EDITH STEIN E UMA PROPOSTA DE CORPOREIDADE Ursula Rosa da Silva1 Resumo: Edith Stein, em sua tese, denominada O Problema da Empatia (1916), desenvolve o conceito de Einfühlung (intuição empática, empatia) ligado a uma concepção de modo de estar no mundo do sujeito (Eu próprio) em relação ao Outro (Eu estranho). Vinculado à definição de empatia, ela trata de explicitar o sujeito como um indivíduo psicofísico diverso de um objeto físico, ao qual é preciso atribuir um corpo, não tanto como corpo físico, mas como fenômeno denominado corpo-próprio (Leib = corpo vivente, corpo animado). Este estudo se insere nas temáticas da fenomenologia da existência, como a de Merleau-Ponty, por exemplo, em que o conceito de corpopróprio se evidencia como inovador para se pensar uma nova corporeidade e um novo sujeito epistemológico, frente ao sentido objetivamente racional, decorrente do pensamento moderno. A concepção de corpo-próprio em Edith Stein, sob nossa leitura, instaura o caminho da corporeidade como essencial ao conhecimento na filosofia e para a arte como um corpo expressivo. Palavras-chave: Corpo-próprio. Expressão corpórea. Fenomenologia.

O pensamento do fenomenólogo Edmund Husserl (1859-1938) influenciou outras duas fenomenologias: a de Edith Stein e a de Maurice Merleau-Ponty, que trazem para a filosofia um conceito, o de corpo-próprio, que pretende superar os dualismos das teorias modernas em relação ao conhecimento e a instância da consciência racional como único ponto de partida para o conhecimento. A fenomenologia surgiu como uma proposta para a explicitação do conhecimento filosófico, diferenciando-se da filosofia tradicional – que estava baseada na separação entre o sujeito epistemológico e o objeto de sua abordagem. A origem etimológica da palavra “fenomenologia” advém de duas expressões gregas, Phainomenon e Logos. Phainomenon (fenômeno) significa aquilo que se mostra por si mesmo, o manifesto. Logos é tomado com o significado de discurso esclarecedor, pensamento elaborado. Dessa maneira, fenomenologia significa discurso esclarecedor a respeito daquilo que se mostra por si mesmo (DARTIGUES, 1982). Edith Theresa Hedwing Stein (1891-1942)2 foi discípula de Edmund Husserl e sua assistente até 1919, que a considerava extremamente qualificada, mas, por ser mulher, não conseguiu uma 1

Professora associada do Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) RS/Brasil. Email: [email protected] 1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

indicação de seu mestre para dar aulas na Universidade. Em sua tese de doutorado3, denominada O Problema da Empatia (1916), Edith Stein desenvolve o conceito de Einfühlung (intuição empática, empatia) ligado a uma concepção de modo de estar no mundo do sujeito (Eu próprio) em relação ao Outro (Eu estranho). Para chegar à definição de empatia, ela trata, no primeiro capítulo sobre a Essência do Ato de Empatia, de explicitar o sujeito como um indivíduo psicofísico diverso de um objeto físico, ao qual é preciso atribuir um corpo, não tanto como corpo físico, mas como fenômeno denominado corpo-próprio (Leib = corpo vivente, corpo animado). Nos textos de Edith Stein4 encontramos uma proximidade com o conceito que posteriormente aparece na fenomenologia de Merleau-Ponty. Este estudo pretende apresentar uma análise comparativa entre a pensadora Edith e o fenomenólogo Merleau-Ponty no conceito de corpo-próprio e como este conceito se torna importante, por exemplo, na área da arte como um corpo expressivo. Merleau-Ponty reconhece que a fenomenologia husserliana consegue unir o “extremo subjetivismo e o extremo objetivismo” (1971, p. 17). A fenomenologia de Husserl trata da busca de como ocorre o encontro entre a subjetividade e os objetos, por meio da intencionalidade. Pela intencionalidade, toda a consciência é consciência de algo, mas não de uma imagem ou representação de algo exterior. A intencionalidade é uma recusa à noção clássica de representação, pois a consciência nos apresenta objetos numa relação de significação original, ou seja, manifesta o sentido primeiro do fenômeno e não o representa para nós. O privilégio do fenômeno sobre o objeto natural (das ciências humanas) se dá pelo fato de que, no fenômeno, o sentido é mais amplo, pois comporta uma referência interior a outras possibilidades de manifestação que estão implicadas no horizonte do mundo. Enquanto no naturalismo o fundamento é a exterioridade mútua dos elementos, a fenomenologia baseia-se numa inerência intencional. Devido a isso, Husserl realiza todo um processo de redução, de suspensão do mundo natural (epoché) na sua análise transcendental, para procurar o sentido que manifesta o 2

