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Ano 2 - nº 11 - Segunda fase - Dezembro de 2013 ISSN: 2316-6835 Reflexões sobre a imprensa homoerótica brasileira: da condição alternativa ao mercado...
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Ano 2 - nº 11 - Segunda fase - Dezembro de 2013 ISSN: 2316-6835

Reflexões sobre a imprensa homoerótica brasileira: da condição alternativa ao mercado editorial Muriel Emídio Pessoa do Amaral1

Compreender a história da imprensa homoerótica no Brasil é viajar no tempo, se despir de muitos dos preconceitos concebidos quanto aos comportamentos de homossexuais e entender a necessidade de comunicação que foi estabelecida por esses indivíduos ao longo dos anos. A história da imprensa homoerótica brasileira não é única, tão pouco contínua, várias referências e interferências atravessam os modos de produção e representação dessa qualidade de imprensa no Brasil, que foram de cunho econômico, social e cultural. O entendimento da homossexualidade e os modos de comunicação se tornaram condições para as produções dessa vertente de imprensa. Antes de entrar na história da imprensa homoerótica, é importante fazer um retrospecto sobre a condição dos homossexuais e o modo do qual eram interpretados a partir do século XIX. Não que antes desse período não houvesse homossexuais no país, mas esse recorte no tempo se faz necessário para compreender o modo como esses indivíduos eram representados em algumas áreas do saber, enquanto uma forma de difusão de conhecimento de aparato científico. O discurso da medicina atribuía à homossexualidade uma condição de inferioridade econômica, todavia, essa situação era destinada apenas aos homossexuais passivos, que na época eram considerados como sodomitas, como apresenta o estudo elaborado pelo médico Francisco Ferraz de Macedo, em 1872.

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Mestre pela Universidade Estadual Paulista (Unesp/Bauru), professor adjunto dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Universidade Norte do Paraná (Unopar), jornalista em Londrina.

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Quanto aos sodomitas ativos, são fornecidos especialmente da classe militar, do comércio, e dos artistas. Na classe militar, ou seja, por falta de tempo, ou por falta de meios, a sodomia tem tomado tal desenvolvimento que raros são aqueles militares que dela não façam uso. (GREEN; POLITO, 2006, p.76)

Com a entrada do século XX, a necessidade de buscar respostas biológicas para explicar a origem da homossexualidade. Experimentos e pesquisa foram realizados com base em fundamentos antropométricos para verificar se havia diferenças anatômicas entre heterossexuais e homossexuais; por isso, analisava o tamanho das mãos, cabeças, pés, pênis e outras partes do corpo, bem como altura e peso. Acreditava-se que tratamentos com hormônios pudessem reverter a condição do indivíduo à heterossexualidade. Hernani de Irajá, escritor e sexólogo do começo do século XX, pontua a opinião dele quanto à homossexualidade na obra Psicoses do Amor.

A homossexualidade é o amor ou a prática de atos sexuais entre indivíduos do mesmo sexo. Em geral, os indivíduos moral e fisicamente gastos, em estado de verdadeira decadência e corrompidos sob todos os aspectos, procuram reavivar as sensações embotadas com prazeres novos e estranhos. Donde o vício da pederastia. (idem, p.81)

Paralelamente às interferências médicas, o discurso jurídico também menosprezava e desconsiderava comportamentos dos homossexuais. No Brasil, a homossexualidade nunca foi considerada crime tipificado, como fora na Inglaterra até 1967 e como é em alguns países islâmicos. Mas, muitos homossexuais, travestis e artistas foram enquadrados pelo Código Penal republicano, segundo o Decreto nº847, de 11 de outubro de 1890. A legislação condenava à prisão indivíduos que promovessem a violência com “o fim de saciar paixões lascivas ou por depravação moral” (idem, p. 77) ou que de alguma forma pudesse ofender a moral e bons costumes. Como apresenta Green e Polito, “usar nomes trocado ou mudado, de título, distintivo, uniforme ou condecoração que não tenha” (p. 79) por essa condição que transformistas e artistas eram condenados. Sem distinção, “vadios e capoeiristas” também estavam sujeitos à prisão por promover “a subsistência por meio de ocupação

