá chegando, deixou cair a borjaca de médio porte no terreno macio, saltando a remexê-la. Quarenta minutos depois estava totalmente padronizado com os seus planos. Ao saltar do cavalo e esvaziar a sacola, retirou do seu interior: uma barba postiça, um paletó engelhado e mais uma calça do mesmo linho; de outra menor presa à sela do animal: um par de sapatos bem escovados e um pequeno espelho. Despido das vestes, banhou se nas águas mornas; retornando às margens, ligeiramente escondeu as roupas velhas, trajandose com o terno. Pelo espelho preso a um galho de jurema, contemplou-se fixando a barba, e, calçado no lustroso sapato, voltou à sela da montaria seguindo ao encontro do seu destino. O tempo é pai para todos os males; como sendo, causou profundas mudanças no coração daquele homem.

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Trotava com o único intento de ver o filho, consciente de não deixar descobrirem sua legítima identidade de pai maldito. Atingindo o vestíbulo do rancho depois de vencer o cacaual, sentiu o coração bater descompassado ao avistar o menino saindo pela porta da frente e correr em volta do casarão, acobertado pelo telheiro, seguido por sua mucama a gritar-lhe o nome, - Paulinho! volte aqui, menino danado. "Será que vou suportar? tomara que sim, porque já estou de não aguentar com tanta vontade de abraçar este moleque e pedir perdão à mãe dele. Ah! e ela, será que vai descobrir o meu disfarce? espero que não descubra. Em todo o caso, agora só resta ver no que vai dar; pois não tenho como recuar". Calculou aflito. A dona das terras saiu naquele instante em busca da ama e do filho. No entanto, vendo a aproximação do cavaleiro, parou estática, fitando-o ao avizinhar-se. - Salve _ saudou-lhe quando este fez parada aconchegado à casa - grande - Salve. - Apeie o cavalo na figueira e acabe de chegar, Senhor? - Januário Dantas, um seu criado - respondeu retirando levemente o chapéu da cabeça. Coincidentemente era chegada a época da colheita do cacau, e em meio a esta fase, geralmente apareciam muitos interessados em comprar a produtividade; o que veio favorecer ao disfarce de Zé Manoel. - Pretinha! - chamou a fazendeira. - Pronto, Sádoninha. Vossemecê tá me chamando? - Sim, minha “nega”. Pode deixar o Paulinho brincando por aí, e vá avisar a Carlota que estamos com visita, que é pra ela aumentar o feijão. - Agora mesmo, Sádoninha.

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Obedecendo a ordem recebida, a criada adentrou de volta a casa. Foi o tempo em que Zé Manoel, "O Januário" terminando de amarrar seu cavalo no tronco da figueira sobreando o terreiro, caminhou ficando de lado daquela que em toda terra era capaz de exemplá lo com uma só palavra. Batalhando contra a emoção calculava cada gesto, cada palavra, para não ser descoberto. - Seu guri parece levado. Ou é impressão minha? - Não, não é. Ele realmente tem muita energia, e nos dá muito trabalho. - Isto lá é mesmo coisa de criança. Mais não foi por isto que vim aqui ... Interrompendo-o, esta involuntariamente auxiliou ô nos seus planos. - Eu sei. Já imaginava. - Imaginava!? - Sim! Desde que o vi chegando, supus ter vindo a vossamecê, de olho na safra do cacau. - Ah! é claro. Como não? - Tenha bondade seu Januário, queira entrar. Sentados conversaremos melhor. - Certamente. - Eu estou admirado; como é que vossamecê descobriu meu objetivo na compra da safra? Se ainda não lhe falei que tou por estas bandas representando uma firma pioneira nesses lados. - É simples, seu Januário. Por estas datas sempre aparecem interessados em negociar a compra do meu produto. - Tá explicado. Mas é bom a Senhora saber que no meu causo, eu represento uma firma interessada em comprar o cacau direto das roças. - Direto das roças!?