Edith Theresa Hedwing Stein (1891-1942) era filha de família judia, mas se tornou uma religiosa da Ordem Carmelita Descalça, onde recebeu o nome de Teresa Benedita da Cruz, dedicou-se a este trabalho religioso de 1933 a agosto de 1942, quando foi morta nas câmaras de gás, de Auschwitz (Polônia). Pelo seu heroísmo cristão, foi canonizada por João Paulo II, em outubro de 1998, sob o nome de Santa Teresa Benedita da Cruz. Foi proclamada co-padroeira da Europa por seu contributo cristão que outorgou não só à Igreja Católica, mas também por seu pensamento filosófico. A sua celebração litúrgica, na forma de festa, na Igreja Católica, é no dia 9 de Agosto de cada ano. 3 STEIN, Edith. Il Problema Dell´Empatia, Halle: Stamperia dell´Orfanotrofio, 1917. 4 Outra obra que traz as ideias básicas de Edith Stein é Introdução à Filosofia (Einführung in die philosophie), coletânea de textos utilizados em cursos que ministrou entre 1918 a 1920. Esta obra foi publicada muitos anos após sua morte, em 1991, e conta com definições dos principais problemas enfrentados pela Filosofia, a saber: a questão do conhecimento e o problema da constituição da natureza e do ser humano.

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fenômeno antes que se estabeleçam as condições de possibilidades para questioná-lo. Entretanto, em Husserl permanece a separação entre objeto e consciência, na medida em que o objeto possui sua independência em relação à consciência: não há identidade entre eles, quem estabelece o elo entre mundo e consciência é a intencionalidade, que por meio da redução fenomenológica, desvela o significado dos objetos. Assim, a fenomenologia em Merleau-Ponty tem uma característica diferente da Husserl, que suprime o mundo natural para encontrar as essências. Husserl havia percebido, em suas últimas obras, a necessidade de contar com um mundo que está aí anterior à reflexão, um mundo-da-vida (LebensWelt). É dessa última abordagem husserliana que parte MerleauPonty, vendo a fenomenologia não como uma filosofia que define essências, mas que coloca as essências na existência, em contato com o mundo, tendo presente que o homem só pode compreender-se a partir de sua facticidade. A fenomenologia no século XX, por meio de autores como Edith Stein e Maurice MerleauPonty, trouxe uma nova abordagem para o conhecimento nas ciências a partir do conceito de corposujeito ou corpo-próprio. Merleau-Ponty concebe o corpo-próprio como meio para superar a antinomia de sujeito e objeto, presente na ciência moderna, criticados pelo filósofo. Edith Stein também apresenta o conceito de corpo-próprio como base de superação da fenomenologia de Husserl, pois considera o sujeito como pessoa humana, intencional e em relação de alteridade no mundo.

Corpo-próprio, Empatia e Intersubjetividade

Edith Stein, em sua fenomenologia, apresenta concepções, tais como: corpo, consciência intencional, intersubjetividade, subjetividade, vivências, percepção, que depois aparecerão na fenomenologia de Merleau-Ponty, dos anos 1940, que aborda a temática do corpo-próprio como caminho para superar a antinomia sujeito-objeto, característica da tradição filosófica. Edith trata a questão da alteridade, da relação com o Outro, através do conceito de empatia, desenvolvido em sua tese de doutorado, bem como por meio do conceito de corpo-próprio. Tendo estudado os textos de Merleau-Ponty, não encontramos nenhuma referência a Edith Stein em relação, a sua tese, e ao conceito de corpo próprio, embora ele tenha referido outro texto de Stein em bibliografia na obra Fenomenologia da Percepção, bem como referências a Husserl e Scheler, autores também utilizados por Edith Stein em sua obra. 3 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