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proibida por lei, ou manifestamente ofensiva da moral e dos bons costumes” (pp. 7879). A condição discriminatória não ficou no passado, mas se alastra até os dias de hoje. Diante dessa condição, a homossexualidade foi considerada como sendo uma abjeção, conforme Michel Foucault (1988), ou seja, as manifestações de sexualidades que chocam com a condição heteronormativa de representação pode causar estranhamento e repulsa. A homossexualidade, bem como outras manifestações da diversidade sexual, por uma questão de poder, é considerada uma condição marginal dentro do espaço social. A consideração desviante da homossexualidade da forma heteronormativa origina dispositivos e tecnologias para a disciplina, normatização e punição dos comportamentos que não se enquadram aos discursos relacionados com o poder. Essa relação não se encontra apenas na sexualidade, mas em manifestações morais que possam ameaçar essa relação de poder como a disciplina do corpo, da sanidade mental e dos discursos da saúde. A apresentação desse panorama elucida o modo como eram interpretados os homossexuais e oferece condições para compreender em que contexto surgiram as primeiras publicações homoeróticas. A necessidade de informação, conhecimento e, principalmente, de cidadania foram elementos primordiais para o desenvolvimento desse segmento de jornalismo, como sendo imprensa alternativa.

Sexualidade e Imprensa alternativa A condição de ser uma possibilidade a mais de informação foi um leme para a constituição da comunicação alternativa. É importante pontuar as condições necessárias que algum veículo precisa ter para ser considerado alternativo. No Brasil, a produção de material editorial de cunho alternativo sempre se fez presente, ainda mais durante os períodos de ditatoriais, como a ocorrida no governo dos militares entre os anos de 1964 a 1985. As nações que passaram por regimes dessa qualidade estão sujeitas a déficits comunicacionais quando comparadas com países que usufruem minimamente da democracia como forma de governo.

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De acordo com Grinberg (1987), pode haver um desequilíbrio quanto ao fluxo comunicacional no sentido de envolver a participação de personagens (receptor e emissor) no processo comunicacional: há a concentração entre os emissores de informação, restringindo-se a poucos grupos, e a demanda não atende à quantidade de receptores da informação, que se seria a população em geral. Pela necessidade de comunicar e também de reverter a condição imposta pelas fortes estruturas de poder é que surgem os veículos de comunicação alternativa. Marques de Melo define a comunicação como sendo “um passaporte da cidadania, ao instrumento que viabiliza a integração de cada indivíduo à sua sociedade” (Marques de Melo, 1985, p. 11). É interessante perceber o pensamento do autor, mesmo não sendo direcionado às reflexões sobre a imprensa homoerótica, essa vertente de comunicação estabeleceu um diálogo marcante com a necessidade de manifestação de cidadania e reconhecimento. Ainda seguindo as reflexões de Grinberg, a condição alternativa se manifesta em duas considerações. Uma delas é quanto aos modos de produção do material, o veículo pode não usufruir de um sistema organizado para a elaboração e distribuição das edições enquanto uma logística esquematizada, impressão e produção. Em outra perspectiva, a imprensa alternativa se manifesta enquanto um discurso a mais frente aos mecanismos de poder, a oferta de um discurso de contraponto, amenizando as marcas de um discurso único. A imprensa homoerótica começou sob essas duas vertentes, tanto quanto um modo de produção menos elaborado quanto uma manifestação ideológica de representação. A primeira publicação de maior destaque foi O Snob2, que nasceu dentro de uma rede social de indivíduos homossexuais (na sua maioria homens) que organizavam reuniões, festividades e inclusive para a prática do transformismo, ou seja, vestiam-se de modo exagerado com roupas femininas. O Snob nasceu entre os meses de junho e julho de 1963, no Rio de Janeiro, pela iniciativa de Agildo Guimarães. Não contente com o resultado do concurso Miss Traje Típico, ele organiza a publicação como uma forma de protesto bem humorada.