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-Sim, porque desta forma em comum acordo, os lucros são maiores tantos para um lado como para o outro. -Interessante sua proposta. Vou estudá-Ia para amanhã, depois que o Senhor tiver verificado a plantação e analisado a contento seu preço, lhe dizer se vendo ou não. Por hora! Vou mandar chamar um colono encarregando-o de logo pela manhã cedinho, vir buscá-lo para levá lo nas roças. - Não se faz necessário o colono. Se à Senhora não se ofender eu o dispenso. Quero ir sozinho, gosto de ver o que vou comprar sem a opinião de quem quer vender. - É justo sendo assim! Esteja à vontade para ir e vir dentro dos meus domínios. Agora, porém, devo deixá-lo sozinho um pouco tenho algumas obrigações que reclamam a presença. Antes devo avisá-lo que a ceia noturna é servida pelas sete horas, como esta não esta longe, se resolver passear pelos arredores, lhe peço para não além desta. Com sua licença. Solicitou levando-se para sair. - Tem toda. Sozinho, Manoel respirou fundo, aliviando a tensão; o encontro tinha saído melhor do que o planejado. Levantando-se da cadeira em que esteve sentado, caminhou à porta prosseguindo nos seus planos. Fora, montou o cavalo saindo a campear. Não muito longe do casarão, descobriu numa baixa à beira dos abastados cacauais, uma casinhola de madeira simplória, para lá direcionou o baio. Chegando à avistada, um enorme cachorro veio ladrando ao seu encontro, saindo debaixo de uma latada. O cão demonstrava alegria ao vê-lo. Intrigado! Buscou na memória algo que o ligasse ao animal, neste momento ganindo de cabeça baixa em frente à montaria. De repente! Como uma explosão, a lembrança surgiu nítida, clara, TROVÃO o velho cão adotado por Nhó Vicente na

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caatinga. Sim! Era ele mesmo; já velho, doente, o fiel animal o reconheceu ao aproximar se. Desmontando, acocorou-se e acariciando a cabeça. "Ah cachorrinho danado! se Nhó Vicente tivesse vivo ia ficar contente de saber de você". Pensava distraído, alisando o pêlo do cachorro. Isto lhe impediu de ver o roceiro morador da singela, acompanhado de um moleque, acercarem-se dele. -Olá Moço! Erguendo a vista, Zé Manoel respondeu ao agricultor. - Olá! Tudo bem gente? - Tudo, seu moço. - Este cachorro é de vocês, meus amigos? Adiantando-se ao pai, o frangote respondeu falando pela primeira vez. - É meu sim, seu Coronel. Ele apareceu lá em casa já vai pra um tempão daí então fiquei com ele. Mais como o Senhor conseguiu fazer ele ficar de pé? - Ficar de pé? - Sim, já vai pra dias que ele tá adoentado naquele canto apontou a latada - e nem levantar pra comer, podia. Enquanto o rapazola explicava a doença, o viu deitar-se agonizando, morrendo em seguida. - Lamento muito rapaz, seu animal está morto. O remédio é cavar uma cova e enterrar ele, nós nunca devemos deixar um bicho de estimação jogado à toa. - É uma verdade, seu moço. Meu filho gostava muito do cachorro; como o Senhor parecia gostar também. Teria sido por acaso, seu este animal? Indagou o capiau atento a atitude do forasteiro. Ficando ele pé, frente ao velho; Zé Manoel respondeu convicto. -Por que haveria de ser?! Não, este cão não foi meu, todavia, já fui dono de um dos bons. Agora me dê licença; não

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disponho de mais tempo para cavacar, outrora passo aqui pra nós prosearmos mais à vontade. Então até mais ver. Despediu-se, afastando para evitar conversa. - Até mais ver. Respondeu o jeca pensativo, matutando lá com os seus botões. Prendendo a vontade de chorar. Rapidamente, após o acontecido, Januário Dantas regressou à fazenda procurando prender as atenções em seu plano. Cá, a criada de nome Carlota o guiou ao quarto de hóspedes, aonde em pouco tempo veio chamá-lo para cear. - Está na hora, seu Januário. A patroinha lho espera. Então se vamos que eu já estou pronto. Sentado à cabeceira da mesa, Celestiana o aguardava para jantarem, logo que o homem chegou, puxou conversa. - Gostou do que viu, seu Januário Dantas? - Demais até - respondeu o falso comerciante pensando em Trovão o pouco que andei deu pra fazer uma boa idéia do tamanho das plantações, da qualidade do produto; mesmo estando no escuro. Entretanto, só vou poder botar preço mesmo, amanhã depois de ver melhor as roças e os frutos. - É correto que seja assim. Quando chegou naquele rancho, Zé Manoel tencionava apenas rever o filho. Agora, contudo, já não se contentava em vê-lo, queria mais; estava disposto até a falar a verdade para a anfitriã e submeter-se ao julgamento merecido. Para esta finalidade tratou de ganhar tempo, buscando conhecer melhor a mulher. - Desculpe o atrevimento! Mais tem uma coisa me martelando a cachola e que eu gostaria de saber da Senhora, no entanto o que gostaria de saber é um pouco desagradável. - Eu já posso imaginar o que seja. Pode perguntar sem meias palavras, porque na certa é o assunto menos comentado nesta fazenda e ao mesmo tempo o mais conhecido de todos.