Edith Stein considera o ser humano, a pessoa, como “uma unidade de corpo, alma e espírito e demonstra que o homem tem um interior inviolável que é o fundamento de sua dignidade, o espaço sagrado de encontro com Deus e, inseparavelmente, o lugar da consciência de que podem elevar-se decisões livres e um verdadeiro diálogo com o mundo” (RUS, s/d). Segundo Edith, esse corpo próprio é:

(...) dotado de sensibilidade, como corpo que pertence a um Eu capaz de ter sensações, de pensar, de sentir e querer, enfim, como corpo que não faz parte somente do meu mundo fenomênico, mas é o centro de orientação de um similar mundo fenomênico, de frente ao qual se encontra, e com o qual eu estou em troca recíproca. (STEIN,1917, p.70, tradução nossa)

Dando ênfase então, na tese de Edith, a esta configuração da relação do Eu e o Outro, a experiência de empatia ou de intersubjetividade, ela traz a concepção de Scheler para explicar que o Eu próprio e o Outro (Eu estranho) são percebidos de uma mesma maneira em sua experiência, é um “fluxo indiferenciado de experiência vivida” (STEIN, 1917, p.104), diz ela. Edith contesta a inclusão que Scheler faz da empatia na percepção interna, e diferencia esta percepção da reflexão, afirmando que a reflexão é sempre uma conversão atual em direção de uma experiência vivida atual, enquanto que a percepção interna pode ocorrer de maneira inatual. Aprofundando a concepção de experiência do Outro, do ‘sujeito estranho’, ela afirma que nossa experiência deste Outro Eu (Eu estranho) deve consistir em captar o ato de vontade deste outro, caracterizando, assim, um ato de compreensão, um ato empático, mediante o qual entendo o querer do outro como sendo “meu querer”. Para isto, no entanto, é necessário que eu tenha consciência de meu corpo-próprio: A possibilidade da empatia sensorial (...) é garantida pela apreensão do meu corpo próprio como corpo e do meu corpo como corpo próprio, graças à fusão da percepção externa com a percepção do corpo próprio; é garantida ainda pela possibilidade que este corpo tem de assumir diversas posições no espaço; e por último é garantida pela possibilidade de mudar na fantasia a real característica do corpo (...). (STEIN,1917, p.150, tradução nossa)

A empatia torna-se, enfim, condição de possibilidade da constituição do indivíduo próprio e de sua relação com o Outro. O fio condutor da atuação de Edith Stein, em todos os âmbitos, seja com o pensamento seja com a ação, parece ter sido a intersubjetividade, Einfühlung, a empatia, a comunhão com o outro, com o estranho, com o diferente. Assim, ela contesta a concepção de Scheler, segundo a qual a empatia seria relacionada apenas à percepção interna. Para Edith Stein, a empatia deve contemplar nossa experiência de sujeito “estranho” que consiste em captar o ato de vontade estranho. A característica deste ato de compreensão, mediante o qual o “querer estranho”, do outro, passa a ser “meu querer”, 4 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