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O termo faz alusão à uma gíria utilizada na época inspirada na língua inglesa que conotava “gente bem”, referia-se a pessoas de bom gosto, estilo ou dinheiro (Green, 2000, p. 300)

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Era uma publicação simples, em folha de papel ofício, datilografada (frente e verso) e impressa em mimeógrafo, com distribuição na Cinelândia e em Copacabana. (...) Com o tempo, O Snob tornou-se conhecido dentro da comunidade gay carioca. Transformando-se numa minirrevista, com capa, ilustrações coloridas, pequenos anúncios e mais de trinta páginas. (PÉRET, 2011, p. 19).

A intenção do veículo era de servir de agente aglutinador, principalmente entre os homens mais efeminados. Foi um espaço encontrado para as manifestações desses indivíduos, trazendo temas como entretenimento, cultura, opções de lazer e moda e também reportagens como “História do Brasil pelo método confuso” e “Introdução à Psicanálise” (idem, ibidem). Em um primeiro momento, O Snob não teve um posicionamento político, a publicação passou por modificações e uma delas foi de entender a diversidade de representações das identidades, não compreendendo a homossexualidade como sinônimo obrigatório de feminilidade. Os assuntos de cunho mais políticos passaram a estampar as páginas da publicação, como as edições do ano de 1968.

[...] os movimentos estudantis, de jovens e revolucionários que varreram o mundo em 1968 claramente influenciaram o grupo [do’ Snob] e o jornal refletia a mudança de atmosfera evidente no Brasil. Ao longo desse ano explosivo, praticamente todo número de O Snob trazia um editorial ou um artigo referindo-se à Guerra do Vietnã, às manifestações em Paris ou ao movimento hippie, além dos protestos de estudantes internacionais e brasileiros. (GREEN, 2000, p. 311)

O Snob parou de circular em junho de 1969, após 99 edições regulares e uma edição como retrospectiva. De acordo com Green (2000), as tensões que começaram a ficar mais evidentes por conta do regime militar e, por esse motivo, a publicação encerrou as atividades. Todavia, um grupo de colaboradores do’ Snob trouxe à tona os movimentos da imprensa homoerótica com o lançamento do jornal “’Gente Gay’, a primeira de uma onda de novas publicações que marcaram o início de um movimento politizado de gays e lésbicas no país” (GREEN, 2000, p.314).

Acendendo o Lampião Com esse movimento, a imprensa homoerótica sai do plano das contemplações da vida burguesa e urbana e se relaciona com os posicionamentos ideológicos de

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reivindicações de reconhecimento de cidadania. Dentro dessa iniciativa surge o jornal Lampião da Esquina, em abril de 1978. Fruto de um grupo de intelectuais, jornalistas, artistas e escritores, o jornal foi resultado de reflexões dos movimentos organizados nacionais e internacionais que se propuseram a retirar os homossexuais de condições marginalizantes no espaço social. Um dos idealizadores do projeto do Lampião da Esquina foi o escritor e jornalista João Silvério Trevisan, que pôde acompanhar de perto o manifesto que aconteceu no Stonewall Inn, bar gay localizado em Greenwich Village, bairro de Nova York3, enquanto esteve exilado forçado nos Estados Unidos. Após a volta dele, o grupo composto por Jean-Claude Bernardet, Aguinaldo Silva, Peter Fry, Adão Costa, Antonoio Chrysóstomo, Clóvis Marques, Francisco Bittencourt, Gasparino Damata e João Antônio Mascarenhas receberam a visita de Winston Leyland, editor-chefe da Gay Sunshine, publicação estadosunidense, voltada ao público gay. A partir dessas reuniões, começaram a aventar o desejo de oxigenar a intenção editorial de publicações de cunho homoerótico. “No formato tabloide característico da imprensa alternativa da época, com dezesseis páginas e periodicidade mensal” (Assis Simões; Facchini, 2009, p. 84). O nome do jornal lida com a correspondência ao apelido do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, uma figura dotada de masculinidade e bravura e que teve a sexualidade desconfiada, e também ao objeto que traz luz, claridade. A esquina remete à condição marginalizantes de muitos homossexuais. Dessa forma, o nome da publicação oferece uma relação entre a força e a claridade para a necessidade de mudanças dos paradigmas estabelecidos aos homossexuais daquele período.