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- Bem! Eu já vim pra cá sabendo que a fazenda era administrada por Vossa pessoa e que vosmecê tocava tudo sozinha ... - Não! Não já lhe disse que perguntasse sem a necessidade de fazer rodeios? Pergunte então diretamente o que quer saber. - Sim, perguntarei. É a respeito do que me disseram sobre o vosso infortúnio em ter sido vítima de um mau elemento. Corno foi esse caso? Indagou-a, admirado pela valentia com a qual ela tratava o fato e interessado em descobrir a opinião dela sobre ele, agressor. - Há algum tempo, desde que dois retirantes passaram por aqui procurando trabalho, meu pai os acolheu para um tipo ele serviço que só vim descobrir mais tarde, depois que ele morreu; serviço esse que imediatamente extingui desde rancho por ser ilegal e desonroso. Mas! Voltando ao assunto. Meu pai odiava cães e um daqueles homens teve o seu animal morto por ele. Um segundo cachorro que acompanhava a dupla, só escapou porque fugiu entrando na caatinga. imediatamente após a morte do cão houve uma discussão seguida de briga que resultou na morte do nosso capataz e na fuga dos desconhecidos. Inconformado, meu pai com outros da sua confiança partiram em perseguição aos fujões. Só que esses retomaram à fazenda, aonde em travado combate, mataram todos os adversários e não respeitando nem a minha pessoa, fui violentada pelo mais moço dos dois, após ter tentado matá-lo. Isto é tudo, seu Januário, e como já lhe disse anteriormente, é do conhecimento dos meus agregados e vizinhos; como também de toda região. Só estranho é que alguém não tenha lhe contado esses fatos por aí afora. - De fato, até que falaram, mas essa gente adora conversar demais, e eu não gosto de me fiar pela cavaqueira

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dos outros. Pois veja a Senhorinha que tiveram o topete de falarem muito mal do vosso pai. - O que disseram dele ao Senhor? - Não é bom falar nisto, me perdoe se toquei no assunto esgueirou o rumo da prosa com astúcia, se escudando. - Não se constranja; fale. Até porque eu quero saber o que pensa de meu pai esse povo das redondezas. - Já que a Senhora insiste, disseram-me que seu pai foi o principal responsável por tudo de ruim que aconteceu aqui, a vista de estar envolvido com... - Roubo de gado, você quer dizer. - É! É isso. - Infelizmente é verdade. Foi esse o serviço ilegal que acabei nesta propriedade, e que aqueles Senhores na certa foram convidados a fazer parte. - Estranho esse procedimento, não? - Por quê? - Roubar gado em plena seca! - É. de fato é estranho. Mais se for levado em conta que o gado não ficava aqui, era transportado logo para outros Estados, não se é estranho. - Ainda continua sendo. Veja você: o gado durante uma estiagem, não perde o valor. Então por que o seu pai simplesmente não comprava as reses? Depois, dentro da lei, revenderia as para as outras regiões. -. E obvio seu Januário. O porquê. Compra-se barato, só que morrem muitas pela jornada, em função do estado caótico em que geralmente se encontram; dessa forma os lucros também diminuem, à medida que roubadas, todas seriam lucro. -Tem razão, senhora. Mais quer dizer então que os tais retirantes, lá não eram flor que se cheirasse?