remanescendo o querer do outro. E esta característica não deve se limitar aos atos de vontade, mas ampliar-se a todos os atos empáticos. Quando trata da empatia como problema de constituição, ou seja, aborda o quesito sobre como nos constituímos, de forma consciente, na objetualidade de que se fala na teoria tradicional da empatia: um conjunto de indivíduo psicofísico, personalidade e semelhante. A partir daí define o que é o corpo próprio e de que modo isso se dá em nós. Partindo da consciência pura, base de sua pesquisa e da teoria de Husserl, ela pergunta: “como se constitui conscientemente, para mim, o meu corpo próprio, no caso que isso me venha dado somente nos atos de percepção externa?” (STEIN, 1917, p.124). Uma coisa real, um corpo manifesta uma sequencia de aparição e, ao mesmo tempo, mostra estranha lacuna: é um corpo que se esconde de mim no mesmo momento em que me convida a apreendê-lo, a dar-lhe atenção de um jeito sempre novo. O Eu não apenas quer aderir ao seu convite, quer também desvelar os outros lados. Outra coisa que vejo me diz “toca-me sou verdadeiramente uma coisa que se manifesta, sou uma coisa atingível e não uma imaginação” (STEIN, 1917, p.124). Para melhor precisar esta noção devemos dizer ainda que outro objeto me vem dado em uma multiplicidade infinitamente variável de aparições mutantes em relação a mim, a minha capacidade de observação e intenção de dar-lhe atenção. O corpo próprio é, por sua vez, um objeto que me vem dado em uma sequência de aparições que podemos variar só dentro de limites, estreitíssimos. O corpo é um objeto que estará em sintonia, constantemente, com uma insistência fina. Pois quando percebo meu corpo, por exemplo, quando vejo minha mão, eu não vejo somente a mão, percebo a mão como mão sensiente de um corpo próprio, e vejo ainda os campos sensoriais da mão, os quais são por mim constituídos na percepção do corpo próprio. Por outro lado, enquanto evidencio, tomando em consideração alguma parte do meu corpo próprio, simultaneamente, formo para mim mesmo uma imagem da parte do corpo em questão: uma coisa é manifestada a outra, embora não sejam juntamente percebidas. Um caso semelhante se encontra no âmbito da percepção externa. Não vemos somente a mesa e contatamos, tocando-a, a sua dureza, mas “vemos” pura a sua qualidade de dureza. A empatia é a condição de possibilidade da constituição do indivíduo próprio. O que Edith Stein entende por Eu individual ou por indivíduo é que o indivíduo é um sujeito unitário, no qual a unidade da consciência de um Eu e um corpo físico se conjuga indissoluvelmente. Assim, cada um desses dois elementos (corpo físico e consciência) assume um caráter novo: o corpo se apresenta como corpo próprio, enquanto a consciência se apresenta como anima do indivíduo unitário. A unidade é documentada pelo fato de que certos processos (sensações, sentimentos comuns) venham a dar-se como pertencentes tanto à alma quanto ao corpo próprio, simultaneamente.

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Em Husserl, por sua vez, permanece a separação entre objeto e consciência, na medida em que o objeto possui sua independência em relação à consciência. Não há identidade entre estes dois elementos, quem estabelece o elo entre eles é a redução fenomenológica. Por isso, a intencionalidade vai dar a ligação com o mundo real. É pela intencionalidade que mundo e consciência se relacionam, sendo que em Husserl a consciência não faz parte do mundo. Ou seja, quando Stein afirma que o indivíduo é parte integrante da natureza, ela faz uma aproximação do sujeito e de sua consciência ao mundo real, diferente de Husserl. Pois, embora Husserl valorize o mundo das vivências para a apreensão do sentido verdadeiro e original dos fenômenos, ele vai, pela redução, separando-se deste mundo fonte de significados. Stein vai definir a intencionalidade a partir da diferenciação entre o movimento mecânico do corpo e um movimento próprio, que revela vontade. Edith vai diferenciar ainda vários graus de percepção que terão como consequência diferentes modos da empatia. Dito mais precisamente, o corpo humano não delimita diretamente o campo do meu Objeto de empatia, o qual pode ser-me dado por meio do corpo próprio, mas delimita um campo dentre o que é possível perceber com um preenchimento empatizante. Ou seja, a percepção de mim e do mundo passa por um envolvimento com o Outro. No caso da empatia externa, por exemplo, a mão estranha, do Outro, suscita uma percepção satisfatória, embora não adequada, exata, pois o que eu sinto como não-originário, pode passo a passo cobrir-se com a sensação originária do Outro. Assim, a constituição do mundo real externo torna-se possível pela experiência intersubjetiva, ou seja, pelo contato com o Outro. Na lembrança de minha infância eu me vejo com um Outro. Isto também é possível pela empatia. Mas o significado é outro. A empatia como fundamento da experiência torna-se condição de possibilidade de um conhecimento do mundo externo existente. Desde a orientação no espaço, parto da relação do Outro para ter um referencial de posicionamento no mundo. De modo que um dos elementos constitutivos do corpo próprio é sua posição a partir de um ponto zero de orientação. Este elemento incide sobre o mundo espacial externo. O corpo do outro indivíduo como puro corpo físico é, como uma outra coisa, uma coisa no espaço, isso é dado como um corpo localizado em um determinado ponto do espaço, uma determinada distância de mim. O mundo que eu atinjo pela imaginação é, de forma contrastante, um mundo que não existe. O mundo que eu atinjo ‘empatizando’ é um mundo que existe, ou seja, isto é posto como mundo que é do mesmo modo como é posta aquela percepção originária. O mundo percebido e aquele dado de modo empático são o mesmo mundo visto em modos diversos.