O jornal procurava oferecer um tratamento que combatesse a imagem dos homossexuais como criaturas destroçadas por causa do seu desejo, incapazes de realização pessoal e com tendências a rejeitas a própria sexualidade. Mas não fazia isso de modo a concentrar-se exclusivamente nos homossexuais e, sim, apresentando-o como uma entre as várias 3

O manifesto de Stonewall aconteceu no dia 28 de junho de 1969 após uma vistoria realizada pela polícia. Indignados com as frequente humilhações, o público do bar (gays, lésbicas, travestis) reagiram de modo inesperado pelas constantes agressões a que estava sujeitos na abordagens dos policiais. Os frequentadores, principalmente as travestis, reagiram com socos e pontapés. A intenção do grupo foi de se posicionar enquanto à exigência de respeito pela diversidade sexual.

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minorias oprimidas que tinham direito a voz. (ASSIS SIMÕES; FACCHINI, 2009, p.86)

É a vontade de retirá-los dos guetos e trazê-los à tona na convivência social, com se percebe na primeira edição do jornal, de número 0. É interessante pontuar que a questão de cidadania não era aclamada apenas aos homossexuais, mas também a outras “minorias”, com ambientalistas, feministas e negros.

[...] o que Lampião reivindica em nome dessa minoria é não apenas se assumir e ser aceito - o que nós queremos é resgatar essa condição que todas as sociedades construídas em bases machistas lhes negou: o fato de que os homossexuais são seres humanos e que, portanto, têm todo o direito de lutar por sua plena realização, enquanto tal. Para isso, estaremos mensalmente em todas as bancas do País, falando da atualidade e procurando esclarecer sobre a experiência homossexual em todos os campos da sociedade e da criatividade humana. Nós pretendemos também, ir mais longe , dando voz a todos os grupos injustamente discriminados - dos negros, índios, mulheres, às minorias étnicas do Curdistão: abaixo os guetos e o sistema (disfarçado) de párias. [...] (Lampião, Ed., n. 0, Rio de Janeiro, abr. 1978).

Durante muito tempo essa ideologia permaneceu nas páginas do jornal. Mesmo sendo editado no período de regime militar, nenhum colaborador do Lampião foi preso, mas na primeira edição a equipe sofreu as consequências de defender os direitos dos homossexuais. A equipe defendeu o jornalista Celso Curi, que mantinha a “Coluna do Meio”, espaço editorial destinado a homossexuais no jornal Última Hora, de São Paulo4. Além disso, houve atentados a bancas de revistas e distribuição de panfletos contra esse e outras publicações alternativas e “pornográficas”. Sobreviver com baixo orçamento e driblar as situações administrativas se tornaram constantes nas atividades do jornal. A despeito dos desentendimentos no grupo, Lampião encerrou as atividades pelas próprias condições sociais que ocorreram 4

“Era a primeira coluna explicitamente voltada para um público homossexual divulgada num veículo da grande imprensa, que noticiava tanto a abertura de novas boates gays quanto informações ligadas ao movimento gay e lésbico dos Estados Unidos e de outros países. Ao longo de seus três anos de existência, de 1976 a 1979, a coluna sofreu processo movido pela União com base na Lei de Imprensa, por suposta ofensa à moral e aos bons costumes. O sucesso da “Coluna do Meio” provocou então um interesse crescente da grande imprensa pelo fenômeno da homossexualidade, como exemplifica a longa matéria do semanário Isto É, “O poder homossexual”, publicada na edição de 28de dezembro de 1977, cuja a capa era ilustrada por duas mãos masculinas entrelaçada” (Assis; Facchini, 2009, pp. 78-79)

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no país, ou seja, o enfraquecimento da censura quanto ao conteúdo dos materiais que passaram a circular no Brasil. Isso ocasionou a invasão de publicações pornográficas e de sexo explícito. Como uma tentativa de sobrevida, Lampião também passou a veicular fotografia e textos de conteúdo pornográfico na tentativa de sobreviver à crise que passava. Em vão, as venda dos exemplares caiu drasticamente.