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- Aí é que está o problema. Eu não sei nem outra pessoa sabe se eles aceitaram o encargo, ou se foi por tal que realmente teve início o conflito, tudo ainda é muito obscuro. Surpreendido! Acabou de descobrir ao acaso, a legítima verdade em torno do serviço para o qual foi contratado àquela data Nunca antes se preocupara ou quisera saber qual seria. Entretanto, melhor do que isto descobrira a oportunidade de ganhar o perdão de Celestiana. Botando a cabeça pra funcionar procurou o melhor momento de demonstrar quem era. - Me diga cá uma coisa - continuou - vosmecê deve de ter muito ódio desses homens? Por causa do que aprontaram. Neste ponto, já terminado de jantarem, ela convidou-o a vir sentarem-se no alpendre; onde continuaram proseando sobre o mesmo assunto. - Pra lhe dizer a verdade, já cheguei a sentir um ódio imenso, inclusive cheguei a pensar em mandar alguém acabar com eles. Porém, veja o Senhor: matando-os, eu estaria matando ao pai de meu filho e isto eu não tenho o direito de fazer com a criança. Bom ou ruim, inocentes ou culpados, um deles é o pai de meu filho. Assim sendo! Poderá acontecer um dia quando o menino crescer, de querer conhecê-lo. Aí! O que diria eu se o matasse? - De fato é um grande dilema. - Demais, meu caro Januário, depois tem o fato de que meu pai teve uma parcela de culpa por todo o mal aqui entrado; ele não podia e nem devia ter se metido em tais negócios escusos, a prova tá aí, antes não plantávamos nada, vivíamos exclusivamente da criação de gado. Depois, com a sua morte, lutei muito, empenhei todas as minhas terras e investi nas atuais plantações. Ligeiramente saldei o débito. Hoje, o que produzo é lucro, numa prova inconteste de que nada do que aconteceu era para ter acontecido. ...

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Calou-se, subtraindo-se em silêncio, repentinamente. - Não se sente bem Senhora? Preocupou-se, vendo-a cabisbaixa, o falso personagem. Sentada ao lado do hóspede, esta virou-se de banda, olhando para ele. - Eu estou bem, obrigada. É que estive pensando: nunca antes comentei tão profundamente este assunto, e nem sei porque o fiz com vossemecê. - Certamente por causa de que estava precisando desabafm- se abrir com alguém. Será que vosmecê não já se sente melhor, mais aliviada? - Confesso que sim. Contudo, estou um pouco intrigada Com o vosso Interesse em tão desagradável assunto. - Deve estar mesmo. Porque se soubesse ... Calou-se sem terminar a frase, e erguendo-se do banco caminhou descendo os bastantes que davam para os jardins da casa. Sem entender a atitude tomada pelo negociante, seguiu-o, após ele parar adiante, olhando as estrelas. Alcançando-o, virou-lhe de frente, e aí! Pode ver o rosto transtornado do hóspede, chorando silencioso. - Se soubesse o quê? Você não é um daqueles retirantes, posso afirmar com certeza. Mas! Observando-lhe assim, melhor, sofrendo sem o menor motivo aparente, só posso acreditar que seja irmão de um deles, ou dos dois ao mesmo tempo. Bom! Sei lá! Manoel levantou a mão num gesto, pedindo silêncio. - Eu não sou irmão ou parente daqueles homens. Sou um deles. Veja. Completou a frase retirando a barba postiça, deixando transparecer sua verdadeira identidade. Atônita, Celestes recuou assustada. Aproveitando o relance, antes dela recobrar a razão, explicou.

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- Sim! Sou eu, o pai do vosso filho. Me acredite Celestiana: não foi calculado o que aconteceu aqui naquele dia, foi tudo um acidente do acaso que veio para marcar as nossas vidas; e eu que não suportava mais viver carregando este fardo, sendo esta a segunda vez que venho aqui pra lhe pedir perdão. Agora achei forças para fazê-lo, mesmo que depois vossamecê me exemple como merecedor que sou. Pois eu sei que não sou digno de olhar para a criança ou para você. Passado o momento de choque, a fazendeira o olhou sem medo vendo no rosto do homem, não mais a expressão do mal; sim! Um rosto sofrido, cheio de paz que buscava defini-Ia a sua essência. - Eu - começou - na verdade devo lhe dizer que o perdoei há tempo; pois se por um lado vosmecê me trouxe a dor, por outro trouxe a razão de acreditar na vida, e o meu filho é esta razão, só por graças a ele é que sou o que sou hoje. No princípio foi muito difícil, cheguei até em pensar num aborto, mais depois desisti, e agora ele é o significado da minha existência, inclusive é da sua, pois por ele você foi perdoado anteriormente. Caindo de joelhos aos pés da mulher, Zé Manoel não cabia em si de tanta alegria. Antes nunca vira numa única pessoa tanta coragem, firmeza e compreensão. Chorando como um menino desprotegido, beijou-lhe os pés; atingindo ao extremo o ponto de humildade que um homem é capaz de chegar. Emocionada pela prova de mudança, ela o ergueu. - Obrigado por me fazer acreditar na vida também, senhorinha Celestiana. Pode ter a mais absoluta de todas as certezas, que de hoje por diante, enquanto vida eu tiver, jamais botarei os pés aqui novamente - prometeu, abandonando as segundas intenções que lhe brotaram ao sentir o coração bater forte, quando viu o menino.