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Merleau-Ponty, por sua vez, estende a intencionalidade da consciência para o corpo, e esta é a sua novidade, pois, para ele, a intencionalidade não está na consciência pura, mas é própria de uma consciência encarnada. O corpo é o mediador entre o sujeito e o mundo, pois é pelo ser corporal que nos descobrimos como ser-no-mundo (o in-der-Welt-Sein de Heidegger). É na noção de “ser-no-mundo” de Merleau-Ponty que se reflete uma consciência engajada e sua existência. A intencionalidade não é exclusiva de uma consciência absoluta, pois, antes de mais nada, a consciência manifesta-se no próprio corpo. A noção de corpo enquanto fenômeno ou corpo-próprio remete a uma consciência que não é constituinte, mas perceptiva e intencional, voltada para a ação e seu elemento principal é a significação. Perceber é uma atitude que se opõe ao representar ao instaurar um conhecimento objetivo, porque a percepção inaugura um sentido que está enraizado histórica e culturalmente no mundo. No texto O Primado da Percepção e suas conseqüências filosóficas, Merleau-Ponty apresenta o conceito de percepção ligado à diferenciação entre verdade ideal e verdade percebida, a partir da qual irá traçar um elo, ou talvez esclarecer a existência deste elo, entre a percepção e a intelecção. Merleau-Ponty (1990) considera que a análise clássica da percepção o limita a um ato intelectual, temos a ideia de algo, o fechamos em uma síntese tentando extrair dele uma verdade, o conceito. Para Merleu-Ponty, retomando Husserl, a síntese não deve ser intelectual, mas de “transição”, porque o objeto real “se oferece como a soma interminável de uma série indefinida de perspectivas; cada uma das quais lhe diz respeito e nenhuma o esgota” (MERLEAU-PONTY, 1990, p.47) Merleau-Ponty passa da consciência intelectual para a consciência perceptiva, no sentido de situar-nos no âmbito de um logos nascente, de uma verdade originária que fundamenta o conhecimento: A experiência da percepção nos põe em presença do momento em que se constituem para nós as coisas, as verdades, os bens; que a percepção nos dá um logos em estado nascente, que ela nos ensina, fora de todo dogmatismo, as verdadeiras condições da própria objetividade; que ela nos recorda as tarefas do conhecimento e da ação. (1990, p.63)

Merleau-Ponty fala da necessidade da filosofia voltar ao mundo da vida, ao mundo das coisas para poder realizar um verdadeiro conhecimento: é a condição do olhar que parte das vivências do sujeito epistemológico, uma vivência contextualizada no mundo que está aí, este mundo de “meu corpo”. O mundo percebido, o mundo da vida, é o fundo sempre pressuposto por toda racionalidade, todo valor e toda existência. Essa concepção, segundo Merleau-Ponty, não destrói a racionalidade nem a pretensão de um conhecimento verdadeiro, apenas pretende aproximá-los do mundo da vida. 7 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

Assim, percebemos muitas aproximações possíveis entre o modo com Edith Stein apresenta o corpo próprio em sua relação com o outro e com o mundo, como a empatia é o movimento, a ação que capta o mundo que, em Merleau-Ponty, vai aparecer por meio do conceito de percepção. E a intersubjetividade, em ambos, como uma tentativa de superar os limites que a fenomenologia de Husserl trazia em relação à constituição do Outro, muito mais como um objeto da consciência do que outra intencionalidade existente no mundo.

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Edith Stein and a proposal of corporeity Abstract: Edith Stein, in her thesis, The Problem of Empathy (1916), develops the concept of Einfühlung (empathic intuition, empathy) linked to a conception of how to be in the world of the subject (Self) in relation to the Other (I weird). Linked to the definition of empathy, she seeks to make explicit the subject as a psychophysical individual different from a physical object, to which a body, not so much as a physical body, but as a phenomenon called the body itself (Leib = living body, body cheered up). This study is part of the phenomenology of existence, such as MerleauPonty's, for example, in which the concept of self-body is evidenced as innovative in order to think of a new corporeity and a new epistemological subject, facing the objectively rational sense, arising from modern thought. Edith Stein's conception of self-body, under our reading, establishes the path of corporeity as essential to knowledge in philosophy and to art as an expressive body. Keywords: Body. Corporeal expression. Phenomenology.

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