Homossexualidade e consumo O fechamento do Lampião da Esquina deixa uma lacuna tanto na situação da comunicação para o público homossexual, como também nos assuntos pertinentes da militância e também de reconhecimento da dignidade desses indivíduos. Ainda mais que, nos anos de 1980, ocorre a epidemia de HIV/Aids no Brasil e no mundo. Como a imprensa homoerótica estava latente desse período, a informação ficou por conta das publicações de grupos de militância como o boletim produzido pelo Grupo Gay da Bahia, em 1983, os informativos Pela Vidda, fundado no Rio de Janeiro por Hebert Daniel. Na grande imprensa, a Aids foi preconceituosamente considerada como o “câncer gay”, a doença foi estigmatizada com preconceito e desinformação. Associada à homossexualidade, a Aids era o passaporte para a morte, como aponta Buttler dentro de uma relação de poder e normatização No discurso médico-jurídico que surgiu para administrar e reproduzir a epidemia de AIDS, as formas jurídicas e produtivas do poder convergem para efetuar uma produção do sujeito homossexual como portador da morte. (BUTLER, 2009, p.93)

A condição de oferecer resistência aos códigos de poder também se enfraqueceu nas publicações que circularam a partir dos anos de 1990. A militância e o pensamento ideológico perderam força para a influência do capital e a espetacularização do corpo e dos prazeres. Homens nus passaram a estampar as páginas da G Magazine a partir de 1997, agora com o pênis ereto. A sensualidade também foi explorada na revista Junior, uma questão para atender às necessidades do

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mercado5 como apresenta o editorial da primeira edição da revista Junior, que passou a circular em 2007.

Você sabe há quanto tempo acompanhamos a efervescência do mercado editorial gay no exterior? Anos e ano, morrendo de vontade de fazer uma revista bacana por aqui. Ela seria assumida sem ser militante, sensual sem ser erótica, cheia de homens lindos, com informação para fazer pensar e entreter. (...) Mesmo sem saber exatamente quantos somos e onde estamos, acabamos evidenciando nossa existência pelo vigor do nosso mercado (...). Outras áreas como o turismo e moda já descobriram que não vivem sem nós. Outros estão começando a entender isso agora (Junior, nº1, out. 2007).

É interessante perceber que a atual imprensa homoerótica não está distante dos modos de representação social na atualidade, quando o consumo se torna uma forma de cidadania (Canclini, 2008). Além do mais, a mídia exerce a função de promoção de prazer e de consumo. Através do aprimoramento constante do conhecimento das necessidades de consumo do sujeito, a mídia produz um discurso sempre pronto e presente para amenizar os sofrimentos do sujeito. O prazer sexual, sem dúvida, entra no jogo de manipulação da mídia, visando à satisfação da demanda de prazeres barrados do indivíduo. (...) a sociedade ocidental contemporânea se encontra na contemplação midiática um meio de manifestação de prazer. (RODRIGUES, 2007, p.47).

O corpo dentro dos veículos voltados para os gays se torna um produto de consumo, todavia de uma forma enviesadas da realidade dos corpos da maioria da sociedade, sendo um canal de representação da “felicidade” e consumo de prazer. Baudrillard (2005) acredita na manipulação técnica dos códigos referenciais dos fatos 5

A questão de consumo e mercado voltada para os homossexuais foi um nicho que atuação para empresas fisgarem a atenção desse público. Percebendo o poder de compra de parcela de muitos deles campanhas, produtos e eventos foram desenvolvidos para atender ao “Pink Money”, fenômeno de denominação mercadológica que visa explorar produtos e serviços para homossexuais, principalmente, masculinos. Entretanto há a necessidade de reflexão crítica na questão do consumo. “O homossexual é um grande negócio, conclui o mercado. Na maioria dos casos, a inclusão dos homossexuais nas estratégias do marketing não significa uma preocupação com as diferenças ou a dedicação a um trabalho social para diminuir as resistências ao grupo. O mercado trabalha somente sobre o espaço que já foi conquistado pelos homossexuais na disputa social. Dentro deste espaço, o investimento em publicidade e propaganda nos meios de comunicação segmentados para o público LGBT (lésbica, gays, bissexuais e transgêneros) acontece de modo regulado. A linha ideológica do veículo, a qualidade gráfica, o tratamento de reportagens, o grupo de colaboradores e articulistas presente no corpo editorial, entre outros fatos, determinam o perfil do anunciante. O anunciante, por sua vez, estabelece padrões estéticos para o veículo (Mendonça, 2012, pp. 106-107).