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Encostado ao homem, vencido no íntimo, sentiu uma estranha sensação percorrer-lhe o corpo, que aumentou mais ainda ao ouví-lo dizer, "jamais voltar ali outra vez" mesmo assim ficou calada. - Adeus Dona Ce!estiana. Que Deus lhe tenha e a abençoe sempre. Despediu-se virando-lhe as costas e caminhando para seu cavalo amarrado à figueira. Desapiado, colocou o pé no estribo olhando de lado pela última vez aquela casa; neste momento uma tristeza acompanhada de uma dor insuportável lhe fisgaram o coração por saber que estava deixando para todo o sempre a razão maior de sua desgarrada vida. O filho bastardo, porém amado. Esporeando o baio partiu vagarosamente cabisbaixo. A detonação ressoou nos seus ouvidos, arracando-lhe o chapéu da cabeça, mal vencido dez metros da árvore. Imóvel, esperando o balaço final, não incomodou-se em olhar para trás. - Termine com isto Senhora, pois é isto mesmo o que eu mereço - gritou. - Se vossemecê der mais um passo, pode ter certeza de que atirarei, e acredite! Não vou errar José Manoel - foi a resposta. Sem entender a frase, desceu do animal voltando ao casarão, ali a fazendeira empunhava firmemente um fuzil. . - Aproxime-se mais - ordenou. Caminhando confuso com o que estava acontecendo, parou frente a ela, do lado da alpendrada. - Aqui me tem, atire agora! Bem aqui - apontou o coração. - Não! Já lhe disse que não posso matar o pai de meu filho. Por que insiste em que eu faça isto. Zé Manoel ficou sem resposta e a mulher continuou. - Acha justo que eu tenha que assumir a responsabilidade, sozinha desta criança? E de mais tarde contá-la que não

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perdoei ao seu pai quando ele me procurou? Se acha! Está enganado. Carlota! Pretinha! Venham cá. - Imediatamente, as criadas saíram com o pequeno sonolento, dormindo nos braços desta última, para a total estupefação de sua capacidade racional. - Mais eu não estou entendendo - exclamou num murmúrio. - Já vai entender, seu Manoel. Olhe para a sua retaguarda. Obedecendo, viu surgir por todos os lados mais de trinta homens cercando-o, armados dos mais diferentes instrumentos; tais como: foices, facões, enxadões, cutelos, facas e inúmeros outros. Sorrindo, compreendeu que iria morrer naquele momento, na frente do filho como fez a ela. - Não precisa que tenham medo. Podem vir eu não vou reagir. A menos de um metro de sua pessoa, o grupo de lavradores liderados pelo dono da casinhola em que encontrara Trovão, estancou formando um círculo mortal; esperando as ordens da patroa. Certamente este homem o reconhecera por causa do animal e como tal alertara aos demais que ali estavam. - Vir para onde seu Manoel? O que você está pensando? acha que eles irão matá-lo? Já não lho disse por mais de uma vez que não posso matar o pai de meu filho. - Então, se não é pra isto Senhora. Me diga para que é? Ou então me deixe ir embora, pois aprendi a ser homem de palavra. - Eu acredito, seu Manoel. Mais como eles estão aí! è justo que sejam nossas testemunhas. - Testemunhas?! Não estou lhe entendendo de novo minha Senhora. -É! Mais já vai entender. Augusto! O dito da tapera respondeu.

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- Cá estou eu, minha patroa. Pronto para servi-la sempre. - Escolte este moço - apontou para Zé Manoel- à sala, e mande dois homens ligeiramente até a cidade buscar o padre; pois ainda hoje vamos corrigir um erro nesta fazenda. - Agora mesmo, sadoninha, minha patroa. E voltando para Zé Manoel, a mulher prosseguiu. - Ou o Senhor não concorda, não acha justo que esta criança tenha um pai? Arrebatado de alegria, Zé Manoel passou para o alpendre,. tomando o filho nos braços. - Só concordo! ... E lenha a certeza de que serei um pai! ... Um amigo... Tudo para ele. Como serei seu escravo para toda e qualquer coisa doravante. Respondeu unindo-se às únicas pessoas que lhe faltavam no mundo, ligadas a ele pelo flagelo da seca. Agora guardava em si a certeza de nunca mais ter que viver como retirante. A felicidade finalmente lhe abria as portas, extinguindo a dor e o sofrimento após um dia ter botado o pé na estrada.

Fim da primeira saga “O homem jamais será um ser racional completo se não souber perdoar” O Autor.

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