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para a construção de um discurso consumível, ainda mais quando se trata do consumo do corpo. Esse movimento de manipulação, o autor o denomina como “pseudoacontecimento” e “neo-realidade” (p.132), que também pode explicar as formas de representação dos corpos dentro desses veículos, como sendo uma construção alheia às formas denotativas de representação do consumo do corpo. O consumo se torna um mecanismo de manifestações simbólicas, com referências às fantasias e desejos, uma concepção romântica.

[...] o surgimento do consumo, com o da produção capitalista, requer uma ética e, neste caso, é seu romantismo e não protestantismo que fornece tal estímulo, pois ele enfoca a imaginação, a fantasia, o misticismo, a criatividade e a exploração emocional. (...) a atividade essencial do consumo não é a seleção, a aquisição ou o uso real dos produtos. O consumo “real” é, em grande parte, o resultado desse hedonismo “mentalístico”. A partir dessa perspectiva, o prazer que se obtém dos romances, pinturas, peças de teatro, discos, filmes, rádio, televisão e moda não é o resultado da manipulação, por parte dos anunciantes, ou uma “obsessão pelos status social”; é um gozo estimulado pela fantasia (FEATHERSTONE, 1995, p.45).

Com isso, notam-se as expressões de prazer e consumo dentro da imprensa homoerótica, acompanhando movimentos morais da atualidade e seguindo padrões de normatizações ofertadas, inclusive pela imprensa, que condiciona aos valores egóicos e hedonistas. Considerações Finais Pela análise da historiografia da imprensa homoerótica no Brasil, é importante perceber a mudança do conteúdo dessas publicações. Os valores da comunicação alternativa se esfarelam e passam se considerados as referências de consumo e prazer, muito longe das questões ideológicas e de resistência. A condição capitalista é reproduzida nessa qualidade de imprensa como um sinal de pertencimento à comunidade que integra esses indivíduos, um discurso normalizante para a representação do corpo e da identidade.

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Referências bibliográficas ASSIS SIMÕES, Julio, FACCHINI, Regina. Na trilha do arco-íris: do movimento homossexual ao LGBT. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2009. BUTLER, Judith. Inversões Sexuais. In: PASSOS, Izabel C. Freire. Poder, normatização e violência: incursões foucaultianas para a atualidade. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008. CANCLINI, Nestor Garcia. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: UFRJ Editora, 2008. FEATHERSTONE, Mike. O Desmanche da Cultura: globalização, pós-modernismo e identidade. São Paulo: Studio Nobre, 1995. FOUCAULT, Michel. A História da Sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 22ª impressão, 1988. GREEN, James N. Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX. São Paulo: Editora Unesp, 2000 _______________.; POLITO, Ronald. Frescos Trópicos: fontes sobre a homossexualidade masculina no Brasil (1870-1980). Rio de Janeiro: José Olympio, 2006. GRINBERG, Máximo Simpson. A Comunicação Alternativa na América Latina. Petrópolis: Editora Vozes, 1987. MARQUES DE MELO, José. Comunicação: teoria e política. São Paulo: Summus, 1985. MENDONÇA, Carlos M. Camargos. E o verbo se fez homem: corpo e mídia. São Paulo: Intermeios, 2012. PÉRET, Flávia. Imprensa gay no Brasil. São Paulo: Publifolha, 2011. RODRIGUES, Gabriel de Oliveira. Corpos em Evidência: uma perspectiva sobre os ensaios fotográficos da ‘G Magazine. Dissertação de Mestrado pela Universidade de São Paulo, 2007.